Brasil na rota dos caçadores de ondas grandes

Há muitos anos venho monitorando as atividades de swell em uma laje localizada no litoral catarinense, atualmente conhecida como Laje do Zeca*, e já imaginava o real potencial da bancada, com possibilidade de ser a maior e melhor direita do Brasil, com formação semelhante ao Backdoor havaiano misturada com The Box, na Austrália. Ou a direita da Ilha dos Lobos. Mas, o mais interessante é que, para nossa surpresa, a esquerda também funciona muito bem.

 

A primeira expedição ao pico ocorreu em 2003, por vontade de Deus, reforçando minha teoria de que “nada acontece por acaso”. Estávamos em direção acelerada às já famosas esquerdas de Torres numa barca formada por Rodrigo Resende, Dê da Barra, eu e minha namorada Gisa. Lá na Torrica já nos esperava o Fabiano Tissot, que passava detalhes das condições e, a cada contato, ficávamos mais ansiosos pensando nos tubos que pegaríamos.

 

O “nada acontece por acaso”, neste caso, se concretizou quando o reboque quebrou bem na entrada dessa tal laje e o conserto levou horas, não dando mais tempo hábil para chegarmos a Torres durante o dia. Como solução pensei na opção deste pico, pois estávamos há alguns minutos dele e, apesar de ser tarde e sequer termos a certeza se ele realmente dava onda, poderíamos pelo menos saber se ela existia ou não.

 

O grande problema era os 10 km em direção ao horizonte sem ter certeza da sua localização correta, sem GPS e com apenas um jet-ski. Tudo isso tornava a expedição muito arriscada, sem contar o fato que, quando terminamos todas as funções que envolvem um esporte com tanto detalhes como o tow-in, o sol já se colocava atrás do topo dos morros que cercam a redondeza, nos deixando com muito pouco tempo de luz para navegar em direção à bancada, e menos ainda para experimentar as primeiras ondas surfadas à reboque neste lugar, que, de cara,  já demonstrava um grande potencial.

 

Tive o privilégio de pegar as três primeiras ondas e logo depois coloquei o Monster em mais três e a noite caiu muito rápido, nos deixando apenas a opção da volta, imaginando como estariam as séries maiores neste dia em que encontramos mais uma laje em nosso litoral brasileiro.

 

Em terra, já nos esperavam ansiosos e tensos a Gisa e o Dê da Barra, que tinha ficado incumbido da missão de, caso algum problema acontecesse, de alguma forma, comunicar os órgãos competentes e usar a sua experiência em resgates para orientar uma possível busca. Voltamos à costa guiados pelos faróis do carro, que piscavam propositadamente mostrando o caminho seguro de casa. Foram apenas seis ondas surfadas, mas suficientes para catalogarmos mais uma das grandes lajes escondidas no nosso país.

 

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Desde então muitas expedições foram realizadas na busca de registros do real potencial do pico, mas sem sucesso. Sempre com muito vento ou com o swell que não estava com o tamanho ou direção adequados. Enfim, as famosas prestações do consórcio comuns a quem vive à procura de ondas grandes. No mês de maio desse ano as equipes da ESPN, Fluir e Waves registraram algumas imagens que já davam ao público a idéia do que poderia vir a cada investida.

 

Na última semana do mês de maio a Storm Surf Team, juntamente com nosso amigo Richard Johanpeter e com a orientação da Associação de Surfistas do local, fez mais uma investida. Conseguimos registrar algumas imagens que, com certeza, ainda não passam a realidade das ondas, mas demonstram um pouco do felling do surf adventure que corre nas veias da galera e alimenta o soul surf  nesses “tempos modernos”.

 

A história do surf mundial pode ser contada em muitos fatos marcantes. No Brasil, a participação da família Johannpeter foi histórica e desbravadora e mais uma vez ajuda a mudar o rumo e as dimensões do esporte. Agora ela é representada por um dos caçulas, que traz a vontade da procura pela maior e melhor onda no sangue.

 

O início de tudo

 

Estávamos em Porto Alegre tentando, junto aos órgãos competentes, a possível liberação ordenada do surf na Ilha dos Lobos, quando vimos a possibilidade de grandes ondas no nosso litoral pela chegada de um ciclone extra tropical que se afastava e deixava em seu rastro uma calmaria de vento e um bom swell. Aí começou a correria, pois nosso jet estava em Floripa sem condições de uso imediato.

 

Entramos em contato com quase todos os envolvidos com o tow surf no sul do país, sem sucesso. Todos já estavam direcionados a algum outro lugar, e quando parecia que não conseguiríamos tudo que seria necessário para uma expedição desse porte, em um contato com o Richard ele topou ir com o seu jet e ainda conseguiu mais um, o que seria o mínimo para uma atividade de tow-in em um water reef longínquo com segurança. Para quem não sabe, a coisa funciona mais ou menos assim: se você tem um jet, não tem nenhum, se tem dois, tem um, se tem três, tem dois, e por aí vai.

 

 O segundo jet apresentava problemas de carburação e a saída era passar por Floripa para um check-up. Era quinta feira, meio dia. Saímos do RS em direção a Santa Catarina, com toda cautela na mortífera BR-101, para consertarmos o jet na oficina do Chelo, a Pró Náutica. Depois partiríamos para o local combinado, mas antes passamos para pegar nosso amigo e fotógrafo Christopher Arlington e então rumamos para mais uma trip.

 

Com a ajuda e boa vontade do Jorge, mecânico da equipe Pró Náutica que trabalhou até tarde no jet para dar condições seguras de uso, acabamos por testar a máquina às 22 horas na Lagoa da Conceição. Dado o OK, partimos novamente para estrada, sonhando acordados com o que nos esperava. Chegamos as 03:00 hs da manhã da sexta-feira e às 6 hs já estávamos de pé preparando o material para a session.

 

Foi um dia longo e feliz e em duas sessões de tow surf conseguimos dropar boas ondas e curtir a vibes de surfar ondulações solitárias no meio do oceano com apenas poucos privilegiados, sentindo assim o felling dos primeiros desbravadores de nosso litoral e dando continuidade à sua busca na procura da onda perfeita nesses oito mil quilômetros da costa brasileira, só que agora em alto mar, “abrindo” novas lajes que, possivelmente, colocarão nosso país no mapa das maiores e melhores ondas do mundo, criando um fato novo e inusitado, “a temporada de Brasil”.

 

Agradecimentos:

 

Em especial: Secretária de Turismo Municipal – Amadéa R. Felisbino
Star Lite Surfboards
Tiago Nunes (Jacaré), Sandrão, Butiá (shaper), Jardel, Chicão e a todos os locais que nos receberam muito bem e são os preservadores do local.

             


 *Gostaria de esclarecer que o fato do lugar ser atualmente conhecido como Laje do Zeca é para encobrir sua localização antes que haja uma procura desordenada e massificada do local por surfistas tecnicamente despreparados e muitas vezes não tão bem intencionados, e que esse nome foi dado em minha homenagem pela galera da ESPN, sendo que os próprios nativos concordaram em mantê-lo assim até quando acharem necessário. A idéia da Storm Surf Team e dos locais do pico é que ocorra um desenvolvimento esportivo, sócio-econômico e principalmente ambiental no local, para que o tow-in traga prosperidade ao município.

 

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