
Há mais ou menos dois anos aconteceu um fato muito feliz na minha vida. Eu estava no Chile e recebi um e-mail do Waves com um convite para fazer parte do staff de colunistas da maior página web de surf do Brasil.
Caramba, nem acreditei, era bom demais para ser verdade. Naquele momento tentei conter a euforia com tranqüilidade, pois eu não iria festejar até ver um artigo meu na world wide waves.
Eu já tinha experiência em escrever para outros meios de surfe, pois há sete anos participo da Mareas, única revista uruguaia, além de ter trabalhado em rádio e televisão locais.

Falar da minha amada América Latina e seu surfe era uma tarefa muito boa, ainda mais sabendo que era para todo o Brasil e o mundo.
Nossa América rodeada de oceanos tem uma história em comum de guerras, corrupção, muita pobreza e de muita garra; além obviamente de surf.
Nos mais de dois anos de América do Surf, o surf de nosso continente teve uma seqüência de fatos que consolidaram o amado esporte, como a vitória de Sofía Mulanovich no WCT, protagonista do segundo artigo da coluna América do Surf.
Em outro nível, todos os surfistas latinos – exceto os brasileiros – que estão conseguindo fazer a vida de atletas profissionais depois da criação do Circuito ALAS, o que não acontecia cinco anos atrás, com mais exibição dos latinos nas revistas estrangeiras, mais latinos encarando ondas enormes – dentro e fora de casa – e alguns poucos indo melhor no WQS.
O número de brazucas no WCT caiu no último ano, o que indica uma dificuldade para evoluir a performance em ondas melhores; não por falta de coragem mas pela qualidade de surf nessas ondas.
Essa dificuldade poderia ser resolvida se olhassem mais para o continente do que para fora. Afinal, alguém põe defeito nas ondas que quebram em todo o litoral chileno, peruano e centro-americano?
Existem mais estrangeiros profissionais indo para esses lares do que brasileiros. Sem dúvida, a qualidade do surf brazuca ficaria bem melhor caso aproveitassem ao máximo essas ondas irmãs, mais do que ir para todos spots consagrados que têm a mesma qualidade dos latinos.
Que o digam os que viajam meio planeta em procura de nossas ondas, as ondas da América do Surf.
Ao mesmo tempo, os demais países latinos erram ao não aproveitar o potencial e a supremacía que tem Brasil em quase todos os aspectos. Um exemplo é o impedimento à participação brasileira no circuito ALAS. Outro detalhe é a falta de latinos nos muitos campeonatos de alto nível no Brasil.
Nesse período de cobertura da coluna, também há de se destacar os títulos mundiais sub 20 de Adriano Mineirinho e Pablo Paulinho.
Mineirinho é realmente a primeira clara promessa latina de ter um campeão do WCT.
Mas, como escreveu o colega Thiago Kafejian no artigo “Mineirinho não é Slater”, o menino tem que evoluir em ondas grandes e perfeitas, critério fundamental para ter uma esperança.
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A coluna foi bastante questionada no Fórum ou por e-mails sempre que dava uma boa notícia para os países menos desenvolvidos surfisticamente. Havia um boom de negatividade e discriminação.
Assim, acho que sendo esse um artigo exclusivamente de opinião, baseando-me nos fatos recentes, hoje a América está, como diz um som da banda uruguaia La Vela Puerca, “…confundida pelos caminhos cheios de vida”.
Muito além das desgraças socio-econômicas que o nosso continente divide com sofrimento, também ocorre discriminando.

E no mundo do surf está acontecendo a mesma coisa.
Os campeonatos da ALAS, o Brasil, maior potência do surf latino, não pode competir. Por outro lado, boa parte do Brasil nega o potencial que tem para aprender com esses campeonatos, isso sem falar nas ondas, com menos crowd e muito boa qualidade.
Seguindo o mesmo caminho, as etapas seletivas do mundial sub 20 são unicamente realizadas no Brasil. Por que isso acontece?
Por isso, o surfista latino, seja peruano, brasileiro ou salvadorenho, tem que ter a mesma identidade, pois as nossas raízes são as mesmas, nossas realidades também. E de nós depende mudar para o destino não ser o mesmo.
Identidade latina é algo que se fala mas não se pratica. Gostamos de dizer que somos melhores que o vizinho, quando o vizinho é mais irmão do que outra coisa.
Surfar é viajar. E quando você está viajando, não há nada melhor que ser recebido de braços abertos pelos locais.
Esses locais caras-de-mau são os mesmos que procuram as ondas “na boa” e não com agressividade quando viajam.
Nós, amantes do mar, falamos a mesma língua e queremos as mesmas coisas. Está na hora de dar exemplo de amizade continental em vez de competição brutal.
A América do Surf é você, eu, ALAS e também ABRASP. São os cavalinhos de totora e as tábuas, Osmar, Vispos, Fabinho, Ramón, Javier, Mágnum, Pedro, Martín, Juana, José, Sofía, Alberto, Gustavo, Jean, Adriano, Daniel, Gabriel, Armando, Rodrigo, Milton, Washington, mais e muitos mais.
Brothers da vizinhança com quem você dá risadas e faz a mala de bom surfing.
Posso estar soando como um idealista pirado, mas gosto de pensar que num amanhã a gente verá a América do Surf como uma potência mundial do surf.
Temos tudo para ser, como temos tudo para não ser somente Terceiro Mundo. E por enquanto, a gente pode ficar surfando amistosamente as nossas ondas!