Por trás das notas

Brasil encolhe no WCT 2005

O bicampeonato de Neco Padaratz no circuito WQS, segunda divisão do surfe mundial, não reflete uma superioridade nacional.

 

Depois de um ano apenas regular, o surfe brasileiro começa 2005 com apenas seis surfistas entre os 48 do WCT, o Grand Slam do surfe internacional.

 

O circuito de 2004 terminou e com ele as chances dos surfistas estarem entre os 28 melhores colocados nas provas do WCT e entre os 16 melhores do circuito de acesso, o WQS. Ao final das contas os brasileiros ficaram representados pelo menor contingente desde 1992, e com certeza isso reflete algo mais do que apenas ondas surfadas e notas de juizes.

 

 

Com a subida do dólar nos últimos anos, o número de etapas do WQS no Brasil diminuiu e com isso as chances dos brasileiros de pontuar em casa, o que por muitos anos classificou nossos surfistas.

 

Temos tido só duas provas, ano que vem serão três, uma em Fernando de Noronha, que no próximo ano será de cinco estrelas, uma em São Paulo de quatro estrelas e outra em Florianópolis, esta a única de seis estrelas.

 

Mas, se analisarmos o fato que na Austrália também só tem dois eventos do WQS marcados para o próximo ano chegaremos à conclusão de que, assim como eles, nossos surfistas terão que conquistar os pontos necessários longe de casa. Portanto, é mais fácil concluir que o alto custo de investimentos para o sucesso no circuito mundial é o maior problema do surfe brasileiro no momento.

 

Como é preciso dois ou três anos competindo nas principais provas da divisão de acesso, e a maioria não tem nem contrato de um ano, fica muito difícil acreditar que nossos atletas terão um plano de carreira de longo prazo patrocinado por alguém. Não podemos esquecer que se um atleta não colocar o WQS como o único objetivo, fica muito mais difícil, se ele estiver dividido com outros circuitos nacionais a preparação perde o foco e o trabalho pode ser prejudicado.

 

Se tem um seis estrelas em Durban, na África do Sul, tem que treinar antes, chegar pelo menos cinco dias para adaptação, em vez de sair de uma bateria do SuperSurf direto para o aeroporto e chegar em cima da hora no evento que realmente interessa.

 

Daqui para frente só os fenômenos como Adriano de Souza, e outros poucos, terão chance de conseguir patrocínio de longo prazo e poder buscar um lugar na elite sem outras preocupações e sem cobranças para ontem. Aliás, a maioria das empresas nacional não investe em contratos de cinco ou dez anos.

 

O negócio é usar enquanto está na crista da onda, depois descartar, não existe sequer um planejamento pós-carreira, se quiser aposentadoria é melhor montar sua escolinha. É duro de acreditar que alguns atletas como Victor Ribas e Armando Daltro tenham ficado sem patrocínio, talvez o sistema esteja oferecendo soluções caseiras mais baratas e convenientes, as marcas internacionais se acomodam com suas estrelas e deixam nossos atletas de ponta de lado.

 

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Outra coisa que tem que ficar clara em relação ao número de atletas brasileiros no WCT é que o Brasil não é a maior potência do surfe mundial, nem a segunda, nem a terceira.

 

O Brasil é hoje a quarta potência do surfe em termos de nível técnico, qualidade dos surfistas em ondas de reef, estrutura competitiva e patrocínio.

 

A Austrália é sem dúvida a maior potência em surfe no mundo, tem o maior número de atletas profissionais no WCT, é campeã mundial por equipes nas categorias abertas e de base e tem o surfe feminino mais forte do mundo.

 

Os Estados Unidos, maior mercado do surfe mundial, tem tudo para ser o maior, mas não consegue uma estrutura de competição e de formação tão eficiente como os australianos. Agora, como estão se re-estruturando com a Surfing América e através da união do leste com o oeste, eles podem voltar ao topo do mundo.

 

O Hawaii, considerado uma nação no mundo do surfe, tem hoje resultados mais expressivos no surfe profissional do que o Brasil, tem hoje o tricampeão mundial, está com cinco surfistas no WCT para 2005 sendo que dois, os irmãos Irons, são candidatos ao título dos próximos anos. Só tem ficado atrás do Brasil nas competições da ISA, desde nossa segunda aparição como equipe, em 1988.

 

O Brasil, que é hoje uma das potencias do surfe mundial, com talentos que têm tudo para serem campeões da ASP, ainda faz parte do terceiro mundo e por isso não temos um padrão de patrocínios que possa se comparar com surfistas de ponta como Andy Irons e Joel Parkinson, que têm contratos milionários.

 

Não temos uma economia estável para dar tranqüilidade a um patrocinador de olhos fechados. Por outro lado, o comprometimento das novas empresas que são geradas por profissionais sem nenhuma visão de surfe é de curto prazo, são projetos para resultados anuais.

 

Nossa estrutura de competição é organizada, temos um circuito nacional que é o mais forte do mundo, o nível técnico de nossos amadores é altíssimo, o problema acontece na hora de se profissionalizar, pois ser profissional no Brasil é competir por dinheiro, ao invés de contrato na gaveta e salário na conta. Os moleques se profissionalizam sem contrato, nem plano, sem nada: ?se Deus quiser eu ganho o campeonato?.
 
Do jeito que as coisas vão, não vai ter espaço para todos, só para os fora de série ou para os ?paitrocinados?, ainda mais se o WCT continuar a ser fechado. O funil já começa nas impossibilidades financeiras, depois no ?corredor polonês? dos pré-classificados, isso sem falar nas barreiras da língua e culturais e do tempo excessivo fora de casa.

 

Temos que trabalhar para melhorar e espero que os empresários do surfe reflitam e revejam suas políticas de patrocínio. Feliz Natal e Ano Novo.

 

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