
Beri Santana é um dos principais atletas e um dos pioneiros do esporte no Nordeste. Local de Pernambuco, Beri viu o esporte nascer e ascender no Estado.
Hoje, ele é responsável pelo circuito ABBP – Associação dos Bodyboarders de Piedade, um dos mais organizados do país.
Com a ambição de ver os bodyboarders pernambucanos viverem do esporte, Beri fala um pouco de sua luta nesta entrevista exclusiva.
Quando e como aconteceu o primeiro contato com o esporte?
Conheci o bodyboard em 1986. Eu morava em Prazeres, região metropolitana de Recife. Tinha um amigo que andava com o pessoal da praia. Sempre que dava, eu pegava emprestada uma das pranchas da galera e caía no mar. Naquela época todos os caras surfavam de pranchinha e só as meninas pegavam onda de bodyboard. Elas se cansavam mais rápido, então comecei a surfar de bodyboard. O único inconveniente era os pés-de-pato, sempre muito apertados. No meu aniversário, a galera se juntou e me deu uma prancha de presente. Não tive dúvida, vendi a prancha e comprei um pé-de-pato do meu tamanho e um bodyboard mais velho. Em 88, comecei a competir nos campeonatos dos clubes locais, como o CBP – Clube de Bodyboard de Piedade, depois os melhores bodyboarders dos clubes disputavam o campeonato pernambucano. Na época, o Pernambucano era organizado por Alexandre Gueiros, irmão do Eraldo Gueiros – Big rider pernambucano, e disputado no tradicional pico do Acaiaca, em Boa Viagem. A praia estava sempre lotada. As manobras mais comuns eram o 360 com a mão e o floppo. Eu fazia uma espécie de parafuso no lip da onda, por isso chamei a atenção e entrei direto na categoria de nível B. Em 89, pulei para a categoria nível A, espécie de profissionais para a época, e fui vice-campeão.

Como foi ser um dos primeiros atletas a levantar a bandeira do bodyboard profissional no Nordeste?
Se hoje é ainda difícil, imagine naquela época. Além das dificuldades financeiras, nós sofríamos muito com a falta de informações sobre o esporte. Tudo demorava mais a chegar ao Recife. Eu, Onofre Júnior, Rogério Biola, Carlos Nunes, Elke Roinchman – esposa de Fábio Gouveia – e o Francisco Rosa, do Ceará, batiamos de cara com Cláudio Marques, Kiko Herbert, Glenda e toda a galera do Rio. Era outro nível. Mas a gente saía difundindo o bodyboard pelo Nordeste. E foi no começo dos anos 90 que me mudei para o Rio. Lá, fui bem acolhido pelo Basílio Bosque Rui – que era fotógrafo da Fluir Bodyboarding, e por caras como Daniel Rocha, Paulo Esteves, Xandinho e um montão de gente que me ajudou muito. Bem, conheci todos os meus ídolos e tive acesso aos melhores equipamentos. Evoluí muito como atleta e como pessoa.
Como surgiu a iniciativa de fundar a Associação dos Bodyboarders de Piedade, a ABBP?
Após a minha estada no Rio, Fortaleza e Florianópolis, entre 93 e 94, resolvi voltar pra casa. Chegando aqui, encontrei o atual circuito pernambucano com os atletas sendo totalmente desvalorizados. Foi nessa que eu, Hélio Alves, Luciano, Misael, Alesio, Pila, Duda e uma galera de Prazeres, entre eles a família Machado, sentamos e resolvemos nos mexer, fazer algo de verdade pensando nos bodyboarders. Cara, lembrei logo da ABBI – Associação de Bodyboard de Ipanema – do Rio, que na época estava no auge. Pensei então em ABBP – Associação dos Bodyboarders de Piedade, era um nome sonoro e todo mundo curtiu. Começamos a fazer os eventos apenas com uns guarda-sóis na praia, papeletas emprestadas, mas com muita alegria.

Hoje, com os problemas dos tubarões em Piedade, como a ABBP continua funcionando?
Confesso ter pensado que a interdição das praias do Recife, e particularmente as de Piedade, iria acabar com tudo. Foi aí que vi a mobilização dos atletas, que nos procuraram e pediram para não pararmos. Aumentamos um pouco as taxas de inscrição, arrumamos transporte e transferimos os eventos para a praia do Borete, em Porto de Galinhas, distante 60 km do Recife. Tinha gente que ia aos eventos apenas com a roupa do corpo e os equipamentos. Neste mesmo ano, realizamos um circuito com três etapas. No ano seguinte, fizemos sete provas. Hoje, realizamos etapas nas praias de Maracaípe, Gaibú e em Enseada dos Corais.
Nestes dez anos de atividades da ABBP, quais as maiores conquistas e decepções que vocês viveram?
Ter conquistado o respeito de todos no trabalho sério que desenvolvemos pelo esporte é gratificante. Poder contribuir para a formação de inúmeros bodyboarders nesses dez anos me deu muito prazer. É um trabalho de base que está sempre se renovando e me renova também. Decepções a gente também tem muitas: falta de incentivo de patrocinadores, atletas sem educação e pessoas de mau-caráter. Mas estas coisas existem em todos os lugares. Se a gente parar para pensar nisto, não realizamos nada.

Pernambuco sempre sedia uma etapa do circuito Brasileiro, mas qual outra atividade que a Associação Pernambucana exerce no Estado? Você vê algum projeto de base ou investimento em um circuito local?
Temos que reconhecer que a realização da tradicional etapa do circuito Brasileiro em Maracaípe é um grande mérito da Associação que aí está. Mas é o único, se não fosse isto, o bodyboard pernambucano estaria fadado ao total abandono. Estaria estagnado. É a velha história que pelo benefício de poucos a grande maioria é sacrificada. Infelizmente, a ABBP não dispõe dos recursos e da influência que a Associação Pernambucana tem e que é necessário para realizar um trabalho mais amplo de formação e desenvolvimento do bodyboard no Estado.
O que a CBRASB poderia fazer para incentivar mais o trabalho dessas Associações locais que fortalecem a base do esporte?
Acredito que a Confederação precisa ficar mais próxima de quem realmente quer trabalhar pelo esporte. Eles tem muito mais possibilidades de chegar até a gente do que uma pequena Associação ir até eles. Deveria existir uma espécie de agência desenvolvedora do esporte, para fazer um acompanhamento técnico de perto, capacitando juízes, ensinando e divulgando o bodyboard pelo país. Realizar um circuito brasileiro forte é importantíssimo, mas solidificar a base do esporte é essencial. O resultado prático disso nós vemos hoje. O Brasil possui um circuito nacional fraco, mas seus atletas estão sempre entre os melhores do mundo. Tudo isso é também fruto de bons trabalhos realizados pelas Associações locais. Reconheço todas as dificuldade em se trabalhar o esporte e sei que mudanças estão sendo pensadas, tanto para o circuito brasileiro, quanto para a CBRASB – Confederação Brasileira de Bodyboard. Vamos esperar e torcer para que este trabalho se concretize. Para o bodyboard crescer, todos devem que contribuir e retribuir da melhor forma possível.

Quais os planos da ABBP?
Crescer cada vez mais, dentro de nossas possibilidades. Tentar levar e dar apoio aos atletas em competições fora do Estado. Organizar um circuito cada vez mais forte, em termos técnicos e financeiros. Nós queremos atrair atletas de todo o país para o nosso circuito. Não apenas de Pernambuco e do Nordeste, como acontece hoje.
Como anda o nível dos atletas pernambucanos? Quem você destacaria no cenário local hoje?
Vejo os atletas daqui se superando cada vez mais, o nível dos campeonatos é muito forte. Uma comprovação disso foram os excelentes resultados na etapa do brasileiro em Maracaípe. Vencemos as duas principais categorias masculinas, com Iraí Rodrigues na pro e Williams Silva na amador. Se as condições fossem mais favoráveis, tenho certeza que muito mais gente despontaria. Atletas como Zulu Martinêz e Pablo têm talento de sobra para estourar. Acontece que em Pernambuco, a maior parte dos atletas de bodyboard vive em situação financeira muito delicada. E isso compromete desde o acesso a equipamentos razoáveis, até a falta de uma nutrição mais adequada. A força de vontade e perseverança faz eles se superarem e evoluirem no esporte.
E o que o experiente Beri aconselharia para essa nova geração ir mais longe?
Humildade e profissionalismo nas atitudes, dentro e fora da água. Outro ponto importante é a educação. Seja a educação no sentido sócio-cultural ou mesmo no sentido do esporte bodyboard. Procurem aprender cada vez mais sobre o esporte que se pratica: a história, os termos técnicos, os equipamentos etc. Tudo isto é necessário para formar profissionais completos e competentes.