#?Foi algo que me causou um grande orgulho como brasileiro. Acho que será muito bom para o surf nacional, vai ajudar a aquecer o mercado, além de reforçar a imagem do país como uma potência do esporte no mundo todo.?
Com essas palavras o big rider pernambucano Carlos Burle, 34 anos, campeão do prêmio Nissan Xterra XXL Big Surf Awards de 2002 por ter surfado a maior onda da temporada, iniciou a entrevista coletiva concedida na última terça-feira (23/04) no bar Surf Adventures ? do qual é proprietário ?, no Rio de Janeiro.
Sempre ao lado do parceiro, o também pernambucano Eraldo Gueiros, Burle contou que ainda está digerindo a vitória, mas acredita que ela significou a quebra de barreiras políticas que sempre existiram ao reconhecimento do surf brasileiro. Tanto é que afirma não ter ficado surpreso com o prêmio.
?Teria sido uma grande injustiça se não tivéssemos sido premiados?, afirma o surfista. Para ele a vitória foi resultado de um trabalho focado de muitos anos, combinado com uma feliz seqüência de fatores, como o jet-ski emprestado pela salva-vidas Shawn Aladio, espécie de anjo da guarda da galera em Maverick?s, a presença do fotógrafo Frank Quirarte no canal, o swell gigante e clássico e a competência do parceiro Eraldo na hora de rebocá-lo na onda certa.
Burle conta que quando começou a treinar com Eraldo nunca imaginou que chegariam tão longe. ?Sempre busquei abraçar as oportunidades que surgiram na minha vida e dar valor às pessoas que acreditavam em mim. Acho que esse foi o segredo para que as coisas dessem certo?, recorda o pernambucano.
Eraldo, por sua vez, lembra que no começo, quando eram vistos treinando nas merrecas do Meio da Barra (RJ), ouviu muitos comentários maliciosos. ?Diziam que isso não ia dar em nada, mas no final provamos nossa capacidade. Veio aquela onda de 64 pés e ganhamos o título. Estou realmente muito feliz e orgulhoso?, conta.
#Questionado sobre a idade, acima da média, dos praticantes de Tow-In, Burle acredita que isso se deve ao fato do pouco tempo da modalidade. No futuro, acredita ele, deve haver duplas mais jovens à medida que a prática seja iniciada mais cedo ? isso já foi comprovado com a jovem dupla havaiana Makua Rothman e Ryan Rawson, quarta colocada na primeira Tow-In World Cup, em Jaws (HAW).
Sobre a possibilidade da criação de um circuito mundial de ondas grandes sancionado pela ASP e paralelo ao WCT, Burle diz que gostaria muito que isso acontecesse, mas reconhece que exigiria uma logística mais complexa.
Porém, tanto Carlos Burle como Eraldo Gueiros teme que esse título leve ao crescimento descontrolado do tow-in. ?O esporte tem muitos riscos, não é para aventureiros?, explica Eraldo. ?É necessária uma bagagem muito extensa como surfista para poder se aventurar num mar grande de jet-ski?.
Segundo a dupla, há diversos fatores em jogo. ?A máquina pode enguiçar, a corda pode produzir sérias lesões e, enfim, você pode se colocar numa situação maior do que sua capacidade de sobrevivência?. Eraldo complementa dizendo que entre os praticantes do tow-in, fala-se que você só pode entrar num mar de jet-ski se for capaz de entrar no mesmo mar remando.
Um risco comum no tow-in, por exemplo, está no fato da máquina ficar ?patinando? no espumeiro por falta de aderência. O piloto acaba não conseguindo sair da zona crítica e correndo o risco de ser varrido pelas ondas durante o resgate ao surfista.
O treinamento para o tow-in é pesado e deve ser encarado como algo de longo prazo. Burle, por exemplo, vem treinando desde 95, quando fundou o Powersurf Team, e já fez cursos de mecânica e primeiros-socorros. Atualmente ele mantém uma rotina diária de três a quatro horas de treinamento dentro e fora d?água com seu parceiro.
#Tanto Eraldo como Burle reconhecem que o tow-in é uma nova página na história do surf, mas não acham que possa surgir uma rixa com os surfistas de remada. Na Califórnia, ambientalistas têm criticado a poluição gerada pelo motor 2 tempos, presente nas máquinas utilizadas hoje em dia, que libera pequenas quantidades de diesel na água. ?Mas os fabricantes estão criando novos modelos com motores 4 tempos, que poluem menos?, explica Eraldo.
Questionados sobre o fato de o Mundial de Tow-in ter sido organizado e vencido por brasileiros e a conseqüente possibilidade de ter ajudado a criar um clima favorável à sua vitória no Nissan Xterra, a dupla foi unânime em dizer que temia justamente o contrário. ?Na verdade, temíamos que os gringos achassem que já tínhamos bagunçado demais a casa deles e não fossem querer nos conceder mais um prêmio. Felizmente isso não aconteceu?, diz Burle.
Sobre o treino da modalidade no Brasil, Eraldo apresentou uma fórmula interessante: ?É simples, basta fazer tudo aqui e depois multiplicar mentalmente por dez para ter uma noção de como deve ser lá fora?.
Jaws, no Hawaii, e Maverick?s, na Califórnia, empataram na preferência de ambos sobre o pico ideal para a prática do Tow-in, mas os dois reconheceram que Jaws é mais clássico por ter água quente e azul, porém igualmente, se não mais, perigoso. ?Tomei uma vaca em Jaws que me traumatizou?, lembra Burle, que acredita um dia poder surfar a onda de 100 pés. ?Ela existe, basta encontrá-la e ter o equipamento certo?, sonha o big rider.
Para ele o medo é um aliado em situações como essa, pois deixa o surfista em permanente estado de alerta. A dupla também compartilha do mesmo motivo para descer montanhas de água: é a melhor sensação de suas vidas. ?O tempo congela, tudo ganha outra dimensão. É como se não houvesse mais nada no mundo naquele momento?, conta Burle.
O próximo projeto da dupla é descobrir novas ondas no Chile ? mas, por enquanto Eraldo se recupera de uma costela quebrada, que ganhou fazendo kite surf. ?Esse sim é um esporte perigoso!?, afirma descontraído Eraldo, encerrando a coletiva com a alegria típica daqueles que viram de perto os deuses do surf… e sobreviveram.
O artista por trás das cortinas ? O shaper carioca Beto Santos também tem motivos de sobra para comemorar a vitória de Burle. Afinal, ele é o responsável pela prancha usada pelo surfista no dia 21 de novembro de 2001, em Maverick?s (CA), que valeu US$ 50 mil, um carro e provavelmente o maior título da história do surf brasileiro ao pernambucano.
?Estou muito orgulhoso de ter participado desse resultado. É como se a vitória também fosse minha, pois além de excelente atleta e parceiro, o Burle é um grande amigo meu?, disse o shaper.
Sobre a prancha, ele faz questão de descrever: ?A prancha é uma 7 pés, com 16 ¾ polegadas de largura e 1 ¾ de flutuação. No fundo, um full concave morrendo flat na rabeta. O concave tem como objetivo formar um trilho sobre o qual a prancha corre, ganhando mais direção e evitando que ela desgarre. Esse tipo de prancha tem que ser mais reta do que as convencionais, sem a curva na rabeta (kick-tail). Além disso, são usadas seis laminações de 6 onças no fundo e 10 laminações no deck para dar o peso ideal.?
Beto Santos agora está envolvido no que chama de Tow-in Project. ?Nosso objetivo é acumular o máximo de conhecimento sobre o shape ideal para a modalidade e criar um laboratório avançado para esse tipo de equipamento. A meta agora é avaliar a qual velocidade corre a prancha numa onda com mais de 40 pés. Essa informação pode ser valiosa para nosso trabalho?, explica.
#Em maio, Carlos Burle irá explorar a costa do Chile em busca de ondas gigantes. Para isso levará consigo quatro pranchas feitas por Beto: 5?11, 6?3, 6?4 e 6?9. O projeto também contará com um pouco de experimentação.
A 6?4, por exemplo, terá a rabeta swallow, enquanto as demais usarão a roundpin, como de costume. ?Precisamos experimentar, ver como funcionam os diferentes modelos. Só assim evoluiremos?, destaca o shaper.
Burle está satisfeito com os resultados alcançados com as pranchas de Beto. ?Nas condições em que surfo não há margem de erro, se o equipamento não funcionar, já era?, diz.
A própria prancha que o levou ladeira abaixo em Maverick?s tinha alguns ajustes a serem feitos: ?Ela tinha muito concave. Nas próximas o Beto já vai levar em consideração essa minha observação?, explica o big rider.
Essa dupla surfista/shaper ainda deve trazer muitas outras alegrias ao Brasil, pois já mostrou em 2001 à que veio e do que é capaz: arrombar as portas do big surf e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.