O carioca Júlio Adler destila todo seu conhecimento para contar a verdadeira história dos mundiais amadores, hoje conhecidos como ISA World Surfing Games. Segundo ele, a trajetória desta tradicional competição é mais antiga do que pensa a maioria das pessoas envolvidas com o esporte.
A praia, apinhada de gente, comovia-se com a viúva do Duke, senhora Nadine Kahanamoku, homenageada pela organização do mundial, e com a prece do filho mais novo de Ben Aipa.
Passado o desfile das 14 nações presentes em Oceanside, os havaianos fizeram seu tradicional ritual das águas, misturando todos os mares em uma travessa de prata, simbolizando a unificação dos povos.
Falei 14 nações, mas uma delas não levou água pátria, motivo simples: já estava lá!? Não dava pra mandar buscar um vidrinho no Rio, ou melhor, Recife. Sabem quem era? O Brasil. Onde? Quando? E por que?
No campeonato mundial amador realizado em 84, na praia de Oceanside, Califórnia. Porquê apagaram 22 anos de história de uma tacada, mal-dada, só.
Anda muito em moda agora sacar de surfe, conhecer as datas, os fatos e os nomes, tudo muito decoradinho, tudo muito bonitinho. Investigar já é outra coisa. Dá um trabalho danado.
Então, como ia dizendo, vinha com meus cliques pela internet quando deparei com a história da participação brasileira no ISA Games, antigo mundial amador ou, se preferirem, World Surfing Championships.
#O artigo saiu aqui no Waves, duplamente assinado (assassinado?) pelos meus velhos camaradas Marcos Bukão, diretor financeiro da CBS (Confederação Brasileira de Surfe), reconhecido como uma verdadeira enciclopédia do surfe, e o fotógrafo e assessor de imprensa da CBS Sérgio Laus, que me arrogo o direito de chamar de Serginho!? Vai Serginho!
“O primeiro ISA World Surfing Games aconteceu na Inglaterra, em 86. Na época não teve muita repercussão”, escreveu Bukão, que acompanha de perto os mundiais desde 91.
Sinto decepcioná-los, amigos, temo afirmar que o primeiro mundial da ISA aconteceu em 64, Sidney, sim senhores, na Austrália. Na oportunidade, um sujeitinho chamado Bernard Farrely, que tinha o apelido de “anão”, em inglês “Midget”, surpreendeu os americanos e sagrou-se o primeiro campeão mundial de surfe. No feminino, a menina
Phyllis O’Donnell foi a vencedora.
Nem vou me dar ao trabalho de falar dos internacionais de Makaha, pois ainda não eram considerados campeonatos democráticos suficiente para determinar o campeão mundial.
Mas em 64 ainda não era ISA. Era ISF (International Surfing Federation) e assim continuou até 76, quando fundaram a tal da ISA no Hawaii. Até aquele longínquo ano de 76 tiveram ainda seis mundiais. Depois pararam.
Todo mundo ficou muito chateado, ninguém mandava carta, o profissionalismo nascia, crescia e tomava conta do mundo competitivo deixando o surfe amador de lado. Na realidade, nem sabiam ainda o que era profissional e o que era amador.
Em 80 ficaram com pena do abandono e fizeram novamente um campeonato mundial amador em Biarritz, na França. Um sujeitinho muito do talentoso chamado Tom Curren ganhou a nova categoria que criaram e colocaram o nome de Junior (até 18 anos). Curren tinha 16 aninhos e Mark Scott, da Austrália, arrastou a categoria aberta, Open, e sumiu pra sempre.
Gostaram tanto, mas tanto, da volta do mundial, cheio de equipes desfilando, confraternização dos povos, bebidas e mulheres à vontade, que resolveram repetir de dois em dois anos.
#Pois não é que a ISA fez outro mundial em 82, na Gold Coast australiana, e o tal do Tom Curren, que já tinha sido mundial Junior, levou a Open ? e ainda ficou com o vice na Junior! Nunca mais ninguém fez isso.
Assim como nunca mais ninguém fez a primeira participação brasileira no mundial da ISA como Pepê César e Eraldo Gueiros fizeram em Oceanside, ano da graça de 84.
Os dois pernambucanos desembolsaram uns US$ 500 mangos esverdeados para inscrever o Brasil na ISA e, portanto, formar assim a primeira equipe
brasileira a competir nesse negócio de mundial amador.
Henrich Von Shulemburg, esse mesmo aí, dono da fábrica de blocos Bennett Foam, estava por lá shapeando pela Gordon & Smith e não nos deixa mentir (nem ele nem a secretária, que filtra os telefonemas e não deixa a gente falar com ele. Ô Henrich, atende!).
Pepê competiu na categoria Junior com prancha shapeada pelo Henrich e ficou em sexto lugar! Vou repetir a exclamação: sexto lugar!!!!!!!!!
Estamos falando de um tempo, hoje tão distante, onde brasileiro nem sonhava em competir nos mundiais amadores… Pois se a gente nem sabia ainda que diabo era aquilo de amadorismo, Junior, Mirim.
Eraldo, dropador casca-grossa, ainda era aspirante ao profissionalismo e conseguiu um honroso 21º lugar. Damien Hardman venceu a categoria Junior e Scott Farnsworth abraçou a taça de campeão mundial Open.
A revista Surfer, volume 25 nº 2, de novembro de 84, trazia o seguinte trecho na cobertura do mundial escrita pelo editor Paul Holmes: “E temos que considerar certas surpresas. Como o valente time, com apenas dois surfistas, do Brasil, que apenas em virtude dos números (nota: as equipes contavam ainda com kneeboarders, mulheres e tinham em média de 6 a 12 surfistas) não teve muitas chances no ranking final (nota: ficamos em 11º), mas Pedro conseguiu um sexto lugar na Junior e Eraldo 21º na
Open.”
No mundial de 86, em Newquay, Inglaterra, a equipe brasileira formou com o status de B, levando a gaúcha Roberta Borges, o kneeboarder Sérgio Peixe, Sérgio Noronha, Ricardo Tatuí e Pepê (César). Flávio, que ainda era só Teco, competiu na Junior e na Open.
O finado Mark Sainsbury matou no peito o troféu de campeão mundial amador e introduziu uma nova manobra no mercado: o floater. Na categoria Junior, um tahitiano, que surpresa! Vetea David superou tudo e todos, incluindo aí Kelly Slater, com 12 anos, Nicky Wood e Chris Brown.
O que me dói mais no coração de surfista é o fato do erro estar publicado, oficialmente, na página da Confederação Brasileira de Surfe (www.cbsurf.com.br). Imperdoável.
E a nossa pobre imprensa especializada (em quê, cara pálida? Em quê?) nem faz uma pesquisinha antes de publicar essas paradas, nem nada. Lamentável.