Soul Surf

A sopa Sidônica

Sidão Tenucci em ação na Costa Rica: um dos ingredientes que fazem parte da sopa Sidônica. Foto: Roberto Price.

“A função apropriada do Homem é viver, não existir.” – Jack London. 

 

Borges, Piazzola, Joseph Conrad, Jack London e o vento no rosto. Parte I.

 

O escritor argentino Jorge Luís Borges era obcecado por tigres, espelhos, labirintos e facas. Elaborou textos maravilhosos com suas experiências mentais e até físicas no encontro com essas suas entidades.

Era um homem de letras, não de ação. Na minha receita inconsciente “ondas” é um atributo vivo, um dos ingredientes que resultou na sopa Sidônica, que é feita de pensamentos, letras, música e ação.

As viagens são outro atributo. O mistério feminino, outro. O aprendizado do amor e do sofrimento, outro. A matéria prima de que são feitas as emoções, outro. A obsessão de tentar prender o Tempo e as coisas em palavras é outro ingrediente, tão etéreo quanto denso – a angústia de não conseguir nem ao menos fazer com que o Tempo diminua o ritmo só encontrou alívio quando descobri que o tempo só pára quando fazemos algo que amamos.

É o único momento em que conseguimos vencê-lo dentro do seu próprio terreno movediço. O buraco abissal que vai até o fundo do oceano inconsciente. O surf, seu brinquedo de superfície, mas que te olha nos olhos. Perplexidade constante é um outro atributo dessa fórmula, bem perturbador por sinal.

 

Borges cunhou, com suas mãos de cego, o termo “melancolia agridoce”, que me atingiu em cheio no estômago quando o li pela primeira vez – um devastador soco poético-literário -, porque para isso já vinha me preparando há muito tempo; e é dela, da melancolia agridoce, que eu vivo, de que me alimento, sugando devagar seu veneno que, ao invés de me matar, me mantém firme através das intempéries (do tempo). Faz-me ir mais adiante com maior prazer. O que mata é a dose.

 

Quem não entende a dor como parte intrínseca da vida, renega a própria essência da vida. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Sofrer é apego, é a não-aceitação da perda, dos fatos, das mudanças, da realidade, de um destino que através dos seus labirintos e tubos sem saída nos ilumina. É não aceitar o caldo. Sofrer é não aceitar a dor, a vida. É perder o oxigênio essencial num momento superficial.

 

Sofrer é não aceitar a onda – o ser mutante por excelência. Aceitar-se como ser dinâmico alivia o fardo. Surfamos energia. A escritora Susan Casey – editora da revista “Oprah” -, escreveu, talvez inadvertidamente, um aforismo poético no seu ótimo e longo livro “A Onda”.

 

A obra é bem cartesiana / New York / sou durona, e vem recheada de números e fatos, mas, num dado instante, a moça graças a Deus escorregou e poetou: “A onda é um paradoxo: é objeto e movimento”. Exato. A poesia serve para nos revelar o que não é dito. O que depreendemos do que é lido é que é a realidade.

 

Surfamos a energia que se movimenta através da água, não a água que enxergamos. A água que vemos levantar no horizonte em nossa direção não será a água que surfaremos, não é a água que começa a quebrar, não é a água que termina na praia com sua espuma final, mas uma água que literalmente flui, e nunca é a mesma. O que surfamos é a energia que a movimenta, que causa “La muerte del Angel”, como no título de música de Astor Piazzola (os argentinos estão onipresentes nesse capítulo).

 

Essa é só mais ideia, uma nota de rodapé numa miríade de referências desencontradas, como ondas numa tempestade em alto-mar, sinapses molhadas que se entrechocam e têm sua própria direção, a qual não nos é permitida compreender. Os surfistas vão entender: o mar não tem lógica. É o nosso inconsciente. É poesia.

Reconheci-me nessa pequena dor, que não chega a ser sofrimento, e exatamente por isso é uma perfeita metáfora da vida: uma pequena dor que não chega a ser sofrimento.

 

O rio da vida é, por vezes, tão lento, que me imobiliza. Ou é ele que pára. Um rio tão lento que parece imóvel. Mas esse rio lento alimenta o mar tanto quanto o rio impetuoso. Somos rio e mar? Nossas veias-pensamentos são os rios que alimentam nosso mar-alma com sangue e sentimentos.

 

Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, fundou a OP Ocean Pacific no Brasil, viajou por 50 países e quer mais. Autor dos livros Almaquatica (Fnac), O Surfista Peregrino (Livraria Cultura), e irá lançar sua terceira obra, “Poentes de Amor”, em poucos meses. Não é nada, não é ninguém, e mais perplexo, apaixonado e aquecido fica a cada vez que tenta descobrir-se.

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