Em Aracaju (SE) a prática do bodyboard é muito mais que apenas um simples esporte. O Projeto Estrelas do Mar usa o bodyboarding como ferramenta de inclusão social para pessoas com necessidades especiais.
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O Projeto surgiu em homenagem ao bodyboarder José Ailton Sebastião Santos Silva, conhecido como Ailton Kostela. Ele tinha o sonho de criar uma escola de bodyboard que atendesse jovens carentes da periferia da capital sergipana e estava em busca de meios para colocá-lo em prática. Em março de 2010, antes de realizar este sonho, ao tentar evitar que um adolescente que ele sequer conhecia fosse assaltado Ailton Kostela foi assassinado.
Sensibilizado pela tragédia, seu primo Byron Silva decidiu colocar o projeto em prática incluindo também pessoas com necessidades especiais. Surgiu então, com a ajuda da Waves Escola de Bodyboard, o Projeto Estrelas do Mar que foi iniciado em 26 junho de 2011 com oito crianças da APAE (Associação Pais Amigos Excepcionais) e três adolecentes sem necessidades especiais.
Atualmente, o projeto atende mais de 50 crianças e jovens com deficiências como síndrome de down, autismo, paralisia cerebral, além de pessoas sem limitações psíquicas ou motoras.
O objetivo é apresentar às crianças e jovens com necessidades especiais uma modalidade esportiva em contato com a natureza. Na companhia dos pais, as atividades também fortalecem e desenvolvem as relações afetivas entre os alunos e seus progenitores.
“O Projeto é importante e mostra que portadores de necessidade especial procuram superar as suas limitações ao serem estimulados e motivados. Acabam, de forma espontânea, superando as nossas expectativas. Quebramos paradigmas, vencemos pré-conceitos”, conta Byron.
Eles ficam tão à vontade dentro do mar mostrando suas habilidades que, às vezes, é possível esquecer que eles são especiais. É incrível ver todos ali dentro da água, juntos e se divertindo. Quando a inclusão é bem feita, a socialização começa a se dar de maneira natural
É emocionante ouvir as palavras de cada um. O bodyboard é uma linguagem universal que une todos por uma mesma paixão, o mar. Agradeci a Deus por estar ali e presenciar a alegria contagiante de cada um deles.
Autista de 15 anos, Gilberto Neto morava em Manaus (AM) e não conhecia o mar. De férias em Aracaju, em 2009, os pais apresentaram o bodyboard a ele. O garoto era extremamente introvertido, não interagia e não se comunicava verbal e espontaneamente. Já no primeiro contato, Gilberto passou cinco horas dentro da água. Ao ser chamado pelo pai para sair da água, falou: “Não pai”. Aquela foi a primeira vez que aquele jovem emitia aquele som.
Apenas seis letras. Uma frase com duas palavras que carregava consigo a mensagem de que aquele jovem precisava do mar. Em 2011, o pai do Gilberto tomou conhecimento do Projeto Estrelas do Mar. Era a motivação que faltava para que eles largassem tudo em Manaus e viessem morar em Aracaju. Hoje, acompanhando o Projeto há cerca de um ano, o Gilberto é outro jovem: sorridente, interativo e dedicado. Uma verdadeira Estrela do Mar.
Com a Maxielle Santos, uma garotinha de 8 anos e portadora de múltiplas deficiências, não foi diferente. Quando chegou ao Projeto ela era muito acanhada. Não andava sem apoiar-se em alguém e não interagia com as outras crianças. Hoje, depois de ser submetida a vários estímulos, a Max não só anda sozinha como ensaia corridas e ainda propõe brincar de pega-pega com as outras crianças.
São histórias de força, garra e superação que tocam o coração, ensinam muito e transformam a forma como enxergamos a vida e todos os desafios da jornada.
A maioria das pessoas com Síndrome de Down e outras deficiências, pode levar uma vida saudável e feliz. Os tratamentos multidisciplinares, os momentos de lazer e o apoio da família são fundamentais para uma melhor qualidade de vida. O amor incondicional que recebem dos pais se reflete na excelente autoestima e na alegria em viver. Estas são razões pelas quais a adaptação e integração dos alunos acontecem muito rápido. A inclusão não pode ser apenas uma utopia. E para que se torne realidade é preciso que acreditemos que é possível.
Com o sucesso do Projeto, a demanda de alunos aumentou, porém, os recursos são escassos: “Precisamos nos ampliar, para que mais pessoas possam ser beneficiadas com as aulas. Esbarramos sempre na falta de patrocinadores e de voluntários. Precisamos de equipamentos esportivos, alimentação, protetores solares, sucos, frutas e outras coisas. Atualmente tudo que disponibilizamos sai do nosso bolso, pois eles são em sua maioria carentes”, desabafa Byron.
As aulas acontecem aos sábados, das 9:00 às 12:00 horas, supervisionadas por uma equipe especializada, com educador físico. Na primeira etapa da aula são administrados exercícios lúdicos, onde os pais também participam. Na segunda parte é feito alongamento sob orientação de uma educadora física. A etapa final consiste em repassar técnicas do bodyboarding e em seguida eles vão para o mar, sempre acompanhados por instrutores, um para cada aluno.
A brasileira Akemi Saito é bodyboarder profissional e vive atualmente no Hawaii.