
O título de campeão mundial foi decidido em um verdadeiro duelo de campeões, na última bateria do último evento do ano.
A seqüência de baterias foi emocionante, oitavas, quartas, semi e a final, fiquei ligado até uma e tal da manhã, torcendo pelo maior surfista de todos os tempos, mas a reação na final não veio.
Durante a decisão fiquei nervoso, fui ver televisão com o micro ligado, mas não deu. Andy Irons levou a melhor e sagrou-se bicampeão mundial. Kelly Slater ficou com o vice-campeonato.
Com um segundo lugar em Sunset e com a vitória em Pipeline, Irons mostrou que não foi campeão em 2002 por acaso, superando toda a pressão que uma prova decisiva pode oferecer e levando não só o título deste ano, como também o da Tríplice Coroa Havaiana.
Ser um bom surfista no Hawaii sempre foi pré-requisito para um bom futuro no circuito mundial. O problema é que a maioria dos surfistas que se adapta às ondas grandes não consegue o mesmo rendimento nas ondas de fundo de areia, da Europa, Brasil e Japão.
O havaiano Andy Irons está conseguindo aliar sua experiência e potencial nas ondas havaianas com um surfe moderno e veloz nas ondas pequenas e está se transformando em um adversário difícil de ser batido.
Esta versatilidade sempre foi a vantagem do Slater, que mesmo sendo da Flórida adquiriu conhecimento nas ondas havaianas com viagens regulares desde sua adolescência.
Agora quem está mais versátil é o havaiano que, ao contrário de seus antecessores, como Derek Ho e Sunny Garcia, surfa muito bem qualquer tipo de onda, como mostrou durante este ano, ganhando na Austrália, em Fiji, no Japão, na França e no Hawaii. O segundo lugar em Sunset mostrou que também vai bem nas ondas de área.
Por seu potencial e por sua atitude dentro da água (não é à toa que ele fez as duas finais no Hawaii), Andy Irons tem tudo para ser mais vezes campeão mundial. Fora o Slater só seu irmão Bruce, (se classificou este ano para o WCT), tido como o sucessor do hexacampeão mundial, pode quebrar este caminho de vitórias em um curto espaço de tempo.

Chances mínimas para os australianos Taj Burrow e Mick Fanning e um pouco maiores para Joel Parkinson, que tem um surfe mais pesado para o Hawaii e anda bem nos point breaks e nas ondas pequenas.
O que mais me marcou este final de ano foi a maneira como o Irons conquistou o título. O primeiro e segundo lugares nas duas últimas provas sugere não só um domínio técnico como uma supremacia psicológica na disputa e na escolha das ondas.
Não que eu ache que ele foi campeão graças a uma pressão exercida pelos havaianos dentro e fora da água, mas tenho certeza que o formato dos eventos que permitem que 16 locais participem das etapas ajudam no corporativismo e acabam sobrando mais ondas para um havaiano.
Tenho certeza que ele deve remar para cima dos adversários imprimindo um ritmo agressivo se garantindo nos locais lá fora e naquela velha intimidação havaiana, tipo “se disputar onda com ele fica jurado no Hawaii”, interferência então… Mas nada disso tira seu mérito, resta a seus adversários tentarem anular este jogo.
Outro fato marcante foi a supremacia australiana em Sunset. Desde o começo dos anos 70 que vários surfistas australianos dominam esta onda, que é para muitos a mais difícil do circuito mundial.
Para os brasileiros as coisas não mudaram muito, e o fato de vários locais havaianos terem ido bem nos dois eventos acabou ajudando e acabamos com oito integrantes na elite do surfe para 2004, entre eles Guilherme Herdy, Peterson Rosa, Paulo Moura, Victor Ribas e Neco Padaratz entre os 28 primeiros do ranking.
Armando Daltro, Raoni Monteiro e Marcelo Nunes se garantiram pelo WQS. A grande esperança para 2004 será a estréia do Raoni Monteiro, campeão mundial Mirim aos 16 anos, e que por ter sido criado em Saquarema, terra de uma das ondas mais fortes do Brasil, consegue mesclar surfe moderno em ondas pesadas e surfe fluido nas marolas e promete dar uma dura em Irons e companhia.