
Em entrevista ao repórter uruguaio Pablo Zanocchi, o peruano Karin Sierralta, vice-presidente da ALAS, explica as razões que levaram a entidade a novamente impedir a participação de brasileiros em seu circuito, o ALAS Tour.
Por quê os brasileiros foram novamente impedidos de disputar o ALAS Tour?
Todos os anos fazemos uma reunião com os melhores do Tour e a diretoria da ALAS. Ali são definidos vários pontos, entre eles a inclusão ou não do Brasil. Desta vez os atletas tornaram a votar contra, por vários motivos. O primeiro e principal é que no Brasil existem muitos circuitos profissionais e na América Latina (hispânica) não. Não há nem ao menos um.
Em segundo lugar, no Brasil existem milhares de surfistas. O nível é excelente e se contamos todos os países da América Latina não conseguimos igualar com o Brasil. O circuito ALAS irá comemorar seu quarto ano, a premiação está subindo, mas no começo era muito pouco. Então como permitir que venham 50 surfistas do Brasil e levem embora grande porcentagem da premiação? Os surfistas latinos perderiam interesse em continuar no circuito com tão pouco incentivo financeiro.
Em terceiro lugar, os patrocinadores não vêm com bons olhos a idéia de se promoverem no Brasil, pois seus produtos não entram ao mercado brasileiro devido à forte proteção à indústria nacional brasileira. Da mesma forma, os produtos brasileiros são muito pouco vendidos na América Latina.
Considerando que o principal objetivo da maioria dos competidores é se classificar para o WCT, você não acha isso pode afastar da realidade competitiva os competidores latino-americanos (não brasileiros)?
Nós fazemos um circuito atrativo para os atletas e patrocinadores. Os esportistas melhoram seu nível que cada dia aumenta devido ao ALAS e eles decidem se vão ou não ao circuito da ASP. Muitos de nossos atletas participam do WQS.
Mas não é irônico coroar um Campeão Latino de Surf sabendo que uma importante parte da América Latina não pode competir no circuito?
É irônico, mas nós no começo não colocamos nenhum empecilho ao Brasil. A diretoria está trabalhando um projeto para incluir o Brasil. Sabemos que é importante, mas não pudemos apresentá-lo antes do fim de ano. Se não for aprovado, não teremos outro remédio a não ser mudar o nome de nossa instituição para Associação Hispano-Americana de Surf.
No ALAS do Panamá em 2003, o brasileiro Stephan Figueredo competiu e ficou em segundo lugar. Não é uma prova de que o resto dos latinos pode competir com eles de igual para igual?
É claro, uma mostra disso é o último mundial amador no Equador, em que o Peru ficou atrás do Brasil por equipes e os países restantes superaram suas participações anteriores. Na ALAS temos surfistas de primeiro nível que podem fazer uma boa disputa com o Brasil. O problema é que não passam de 10 os de nível excelente. Se o Brasil chega com 50 desse nível, a competição perderia seu atrativo.
Há algo importante que desejo esclarecer. É que para nós é muito importante que o Brasil ingresse no circuito. Pessoalmente me afeta ainda mais, pois no Peru temos dezenas de brasileiros sempre com vontade de participar. Como comentei acima, o projeto é que nós trabalhemos com a CBS, pois eles trabalharam desde o início conosco, com o APAS e temos um relacionamento muito bom.
A CBS nos teria que enviar os nomes dos participantes e seriam seis por evento. Não deveriam estar competindo no SuperSurf nem no WCT, mas isso é apenas parte da proposta a ser aprovada nos próximos meses.
Já estive conversando no Taiti com meus amigos Marcos Bukão e com Jordão Bailo Jr para também trazer parte do staff brasileiro a alguns eventos do Tour. Talvez o staff brasileiro ingresse antes no Tour do que os atletas. Isso é por questões políticas dentro da ALAS, especificamente com os atletas. Pensamos que ao incluir o Brasil no circuito teremos várias datas no Brasil e talvez alguns patrocinadores em nosso circuito. Mas para isso teremos que esperar mais alguns meses.