Uma semana antes de sua vibrante e merecida vitória na primeira etapa do Super Surf, em Maresias (SP), o carioca Marcelo Trekinho, assim como a maioria dos surfistas brasileiros no Tour, estavam no West Australia, mais precisamente em Margaret River, para competir no penúltimo campeonato da perna australiana 2002, o evento seis estrelas Salomon Margaret River Masters.
Depois de fazer um free-surf de gala numa esquerda secreta rasa e tubular na companhia de Danylo Grillo, Marcelo Nunes, Danilo Costa e o filmmaker Anselmo “Cachorrão” Venansi, Trekinho assistia as últimas baterias do dia com a galera no estacionamento do Main Break, pico onde rolou o campeonato.
Passaram-se alguns minutos e ao contrário de todos presentes, Trekinho mantinha seu olhar fixo no reef break localizado mais ao Norte de onde acontecia o evento conhecido como “The Box”.
Essa onda forte e tubular é formada quando a ondulação vinda do Sul se encontra com uma rasa laje de coral, que se estende por mais de 100 metros até chegar na areia.
The Box ficou famosa nos últimos anos como uma das ondas mais pesadas e sinistras do mundo.
E essa reputação é merecida, pois apesar de não quebrar muito grande, The Box é uma onda muita rápida e quadrada (daí o nome The Box, que significa “a caixa”), que se forma sobre um fundo de coral muito raso.
Surfistas experientes e viajados ja se deram mal nesse pico. Ross-Clarke Jones, por exemplo, arrebentou o joelho no reef há alguns anos atrás e ficou de molho durante seis meses.
Recentemente, o atual campeão mundial CJ Hobgood, contundiu a coluna ao bater as costas contra o fundo de coral.
Mesmo assim, a recompensa de pegar um bom tubo no pico supera o medo e a onda continua a atrair surfistas de todos os cantos para a região.
De repente, Trekinho se levantou e disse com a maior convicção: ?Tem onda em The Box, tô indo pra lá agora. Alguém quer vir??.
Ninguém se manifestou, pois o mar nesse momento não estava liso e não havia absolutamente ninguém no pico.
Trekinho, inabalado, se levantou, pegou sua prancha e foi sozinho mesmo. Vendo a oportunidade de fazer altas imagens exclusivas, o filmmaker Cachorrão não vacilou e foi junto.
Depois da longa remada até o pico, nossos dois amigos se encontravam sozinhos na água. Trekinho sozinho no line-up e Cachorrão sozinho no canal.
?Tava difícil brother. Eu tava sozinho e aquelas ondas sinistras entrando, tava meio difícil, mas peguei algumas ondas boas, dois tubões. Então, estou amarradão!?, disse Trekinho.
Cachorrão, sempre atrás da melhor imagem, foi se aproximando cada vez mais do pico. Quando percebeu já era tarde demais.
Uma série grande escureceu o horizonte no momento em que Cachorrão, também conhecido na Austrália como “Big Dog”, se encontrava na zona de impacto.
Nosso filmmaker tomou duas ondas na cabeca e quase se deu mal, mas, curiosamente, deixou sua câmera ligada para registrar o sufoco.
Analisando as imagens naquela noite, a galera pode constatar que por questão de centímetros Cachorrão não bateu no reef.
?Realmente aquela foi perto, a galera assistiu as imagens à noite e dava pra ver o reef passando do lado da câmera por questão de centímetros. Mas tudo bem, faz parte, o importante é que consegui boas imagens?, disse o eufórico Cachorrão.
De presente, a Mãe Natureza recompensou nossos amigos pela destreza e coragem tranformando o mar mexido em liso num piscar de olhos.
?Eu não acreditei, foi incrível. De repente o maral parou e as ondas ficaram iradas. Só estava eu e o Cachorro na água?, conta o surfista carioca.
?É tudo que um filmmaker sonha, altas ondas e condições ideais para se fazer imagens. Foi uma pena que já estava escurecendo?, disse Cachorrão.
Os dois ainda ficaram sozinhos por mais uma hora e Trekinho pegou várias ondas boas. Duas em especial, foram tubos rápidos e intensos. A essa altura, a galera já tinha percebido a melhora nas condições, e com o auxilío de um binóculo, as várias ondas de Trekinho.
Foi o suficiente para me convencer e também a Edgar Bischof. Em 20 minutos, estávamos na água remando para o outside. Chegando lá, pegamos três ondas cada um e o vento voltou a soprar maral e logo em seguida começou a escurecer.
Cachorrão e Trekinho já estavam na areia, de cabeça feita, sabendo que aquela janela no vento (e no crowd) são raras e que os dois acabaram de sair de uma session clássica.
Desse lado do mundo, nesse lugar selvagem e isolado, dois brasileiros encararam The Box sozinhos e saíram ilesos pra contar história. O que eles disseram sobre a façanha?
?Ano que vem tem mais!?.