Por trás das notas

Amador ou profissional?

O momento de se tornar um profissional é decisivo na carreira dos atletas de qualquer esporte, seja em nível estadual, nacional ou internacional. Está intimamente ligado à formação do atleta em seu universo competitivo e a um planejamento de carreira e de vida.

 

No nosso esporte não poderia ser diferente, e esta transição é determinante para o sucesso no surfe profissional, principalmente se o objetivo é o circuito mundial.

 

As últimas gerações do surfe brasileiro têm seguido uma fórmula que na minha opinião não está adiantando. Em geral, quando um surfista amador consegue sucesso em nível nacional e consegue integrar a equipe nos mundiais da ISA, estaria pronto para a vida profissional.

 

Porém, os resultados não têm sido bons, os novos talentos do surfe brasileiro estão divididos entre o circuito Super Trials e o circuito WQS e acabam não conseguindo foco, concentração, nem patrocinador para fazer bem os dois. Caso se classifique para o SuperSurf, a dúvida é maior ainda e o WQS e WCT ficam cada vez mais longe.

 

É muito melhor ser um grande campeão amador, ficar conhecido nacionalmente e internacionalmente e ter um bom contrato para ajudar na sua formação, do que ficar se queimando e perdendo na segunda ou terceira fase de um evento profissional no Super Trials.

 

Isso sem falar nos custos, o tempo fora de casa e o desgaste do nome atrás de uma suposta experiência, que poderia ser alcançada de várias outras formas.

Aliás, o problema está muito mais ligado a formação básica, técnica de surfe em ondas boas, domínio da língua inglesa, base educacional e cultural, do que por nível de surfe.

 

Nossos atletas têm se classificado para o WCT, mas têm se mantido pelo WQS… Temos que pensar em produzir novos talentos que se mantenham pelos pontos conseguidos nas ondas boas do WCT.

 

Sugiro uma reformulação no planejamento das carreiras da molecada, voltarmos aquela velha formula de mandar um grande talento para o exterior pegar ondas boas, estudar inglês e crescer como surfista e pessoa, para ser capaz de enfrentar a vida e as ondas do circuito mundial.

 

Sou totalmente contra proibir que um atleta em formação, até 18 anos, seja impedido de competir no circuito amador, só porque ele tem surfe para se classificar para o SuperSurf. Espero que o conselho da ABRASP reveja esta posição, que não é a melhor para a formação do surfista profissional.

 

Imagine o Adriano de Souza, “o Mineirinho”, que está impedido de competir no circuito da CBS e de disputar uma vaga para o Mundial Junior na África, em agosto. É irreal, ao invés de ter a chance de ser coroado como o melhor Junior do mundo, ele pode estar perdendo de prima em qualquer campeonato profissional, em ondas mexidas, cheias e de maral.

 

Até para o circuito SuperSurf, que precisa das estrelas do WCT, ter um campeão mundial Junior no seu evento é sempre mais um atrativo para a imprensa. A grande mídia só dá destaque para resultados em nível mundial, qualquer circuito nacional, seja ele profissional ou amador, tem conseguido pouco espaço na imprensa aberta.

 

Enquanto isso, Joel Parkinson, Mick Fanning e Dean Morrison são os astros principais, e nossos garotos da mesma geração, fora o Paulo Moura, caras como Marco Polo, Raoni Monteiro, Marcondes Rocha e Bernardo Pigmeu ainda nem se classificaram para o WCT, e cada vez ficam mais dependentes do SuperSurf.

 

Vamos deixar o nacional para quando as chances no circuito mundial se esgotarem, o caminho é outro. O pior é que ainda tem gente apontando o oposto como modelo, será que eles não enxergam o que vêm acontecendo nos últimos anos? Nós não temos produzido nenhum nome forte para o WCT, apesar da enorme quantidade de novos talentos que aparecem.
 
Não quero ser o dono da fórmula mágica. Aliás, morar no exterior foi a primeira coisa que o Teco Padaratz fez, numa grande jogada do mestre Avelino Bastos, e acho sinceramente que continua a ser o melhor caminho. Vamos pensar e boas ondas.

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