Bodyboard é o paradoxo do surfe?

Eu não vivo o passado, o passado vive em mim – Paulinho da Viola.

 

Há muito não escrevia um artigo e, como disse Xandão, à época de meu aniversário, tenho vivido intensamente o esporte bodyboard. E essa vivência completou 33 anos. Durante os últimos meses, dediquei-me a conclusão do curso profissionalizante em Educação Física, que me qualificou mais uma vez pioneiro no bodyboard em todo país. O curso gerou uma imensa abertura e reconhecimento da escola Kung.

 

Em paralelo, acompanhava as notícias sobre o esporte e o surfe em geral. Algumas notícias e fatos chamaram a minha atenção, combinando presente, passado e futuro, filtrando de

maneira clara o que se passa com nosso esporte atualmente.

 

A primeira delas foi o falecimento de Nilton Barbosa, o primeiro a incluir a foto de um bodyboarder brasileiro em uma revista de surfe, a Visual Surf. Foi também o primeiro a colocar uma mulher surfando na capa da revista, ou melhor, voando. A mídia chamava-se Visual Bodyboard. E a atleta Stephanie Pettersen, foto de Ivan Abadesso.

 

Nilton era fotógrafo do “surfe” e ousou, sua marca registrada. Clicou o bodyboard e fez história. Não satisfeito, estimulou o povo a nos fotografar e teve como primeiro pupilo, Marcelo Cozzare, o primeiro fotógrafo a se especializar em bodyboard. Passos seguidos por Rick

Werneck, Basílio Ruy, Sebastian Rojas, e muitos outros.

 

A segunda notícia veio dos EUA, onde foi lançado o site a-framemag.com, uma revista virtual de bodyboard. O objetivo, segundo o editorial, é levantar a imagem do esporte, principalmente nos EUA e do esporte em geral, com imagens e artigos de impacto.

 

Gostei de uma matéria escrita pelo amigo e pioneiro Jay Reale. Jay destaca o antigo dilema do nome do esporte – boogie board e bodyboard. Dilema parecido com o do Brasil, em meados dos anos 80 – Morey Boogie e bodyboard. Ele ainda lembra os nomes de lendas do esporte. Nomes que ajudaram a pavimentar a estrada dos campeões de hoje.

              

Outra matéria legal, foi a entrevista de um talento da novíssima geração, Mike Murphy. Murphy é salva-vidas e encara o Hawaii durante o inverno. Se degladia com grandes nomes, nas pesadas ondas de Pipe. Ao ser perguntado sobre a situação do esporte, coloca o velho jargão que diz o bodyboard ser coisa de criança, mulher e aquele blá blá blá, mas que surfando em Pipe, reconhecem como esporte radical. Em uma segunda situação, fala o porquê do esporte estar em crise. Na real, foge do tema e não dá muitas explicações. Depois, pressionado pelo entrevistador, coloca a culpa nos surfistas e nas empresas de surfwear, por terem preconceito com relação ao esporte.

 

Na sequência, um aglomerado de matérias, constantemente na mídia eletrônica do nosso esporte. Um pacote de notícias que junta todas as reclamações dos bodyboarders na net, na praia e em publicações específicas. A cultura central que permeia alguns grupos e concorda com as declarações do americano Murphy, é a discussão: o surfe é o principal responsável por não conseguirmos patrocinadores para o bodyboard. A situação chegou a tal ponto que, recentemente, o havaiano Kainoa Mcgee desafiou os surfistas de pranchinha, a um confronto direto para provar quem é o melhor nas ondas.

 

Sendo os surfistas protagonistas dessa crise, esses grupos radicais declararam guerra aos mesmos: não devemos consumir essas

marcas; vamos segregar e abolir os triquilhas; criar comunidades orkutianas do tipo – eu odeio triquilha. Podemos perceber claramente quando a palavra surfista é usada para identificar um bodyboarder. A repulsa é tão grande que fica difícil entender que pegar onda é a mesma coisa que surfá-la.

 

Afinal, seria o bodyboard o paradoxo do surfe, o antisurfe?

 

É isso, e talvez esses grupos tenham razão! Você não concorda? Vejamos algumas evidências: quase todos os parentes do surf e mesmo as sub-espécies, segundo o narrador do Billabong Odissey, possuem o sobrenome “surfe” na identidade. Windsurfe, kitesurfe e o bodysurf. Até o surfe de peito possue o sobrenome. Caraca! Mas peraí, o longboard não possui surfe no nome e os caras dão moral aos pranchões. É, essa não colou.

 

Só pode ser pelo fato do bodyboarder surfar deitado em seu veículo. Logo, o longboard por ser praticado em pé tem apoio e, o bodyboard não. Concluindo, se não somos considerados surfistas, o que somos? Antisurfistas?!

 

O primeiro e grande paradigma a ser quebrado, é exatamente esse. O bodyboard precisa se autodefinir, se conceituar. Ser o que sempre foi e jamais deixará de ser, surfe. Tá chocado? Tô falando blasfêmia? Pois é irmãozinho, é isso mesmo que você leu, surfe. Somos surfistas e dos bons, pertencentes a uma espécie única e exclusiva, que foi além do óbvio, surfando deitado, de joelhos e também em pé.

 

O bodyboard é uma modalidade de surfe, pois tem um modo, uma maneira peculiar de surfar a onda. Isso se deve principalmente ao tipo de prancha utilizado. Mas, essa história reservarei para outra coluna. Agora, é necessário que o foco seja estabelecido sobre o esporte.

 

Ao contrário do que pensam alguns bodyboarders extremistas e fundamentalistas, muitos surfistas clássicos entendem muito do nosso esporte. Tá duvidando? Ok, vamos aos fatos: Tom Morey, surfista, inventou o bodyboard; as grandes revistas Bodyboarding, Fluir BB e Visual BB foram originadas por surfistas, o site Waves tem na sua essência estrutural, surfistas. E por aí, vai.

 

Grandes textos, como o editorial do especial Fluir bodyboard, em 1997, escrito pelo editor da Vip, Felipe Zobaran e o artigo escrito na Folha de SP, ano passado, por Califa da Trip, também surfista, comprova isso.

                

Na telinha, chega a ser sacanagem, o que teria sido do bodyboard sem a força do programa Realce, dos surfistas Ricardo Bocão e Antonio Ricardo, na década de 80/90. No campo dos eventos, os primeiros grandes campeonatos internacionais aconteceram pelo  embaixador do surfe nacional, o grande surfista Rico de Souza.

 

Com o amparo e auxilio de grandes surfistas, como Ricardo Bocão, Rico de Souza e Renan Pitanguy, a primeira equipe brasileira de bodyboarders chegou ao Hawaii. Marcas de surfe como a Fico, Mormaii e tantas outras patrocinaram bodyboarders e fazem parte da nossa história.

 

Surfistas fundaram e shapearam inúmeras marcas da indústria do bodyboard. BZ, Morey, Manta são algumas. Os fatos são inesgotáveis, portanto, vou ficar por aqui. Vocês irão lembrar do preconceito e blábláblá. Sinto muito, mas tô fora dessa, me defini e conceituei há 33 anos atrás.

 

Quando lancei a Gênesis e criei o slogan: only for bodyboarders! E Xandinho criou o 100% bodyboard, não estávamos nos excluindo e sim, deixando clara a nossa identidade. E, na época, tínhamos o patrocínio de grandes marcas do surfe.

 

A propósito, quem tem coragem de dizer à Kira LLewellyn, australiana que ganhou o internacional no Rio, para tirar o adesivo da Billabong da prancha? Well, no way, mate!

O surfe e os surfistas tradicionais têm muito a ensinar, já passaram por poucas e boas, para chegarem onde estão. Possuem um mercado e uma imagem sólida, perante a sociedade civil. Conseguiram isso, graças a união, organização, determinação, trabalho e principalmente, na forma com que aprenderam a cultuar seus valores e estilo de vida.

Vamos a um exemplo prático, de volta ao início da matéria, Nilton Barbosa está sendo homenageado pela CBS – Confederação Brasileira de Surfe ao ter seu nome vinculado ao torneio nacional de surfe amador. Enquanto no bodyboard seu nome certamente não será reconhecido pela maioria dos atuais competidores do circuito nacional. Mas isso é óbvio, o bodyboard mal se conhece, não pode ser reconhecido.

 

Nos EUA, o lançamento da a-framemag.com, tenta resgatar o conceito e a imagem do bodyboard, porém através de entrevistados que alfinetam-se entre si, pelo fato do esporte não estar melhor. Enquanto Kainoa Mcgee desafia os surfistas, Kelly Slater desafia as ondas em cima do bodyboard.

 

Aqui no Brasil, bodyboarders preferem reclamar virtualmente dos eventos e das entidades a que são filiados, mas deixam que eleições para os cargos nessas entidades nunca aconteçam. Não sabem sequer se existe um Estatuto e na prática continuam participando desses eventos.  E depois o surfe e os surfistas são culpados pela desorganização. Já dizia o poeta: quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

 

Quando acesso o Waves Bodyboard e vejo o resultado da enquête, onde 75% dos participantes preferem o freesurf e 25%, a competição, volto meus pensamentos a Escola Kung de Bodyboard e me sinto feliz. Penso na aluna Ray de 71 anos, que surpreendeu seu netinho ao encomendar uma prancha Kung Custom. Ela estava o suficiente confiante para surfar umas ondas com seu marido em outras praias. Ray e todos os nossos alunos têm informações sobre o esporte, às competições e a tudo o que oferece, mas estão lá por causa da qualidade de vida e o trabalho que oferecemos.

 

Sabem que o bodyboard brasileiro não foi criado por nenum agente e muito menos foi um case de marketing originado através de uma empresa. Esse sentimento que eles possuem pelo bodyboard, foi o motivador do meu empenho nos estudos junto ao CREF e ter o prazer de ser reconhecido pelo que sou, junto a eles e a equipe da escola Kung, a única a ser reconhecida em conjunto com 17 escolas de surfe e seus representantes.

 

A trilogia do sucesso, e que os 25% dos bodyboarders dessa enquête almejam é a seguinte: conceito, organização e prancha. A primeira está escrita nesse artigo. A segunda dei uma dica e, poderá vir em uma oportunidade ou até mesmo, numa iniciativa dos próprios bodyboarders. A terceira é a própria essência do nosso esporte e da qual sempre será minha paixão. Buscar e unir esse três elementos: a principal missão de todos nós!

 

O principal obstáculo, é a atitude dos bodyboarders, que apesar de surfarem de umbigo sobre a prancha, não tem humildade necessária. É preciso curvar a cabeça e enxergar que a solução é olhar o próprio umbigo. Só assim resolverão seus problemas. Aí sim, podem voltar para a água e erguer a cabeça, dizendo: Sim eu surfo, sou bodyboarder!

 

Vejo vocês na água!!!

 

 

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)