A última sessão de tubos de um condenado

Eu estava preso na cadeia de segurança máxima de Honolulu havia 10 anos, prisão perpétua. Assassinei com os próprios punhos o amante de minha mulher, além de dois policiais que chegaram ao local, avisados pelos vizinhos.

 

Só eu sei a fúria que tomou conta do meu corpo depois de dar o flagrante em meu próprio irmão por cima de minha mulher, na minha própria cama.

 

A reviravolta aconteceu no dia 1 de março deste ano, quando eu e mais cinco colegas de cárcere fomos chamados para uma reunião com um dos generais mais casca-grossa do exército norte-americano.

 

Na conversa, fomos convocados para a guerra contra o Iraque. Se voltássemos vivos, decretariam nossa liberdade. Quando a esmola é muito alta, o santo desconfia: nossa função era no batalhão de frente.

 

Numa querra destas, isso significa uma batalha praticamente no mano-a-mano. Vulgos psicopatas como nós dariam uma significável vantagem. A real é que em guerras desse tipo só sobrevivem 20% dos soldados desse batalhão.

 

Aceitamos a proposta na hora e imediatamente arrumamos os trapos e entramos em um caminhão especial para nos levar ao North Shore, base dos aviões que partem para o Iraque. No caminho, notei que o swell era de puro West com 12 a 15 pés – perfeito para minha onda predileta, Pipeline.

Os guardas que faziam a escolta eram ex-condenados escolhidos como nós, mas da Guerra do Vietnã. Implorei para surfar por uma hora antes de partir para o Iraque, afinal não sabia se voltaria vivo e aquela era uma oportunidade única.

 

Relutaram, mas acabaram deixando por ordem do superior no caminhão, também surfista e que sabe o que rola dentro de nossas almas. Pedi que parassem na casa de um amigo onde larguei minhas pranchas 10 anos antes.

 

Por sorte, encontrei minha 8’2 toda cheia de barro, e mesmo sem cordinha, remei para o outside, enquanto todos do caminhão ficaram na areia à minha espera.

 

Só reconheci três cabeças no outside dos pelo menos 30 que curtiam um Pipeline de sonho. Um era meu velho amigo David Contrell, que não entendeu nada minha presença e fez questão de limpar o pico nas três ondas que surfei naquele dia e na vida.

 

Parecia que não tinha parado de surfar havia 10 anos… Minha primeira onda peguei em Banzai e quando ela entrou no primeiro reef envelopou um salão com ”double lip” lindo. E, depois de passear dentro do útero da mãe-natureza, saí com a a baforada no canal.

 

Olhei o relógio e só me restavam 30 minutos. Aí, resolvi esperar mais para dentro da bancada, sem perder tempo na remada até Banzai.

 

As outras duas bombas de 10′ a 12′ foram no crítico com minha 8’2, que descolou no ar nos dois drops. Destaque para a última, quando depois de sair no spray, a onda rodou de novo na frente dos salva-vidas em Ehukai e coloquei para dentro do cilindro e não saí, perdendo a prancha na arrebentação.

 

Perto da areia, de olho no relógio, sabia que não existe benção maior que essa e saí em direção ao caminhão…

 

Não tive sorte na Guerra, mas fui para o céu com a alma lavada.

 

Aloha!

 

Nota do Autor: Na verdade, presenciei um maluco que nunca havia visto na vida em Pipeline surfando as três melhores ondas num dia clássico na primeira semana de março deste ano. O dito cujo apareceu no outside com uma prancha muito velha e suja, mas nova pelo estado. Ele surfou realmente as três ondas descritas acima… ah, e o David Contrell liberou a primeira onda surfada pelo sujeito no Banzai, pois eu estava ao lado e presenciei a cena. Ele tinha mesmo cara de bandido e não tava ali para brincadeiras… o resto foi pura imaginação, fantasia de Pipe dreams.

Esse texto foi orginalmente publicado na coluna de Sylvio Mancusi na 80a edição da Venice Mag.

 

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