Certa vez, ouvi do meu coordenador de arbitragem aqui na Austrália que o ofício de julgar no surf é um dos mais duros e difíceis dentro do universo do esporte.
A cada dia que passa sou definitivamente obrigado a concordar com ele. Não que não o tenha feito da primeira vez, mas, depois de um início de temporada eletrizante aqui na Gold Coast australiana, isso ficou ainda mais claro na minha cabeça, especialmente pelo fato de ter tido a oportunidade ímpar de poder analisar de perto, de prismas completamente diferentes, dois dos eventos mais tradicionais do calendário da ASP por aqui.
O primeiro foi o Quiksilver Pro, onde além de apreciar um trabalho de julgamento dos mais bem realizados que já vi, dentro de uma análise técnica da performance dos atletas extremamente precisa e criteriosa, tive também a oportunidade de estar junto à torcida e algumas pessoas da mídia durante as baterias.
Fica claro, e inclusive os torcedores mais ardorosos começam a tomar ciência disso, que um surfista profissional, pra ser vencedor dentro do universo das competições, precisa entender perfeitamente como os critérios de avaliação dos árbitros funcionam, e aprender a adequar a isso toda sua competência e paixão pelo surf.
O julgamento de algumas baterias me chamaram a atenção e de outras chegaram a me encafifar se realmente o resultado era justo ou não, a ponto de me fazer, ao chegar em casa, checar os vídeos de algumas para reafirmar em mim a credibilidade no trabalho que vi ser feito na praia.
É claro que quando algum figurão do quilate de um Kelly Slater entra na água, a análise por parte da platéia tende a ser extrema, positiva ou negativamente, e a imparcialidade acaba ao apitar da buzina, especialmente se quem estiver no papel de oponente for um símbolo ou herói local, ou então o representante de uma massiva torcida estrangeira residente no local.
Alguns surfistas me chamaram muito a atenção pelo fato de ?jogarem o jogo? exatamente como se deve ser jogado, atendendo claramente as expectativas dos árbitros, sem deixar de entreter o público, e não por outra qualquer razão foram os que tiveram as maiores notas, especialmente em confrontos muito duros a partir do round 4. Um desses foi o representante brasileiro Adriano de Souza.
Mineirinho surfou com muita precisão em todas as suas baterias e, por muito pouco, não despacha com todas as honras o campeão em potencial da etapa naquele momento. Adriano não se abalou nem quando estava em uma combinação aparentemente impossível de reverter, e quando teve oportunidade, na onda certa, arrecadou dos árbitros o maior score do campeonato, deixando o oito vezes campeão mundial atento ao fato de que se vacilar, já era.
Infelizmente o segundo score necessário não veio, mas Mineiro saiu da água ovacionado pela torcida brasileira presente, bem como pela local, em igual intensidade.
Nessa mesma semana, tive a segunda grande oportunidade a que me referi anteriormente, indo julgar o Noosa Festival of Surf, um dos eventos mais tradicionais e importantes para a cultura e indústria do surf aqui na Austrália e no mundo.
Durante esse mesmo evento, tive o prazer de poder iniciar um trabalho de assessoria a um dos maiores talentos do longboard mundial, o atual campeão brasileiro profissional Roger Barros, que veio para a Austrália para se preparar para a temporada 2008, aprimorando suas habilidades tanto no free surf, em ondas muito perfeitas, quanto participando de competições de alto nível técnico, como é o caso do Noosa Festival.
Esse evento me colocou definitivamente em um outro nível como árbitro e também como admirador do esporte, até porque para ser um bom árbitro, você precisa, antes de mais nada, ser um excelente apreciador do surf e de tudo ao redor dele, e mais uma vez ao lado de um quadro de árbitros brilhante, dessa vez julgando, apreciei alguns momentos que provavelmente vão servir de parâmetro para o resto da minha carreira.
Em condições precárias nos primeiros quatro dias de competição, e ao mesmo tempo com algumas baterias de seis atletas na água, em um mar que apresentava seus lamentáveis 2 pés, tive a oportunidade de analisar e julgar atletas, dos 13 aos 70 anos, nas mais diversas categorias.
Quando se julga, em um mesmo evento, profissionais e amadores, fica ainda mais claro, pelo fato de os juizes terem que adequar a escala de julgamento a diferentes níveis de competição, que, independente de uma análise mais ou menos rigorosa do nível de surf apresentado, o mais importante é o quão ciente o atleta é dos critérios usados no julgamento de uma bateria, e isso definitivamente não muda e sim adequa, mas o diagnóstico de uma onda bem ou mal surfada é simples e de clara identificação, seja no profissional ou no mais iniciante dos atletas.
Assim como Adriano de Souza durante o WCT, Roger me impressionou e muito durante suas baterias, e não só a mim, mas a todos os árbitros do painel, mais pela precisão com que surfou rigorosamente dentro do critério do que pelos momentos de extremo deleite que proporcionou a todos que estavam na praia, e isso determina e muito a trajetória de um atleta numa competição.
Roger acabou terminando sua jornada mais cedo do que platéia e staff imaginavam e esperavam, nas semifinais, conquistando mais do que um bom resultado, o respeito e admiração de árbitros muito experientes que estavam ao meu lado durante esta etapa.
Enfatizo esse ponto porque por diversas vezes ouvi muita gente que participa do esporte, dentro e fora d?água, falar por palpite ou mera suposição, mas de fato sem base alguma, que o surfista brasileiro sempre tem suas performances mal avaliadas ou são vítimas de análises injustas por parte dos árbitros que, por supostas avaliações subjetivas, tenderiam a privilegiar os tops ou determinado medalhão, simplesmente pelo fato de que o ?peso?do nome de alguém determinaria um resultado.
Errado… os elementos que determinam os critérios de arbitragem no surf, pelo menos aqui na Austrália, têm sido cada vez mais examinados e adequadamente aprimorados, na intenção de tornar a possibilidade de uma análise de julgamento subjetiva, cada vez mais remota e distante da mente de quem está diante de uma papeleta.
O que me parece curioso é que as pessoas que muitas vezes ouço clamando por ?justiça? após um resultado controverso, são as que menos parecem entender como o jogo funciona. Preparar um atleta para uma competição do nível de um WCT, WQS, Pro Jr., requer mais do que noções de técnicas e estratégia de competição, de como marcar o adversário ou análise das condições. Isso é importante, sem dúvida, mas muito elementar.
O atleta de ponta, hoje em dia no circuito, precisa entender como os árbitros pensam e como usar isso a seu favor, e tenho certeza de que definitivamente isto é possível, independente de nacionalidade ou posição no ranking, Adriano e Roger que o digam.

