Brasileiros pintam Morro Negrito de verde e amarelo – Parte I

Janeiro de 2001. O milênio não começou muito animador para os surfistas brasileiros, e um verão praticamente flat assolou a costa do País como há muito tempo não acontecia. A falta de ondas e a fissura acumulada levavam os pensamentos longe, à lugares onde tubos rodavam como água, largos e vazios. A única solução para essa agonia seria fazer uma trip para fora de São Paulo, e logo.

No início do ano, eu havia recebido um e-mail do jornalista e colaborador do site Waves, Daniel Neris, de Santos (SP), sobre sua próxima empreitada. Ele contava que iria passar uma nova temporada de três meses no Panamá, trabalhando como fotógrafo e surf guide no Surf Camp Morro Negrito, em Isla Ensenada, onde já havia trabalhado no ano passado. O proprietário do camp, o americano Steve Thompson, o havia chamado de volta mais cedo e Daniel embarcaria na segunda semana de Janeiro. Comecei a vislumbrar a solução para o meu problema.

Algumas semanas surfando as famosas e perfeitas ondas panamenhas eram tudo que eu precisava para aliviar o stress (leia-se fissura). Iniciei então uma série de telefonemas e trocas de e-mail a fim de esquematizar a barca.

Acabou sendo mais fácil do que eu imaginava, e em poucos dias já estava tudo agilizado para a viagem. Apesar de não ser a época ideal para surfar o lado do Pacífico, que rola bom no período das chuvas (maio a outubro), Daniel me garantira que teria boas ondas quase todos os dias. Eu não poderia adiar essa barca, pois fevereiro era o mês mais apropriado para a viagem, e a fissura era sufocante.

Pranchas embaladas e passaporte na mão, lá estava eu no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP), pronto para embarcar rumo à Cidade do Panamá. O vôo faria escala em Bogotá e depois seguiria rumo ao destino final. Seriam cerca de nove horas no total, que passaram tranqüilamente.

Já no Aeroporto do Panamá, esperei cerca de uma hora e meia a chegada de César – sogro de Steve -, um senhor simpático e prestativo que costuma fazer o translado para os surfistas que freqüentam o camp. A demora já estava gerando uma certa ansiedade e despertando o instinto de sobrevivência que sempre surge em lugares desconhecidos. Junto com ele veio seu filho Jorge, e motorista da van (que está sempre atrás de um jeito de tirar dinheiro dos turistas). De lá, seguimos direto para um hotel.

Uma das características da região equatoriana é a grande influência exercida pelas marés, que possuem uma variação muito grande nessa região (quase 17 pés). Por esse motivo, eu teria que dormir a primeira noite na Cidade do Panamá, e só na manhã seguinte seguiria viagem rumo à Morro Negrito, pois o barco só poderia me pegar no pequeno porto com a maré cheia.

Às quatro horas da manhã eu já estava de pé, esperando a van de César que nos levaria – eu e mais três americanos, Zack, Andrew e Tim, que também estavam no hotel – até a estação rodoviária. Lá, nós pegaríamos um ônibus até um ponto no meio da estrada para David (cinco horas de viagem), a segunda maior cidade do País, onde outra van nos levaria até Porto Iuris (mais uma hora), no qual o barco estaria nos esperando para mais 45 minutos até a ilha. Após essa longa jornada, chegamos em Morro Negrito por volta de uma da tarde.

O visual alucinante e rodeado de verde já compensava toda a epopéia para chegar até ali. As ondas estavam pequenas, mas dava para ver que existia um potencial enorme, bem em frente ao camp. A onda, um point break chamado Emily’s, quebrava perfeita para esquerda, porém com apenas meio metro. O sol escaldante e a água quente comprovavam o clima mais que tropical da região. A partir daí eu tinha quatro semanas para esperar pelo próximo swell.

A ilha de Morro Negrito é totalmente selvagem, e apenas algumas famílias vivem no local. O surf camp, que existe há dois anos, é o único estabelecimento comercial que traz pessoas de fora à ilha. E mesmo assim é bastante rústico e nem eletricidade possui. A energia utilizada provém de um gerador e, recentemente, de painéis solares (ver quadro – parte II).

Existem cerca de dez picos de onda ao redor da ilha, sendo apenas quatro acessíveis por terra. Além de Emily’s, outro pico no qual se chega a pé – cerca de 15 minutos – é também um point break de esquerdas chamado The Point (ou La Punta, pelos nativos), que produz um tubo perfeito. As outras duas ondas, The Wedge e El Toro, são beach breaks que salvam o dia quando o swell está pequeno – cerca de 40 minutos de caminhada. As demais ondas são acessíveis apenas por água. O camp possui três barcos disponíveis para levar os surfistas até elas. Sandbar, um beach break que produz direitas longas e perfeitas (e boas esquerdas também) é um dos preferidos da galera, pois sempre tem onda e não oferece tanto perigo.

Em frente ao camp existem outras duas ilhas, Silva de fora e Silva de dentro, que oferecem bons picos para o surf. Em Silva de fora, distante 40 minutos de barco, quebra uma boa direita chamada Nestles. Curta e pesada, ela rola sempre maior que os outros picos. Atrás da ilha rolam outras duas boas esquerdas: P-Land (P de piedras), que possui uma pedra sinistra no meio da onda e Left Overs, uma onda extensa e manobrável. Em Silva de dentro rola uma onda chamada Junior’s – que recebeu esse nome de um brasileiro, o primeiro surfista a dropar o pico -, uma direta bem power.

O interessante é que cada uma dessas ondas funciona em condições diferentes e específicas de maré, então, como a variação da maré altera toda semana e o vento entra diariamente após as 11:00hs, é preciso estar atento para fazer a escolha certa de onde cair. Mas isso fica por conta dos surf guides, que conhecem bem as condições de cada pico.

O dia-a-dia em Morro Negrito basicamente não muda. Surf pela manhã, almoço, siesta e, às vezes, surf à tarde. A pesca é abundante no Panamá, e é uma boa opção para os dias de flat, bem como o mergulho. Após o jantar, a galera costuma assistir vídeos de surf e filmes, regados a muita cerveja Panamá e Rum.

Quando não tem swell, existe um ritual chamado “Board Sacrifice” que, diz a lenda, traz as ondas. Trata-se de uma grande fogueira onde é queimado um pedaço de alguma prancha partida ao meio no local (e não são poucas). O que poucos sabem, é que para funcionar é também necessário o “Human Sacrifice” (bebedeira geral, pois só através da ressaca, dos surfistas, é que o swell chega). E parece que o negócio funciona. Na nossa primeira tentativa, o ritual deu certo.

Tive a sorte de passar as duas primeiras semanas praticamente sozinho no camp. Na primeira, quando a maré predominante na manhã era a seca, surfávamos quase sempre em Sandbar, eu, Daniel, Emílio e os três americanos. Já na segunda semana, o grupo foi embora e fiquei eu e apenas um canadense no pico, que acabara de chagar. Como a maré predominante na manhã era a cheia, a esperança era a da entrada de swell que fizesse bombar The Point. Dito e feito. Após um “Board Sacrifice”, o pico quebrou durante três dias seguidos, e peguei mais tubos nessa semana do que praticamente em toda a minha vida. Apenas eu e Daniel na água. Enquanto um pegava a onda, o outro voltava no canal gritando. E vice-e-versa. E assim foi durante toda a semana. Também aproveitamos para surfar ondas maiores em Nestles, que também quebra na maré cheia.

Na terceira semana acabou o sossego, pelo menos em parte. Um novo grupo com uns dez americanos mais dois casais, um espanhol e outro argentino, chegou, e com isso acabaria a minha boiada de surfar sozinho a maior parte dos picos. Porém, nessa semana a maré estaria seca novamente pela manhã, então poderíamos surfar Sandbar de novo, já que o local é o que comporta o maior número de surfistas, por se tratar de um beach break.

Se por um lado o grupo trouxe o crowd, por outro quebrou um pouco a monotonia, com algumas noites mais agitadas, bebedeiras e outros “entretenimentos” antes não disponíveis na ilha. Junto com o grupo veio Ronni, um californiano que chegou para trabalhar de surf guide e ficou muito empolgado com as histórias que ouviu sobre o Brasil, prometendo uma visita aos novos amigos em breve. No final desta semana também chegou outro brasileiro, desta vez um carioca. Evaldo chegara da lendária Santa Catalina, e contou que o pico realmente é show, apesar do crowd.

Continua…

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)

Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.