
O paulista Jorge Pacelli é um dos legends brasileiros que mais se destacaram nas ondas do Hawaii em todos os tempos.
Suas fotos foram publicadas em páginas duplas nas melhores revistas especializadas do mundo, em pôsters e até em cartões postais e toalhas.
Entre suas principais façanhas está a de desbravar e nomear ondas como Scar Reef, Desert Point e Super Sucks, na Indonésia, onde percorreu a costa até então inóspita num barco patrocinado pela Quiksilver International (seu antigo patrocinador), nos anos 80.
Ondas memoráveis surfadas em picos como Pipeline e Waimea também fazem parte do currículo do big rider.
Nesta entrevista concedida ao pupilo Sylvio Mancusi, Pacelli conta algumas das suas experiências mais cascudas, como viagens à Ilha de Páscoa, México, e suas 18 investidas às ilhas havaianas.
Como você começou a surfar?
Aos oito anos de idade, na praia das Pitangueiras, com uma prancha de isopor. Na sequência minha mãe me comprou uma Gledson, de fibra de vidro, marca de prancha que era vendida nos supermercados.

E quando começou a levar o esporte a sério?
Aos 14 anos, quando fui a um campeonato de nível nacional que rolou na Praia Grande de Ubatuba. O Paulo Tendas ganhou com o Picuruta em segundo, e eu cheguei às quartas-de-final. Eu era um moleque e me empolguei.
E onda grande? Como entrou na sua vida?
Eu morava na frente do canal da ilha nas Pitangueiras e lembro de uma cena bem legal, quando em um dia de ressaca entrei pelo canal e, quando vi, estava em um mar enorme (para minha concepção na época). Minha mãe ficou desesperada e pediu para os salva-vidas virem atrás de mim. O cara entrou nadando e assim que chegava perto eu remava para longe dele. Até que entrou um ondão e eu fui surfando até a areia. Minhas primeiras experiências em ondas grandes foram na praia das Laranjeiras, divisa com o Rio de Janeiro. Fiz algumas barcas para lá na companhia dos irmãos Alberto e Bruno Alves, Claudio Martins e Romeu Andreatta, a onda parece com Sunset.
E o Hawaii?
Foi um sonho realizado. Na minha primeira temporada, depois de 15 dias nas ilhas, um fotógrafo chegou e me deu de presente uma ampliação de uma foto no Backdoor, dizendo que sairia como página dupla na revista Surfer. Eu não acreditei muito, mas depois de alguns dias lá estava a revista nas bancas. Foi gratificante.
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E aquela famosa sequência em Pipeline?
Foi no meu segundo inverno. Fui checar as ondas logo cedo e não tinha ninguém na água nem na praia. O swell era grande, com cerca de 15 pés, e as ondas estavam pesadas e perfeitas. Corri para casa e acordei todos meus amigos, então partimos para a praia. Ao chegar o visual tinha mudado totalmente, pois a areia continha uma dezenas de fotográfos e cinegrafistas e uma multidão de turistas, porém sem ninguém surfando.
Fui no carro peguei minha prancha, que era pequena, uma 7’2, e lembro dos comentários dos meus amigos dizendo que eu não

deveria cair, pois ali não era o Guarujá e eu poderia morrer. Parti com tudo sozinho pelo canal e o meu destino era o terceiro reef, mas no meio do caminho entrou aquela onda e eu peguei aquele tubo. Quando voltava ao fundo amarradão, o Tom Curren e o Joey Buran, o Pipe Master da época, chegaram ao meu lado e me elogiaram e muito pelo tubo. Sensação única. As fotos saíram em quatro páginas de sequência na Surfing Life e Surfer.
Quantas temporadas havaianas você tem?
Eu já fui 18 vezes, mas foram 14 temporadas,

sendo que 12 foram seguidas e as outras alternadas. Eu tinha que ir e voltar alguns anos, pois tinha família e voltava para ajudar no trabalho e criação da mulecada. Tenho três filhos com a Flavia Boturão, o Keoki (mais novo), Alana e Nicole, a mais velha com 12 anos.
Qual o maior Waimea que você surfou?
Foi no dia do Super Bowl Day, quando o Darrick Doerner pegou a maior onda fotografada na história. Quando cheguei na baía um helicóptero já retirava os últimos remanescentes no outside e as séries entravam mostruosas. Foi quando o big rider e local Roger Erickson passou por mim na Igreja de Waimea enquanto eu me preparava para cair e disse que era para eu esquecer, pois as séries entravam cada vez maiores, lá no fundo parecia um inferno. Já era 16:30 horas e eu vi o Ianzinho e o Adam Twelve se jogando no canal. Saí correndo e me joguei cerca de cem metros atrás deles. No caminho para o fundo começou uma gritaria vindo da praia e a baía parecia um estádio de futebol. O Darrick pegou aquela onda monstruosa e saiu da água.
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Eu já estava no outside, mas quando me dei conta a galera já se deslocava uns cem metros do pico. Mark Foo, Ianzinho, Ace Cool e Adam Twelve remavam com todas suas forças para o fundo, com todos os berros da baía nos ouvidos, e eu só me concentrava em remar e rezar para Deus, pois a série não era daquelas que fecham a baía juntando a esquerda com a direita, e sim daquelas que já fecham tudo lá no meio do mar. Com ajuda de Deus eu passei a última onda em um espaço de um metro que ficou no lip e me salvei. Quando eles se tocaram que eu tinha passado também começaram a gritar.
Na sequência eles foram remando para a bolha e pegaram cada um uma onda e vazaram. Quando eu já estava no raso nas últimas braçadas em direção a areia meu amigo Xan Brandi passa por mim que nem um louco gritando: “Somos irmãos, pelo amor de Deus volta comigo”. Nessa hora dei um berro e voltamos os dois sozinhos para o fundo, e ele pegou a primeira onda grande que entrou e me deixou sozinho no outside. Peguei mais uma onda e sai do mar. Foram as duas maiores ondas da minha vida, cerca de 20 pés plus, e aquelas séries enormes tinham 30 mole.
Que outros picos você conhece?
Hawaii, México, Peru, Indonésia, Ilha de Páscoa, Chile, Austrália e Nova Zelândia.
E a barca que você fez pela Indonésia convidado pela Quiksilver?
Engraçado é que há alguns anos, vi em uma revista que um certo brasileiro foi o primeiro a surfar Scar Reef. Essa onda foi batizada pela galera da nossa barca, composta por um surfista de cada país patrocinado pela Quiksilver. Do Brasil fui eu, do Hawaii o Marvin Foster, da Austrália o Richard Cram e do Japão o Katsusa. Em Scar Reef eu morri dentro de um tubo e arrastei minhas costas na bancada, formando uma patada daquelas. O Marvin resolveu colocar o nome do pico de Scar Reef (bancada da cicatriz).
Desert Point e Ioio’s também fomos nós que batizamos. Desert porque não havia ninguém mesmo, só uns macacos, que à primeira vista do barco pareciam gente. E ioio’s porque o japonês, quando voltou da session, subiu no barco e ficou gesticulando com o corpo falando da onda parecendo um ioiô mesmo. Aí ficou o nome. Engraçado, barca memorável.

E a experiência na Ilha de Páscoa?
Foi uma viagem e tanto na companhia do Burle, Paulo Kid e o fotográfo Tony Fleury. Acho que demos sorte porque pegamos altas ondas com sol e difícil acesso ao outside. Em um dia no pico chamado Akahanga, em um mar de uns 15 pés, fiquei até anoitecer. O Kid pegou uma onda e saiu do mar, depois me empolguei e fui surfando a onda até onde dava e passei do local onde entramos. Então resolvi voltar para o fundo, já de noite, e pegar outra para tentar sair no local certo. A tentativa não deu certo e acabei ficando no mar procurando a saída por cerca de uma hora.
Depois de mais uma hora resolvi fechar os olhos e sair remando para cima das pedras com tudo, pois seria a única solução naquela escuridão. Mas quando me aproximei uma onda enorme bateu em mim e me atirou violentamente contra as pedras. E eu parecia um nada naquela situação. Depois de me cortar todo ainda tive que subir o penhasco com o que restou da prancha e todo ensaguentado atrás dos caras que tinham sumido. Como eu saí muito longe do ponto certo, era impossível saber onde eu estava. Depois de um tempão andando eu vi o farol do carro da galera, que já estava pensado no pior. Isso foi no meio da trip e atrapalhou um pouco minha performance, ainda mais depois de tomar uns pontos no calcanhar, na altura do tendão.
E como anda sua vida agora depois, de ter se afastado da mídia?
Estou meio parado devido ao trabalho e problemas familiares, mas fui duas vezes para o México e duas para o Hawaii desde então, e nunca parei de treinar e manter o preparo físico. Você sabe, fazemos tow-in, kitesurf e malhação direto. Pretendo voltar à minha vida de surfista profissional, pois estou com o patrocinio da Gzero Store e na procura de outros patrocinadores para dropar umas morras de tow-in com os amigos no Hawaii e andar de kite em Backyards. Estes são meus objetivos.
Algum recado?
Eu tenho meu pai como um ídolo e não ouvia muito ele, mas agora, depois que o perdi, comecei a raciocinar sobre as sábias palavras que os pais mais experientes têm a passar aos filhos. Temos que prestar atenção. Abraços a todos.