
Pipeline, 6 de dezembro de 2001. Joel Taylor, jovem talento do bodyboard australiano recém-chegado no Hawaii bota pra dentro duma onda menor, atitude de rotina, ganha uma lipada violenta nas costas e é arremessado ao fundo em alta velocidade.
Mike Stewart, Brian Keaulana e Brock Little percebem o corpo com as pernas sem vida e correm para socorrer Joel.
“Notei um trincado nas costas dele, como de uma prancha trincado ao meio”, diz alarmado Stewart. Joel não conseguia mais sentir suas pernas.
Bem vindo ao Hawaii. Um misto de especulação, medo, euforia e apreensão se confundem na umidade do ar. Pipe Masters se aproxima, o campeonato mais espetacular de todo circuito. Um lugar que cobra caro o preço da glória e deixa cicatrizes de verdade, na carne.
Foi em Pipe, no distante ano de 1981, que um cara enorme, conhecido como “gigante gentil”, chegou na praia com uma prancha tão louca, tão esdrúxula, que o povo debochava dele e gargalhava com a possibilidade do camarada sequer pensar em surfar no Pipe Masters com um negócio daqueles.
Pois o doido, chamado Simon Anderson, um australiano bonachão e beberrão, ganhou o Pipe Masters surfando de costas pra onda e usando um equipamento que hoje é padrão para 99% dos surfistas do planeta: uma triquilha. História se faz assim.
Em 2003, não me parece que alguém possa chegar do nada e arrastar o Masters, pode? Bem, temos Rob Machado, mas… Esperem! Peterson Rosa, é bom lembrar, perdeu pra esse mesmo Machado em Pipe, faz um par de anos ou mais, de maneira no mínimo esquisita, com Peterson surfando de maneira selvagem de back-side e completando tubos incríveis. Falando nisso?

Que bela campanha fazem os brasileiros nesse início de temporada! Sem ilusão, nas atípicas marolas de Haleiwa, foi um passeio, com Neco e Mandinho na Final.
Que competidor fantástico é Armando Daltro, mais uma vez garantido no WCT, sem um patrocinador à altura! Escutei alguém gritar o nome do menino prodígio Chris Ward?
Digam que mando um abraço e recomende uma rodada de circuito com Mandinho pra ele aprender a competir e cumprir o destino que a imprensa americana tanto alardeia pro malandro.
Em 2004, Mandinho, com ou sem patrocínio, está dentro do WCT. Por Ward, Martinez e Pattachia, não posso falar. Quem sabe, com todos os milhares de dólares investidos, em 2005?
Enquanto isso, Sunset, uma onda cheia e sem graça segundo alguns internautas que nunca passaram da tela pra água, apronta das suas com os melhores do mundo.
Myles Padaca, local que venceu tudo e todos em 2001, profundo (com trocadilho) conhecedor das cavernas de Sunset (sim, amiguinhos, Sunset tem cavernas que cabem os seus quartinhos inteiros, com o computador e tudo!), pois esse mesmo Myles rodou na primeira fase da triagem com uma pontuação impressionante de? 4.33???
Outra esperança de título para o Hawaii, o jovem Kekoa Bakalso, vice do Myles na triagem de 2001, com apenas 16 aninhos, o mesmo Kekoa que eliminou Slater na quarta-de-final em Sunset com a maior nota dois anos atrás, me perde em Sunset marcando um total de… 5.50 pontos!!!

E o que dizer do campeão mundial de 93, Derek Ho, e do bombeiro australiano Mick Lowe, com derrotas e placares respectivos de 4.33 e 3.50??? Essa onda de Sunset deve ser mesmo muito cheia e muito chata para se dar ao luxo de humilhar seus filhos mais ilustres?
Sem ufanismo barato, sem patriotada, pois desconfio muito dos patriotas, afinal fomos vítimas por mais de 20 anos dos maiores patriotas que o inferno há de queimar, enfim, sem essa babaquice que Brasil é isso, brasileiros são aquilo, vamos parar com essa palhaçada de julgar o ano inteiro, a carreira inteira do sujeito por uma bateria mal surfada.
Não há, hoje, surfista brasileiro mais encaixado com as massas de Sunset do que Fábio Gouveia e na minha mão esquerda eu conto quantos conterrâneos têm a disposição do Victor Ribas pra encarar baterias no Hawaii por mais de 10 anos, venha o que vier. Nós temos motivos de sobra pra nos orgulhar, basta saber olhar.