Madrugada safada de terça pra quarta, o sono não chega de maneira nenhuma. No cabo passa o WCT de Fiji, locução do meu grande amigo Paulo Lima.

 

Dizem que ficou muito rico, tem negócios variados, revistas, programa de rádio, assessoria para um apresentador de TV… Torço para que ganhe ainda mais dinheiro e deixe o traçado pra quem entende do riscado.

 

Numa amistosa conversa que tivemos durante o falecido WCT do Rio, apertou-me a mão, escorregou um cartão de diretor com telefone, fax e logotipo, muito bem diagramado. Foi nosso único contato.

 

Semanas depois, um outro amigo, também diretor, este de TV, coloca a mão no meu ombro e diz com sua voz em volume máximo:

 

– Porra Marreco, aquele cara te fez de trouxa, hein? Assim que tu virou as costas, ele chega pro sócio dele e diz, na maior: “Ganhei mais um fã”!

 

Logicamente não acreditei na desfaçatez do mega empresário. O tempo, ele dizia, o Lima, o tempo, Júlio, vai te ensinar muitas coisas. O tom era profético.

 

Pois passou o tempo e o programa que nos apresenta a cobertura do circuito mais importante do mundinho miserável do surfe continua sendo apresentado pelo mesmo figura que tanto critiquei por completa e total falta de intimidade com o assunto.

 

Rapaz, esse tal de tempo, um anãozinho corcunda e fedorento como descreve Fausto Wolf num dos seus brilhantes e corrosivos contos, o tempo, dizia eu, não perdoa. Feito leite fermentado, o prazo de validade passou. Implacável, né? Feito na canção de Jagger e Richards, “Time waits for no one”: No, no, no, not for me. No, not for me…

 

Cobrado, num texto que fiz numa revista de circulação restrita a meia dúzia de gatos pingados no Rio de Janeiro, de um maior domínio da árdua tarefa de divagar sobre surfe competição, artigo abominado pela nova diretriz da revista que dirigia – dirige -, Lima alegou em sua defesa que era assinante da Surfing e que lia até sessão de cartas. Mais!

 

Tinha sido convidado para ser padrinho de casamento do Aaron Chang, o célebre fotógrafo, parceiro do David Carson. Contra aqueles argumentos, tão concisos, tão bem estruturados, calei-me. Ele ainda:

 

– Digo que vou melhorar muito, você vai ver. Venha me ver no estúdio qualquer dia desses.

 

– Sim, irei. Não fui.

 

Naquela época, muito jovem, tinha apenas 27 anos (leia-se aqui com ironia, prezado Juarez), minha noção de espaço era terrível, tinha na cabeça a obsessão pela boa informação, o entusiasmo com o desempenho dum Vitinho na marola ou do Ross Clark em Sunset – embora gostasse tanto quanto ver o Victor botando pra baixo em Sunset e o Ross embalando a prancha na vala do Meio da Barra.

 

Os limites de minha cultura recém-adquirida não permitiam que eu atentasse para os papas do jornalismo copy e paste, (coloque aqui os seus prediletos e mande-os para… bem, deixe pra lá), que começavam a pipocar nas redações.

 

Novos tempos trouxeram a mais poderosa ferramenta de informação jamais criada para os jornalistas: o “press realease”. Diante dessa poderosa arma, tal como o gás Antraz, a intuição e a investigação (e porque não a vocação?) tornaram-se completamente obsoletas.

 

A própria palavra que usam hoje para definir jornalismo denuncia a intenção: Mídia, que foi adotada do termo “Media” (meio), que os americanos tanto gostam de usar, mas eram incapazes de pronunciar, portanto, mídia.

 

Controle remoto na mão, a tecla ‘mute’ cai como uma luva na transmissão do WCT. Quando a ASP fechou contrato com a produtora inglesa Chilli Vídeos (que fez o favor de lançar, sozinha, uma edição especial comemorativa de 25 anos do clássico Morning of the Earth, Alby Flazon, Aus/72, GB/97), os chatíssimos programas que nos eram vendidos melhoraram uns 200%.

 

Os ingleses, sempre muito sérios, contrataram os melhores cinegrafistas do mundo, de dentro e for a da água, aumentaram o ordenado do assessor de imprensa da ASP, Jesse Faen, para fazer excelentes entrevistas e ainda, de quebra, ‘ancoraram’ o Sarge, ‘expert’ da ASP, como comentarista dos oito vídeos que produziram em 2001.

 

Foi um baile, mas Doug Warbrick, da Rip Curl, não gostou muito da cobertura do Bell’s, nos diz Nick Carrol. Alegria de pobre dura pouco, como todos sabem. A bolsa deu uma rasteira no grupo que prometeu mundos e fundos ao surfe, mas por outro lado, deu os mundos e todos os fundos para os gigantes das roupas de surfe, Billabong, Quiksilver e cia.

 

Hoje, a Billabong se dá ao luxo de investir 250 mil verdinhas para uma cobertura de campeonato, afinal, o retorno é quase imediato. Jack McCoy que o diga. No entanto, sou grato ao canal que transmite o WCT por me proporcionar uma velha forma de assistir aos eventos esportivos na TV: tiro o som da TV, coloco um CD do Queens of the Stone Age ou do AC/DC e assisto, feliz da vida, as belas imagens de surfe que Slater, Irons e amiguinhos desenham na tela.

 

Exatamente a mesma coisa que faço desde moleque, ouvindo a transmissão de futebol do rádio e assistindo as imagens da Globo, poupando-me assim dos comentários cretinos.

 

O tempo, como me alertou Lima, é mesmo um santo remédio.

 

Ps:  Minha sugestão é a seguinte, malandragem: preservem o som original e apenas traduzam a conversa toda. Em três ou quatro horas um tradutor competente, e surfista!, dá conta disso. Sugiro o catarinense, ex-juiz da ASP, Décio Couto pro serviço.

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