Gold Coast, Austrália, 4 de junho de 2010. O mar estava quase flat, mas a fissura me chamou. Meio sem vontade abandonei o calor da família, coloquei a roupa de borracha, e embarquei na bicicleta.
Ao chegar na praia de Kirra notei que o surfe seria um fracasso. Pedalando na beira da praia vi um senhor lavando uns peixes. Cheguei mais perto e reconheci minhas velhas amigas: as tainhas. Para mim não existe peixe mais gostoso.
No Brasil é barato. Na Europa tem, mas ninguém as come. Porém, para mim é o melhor. Em Floripa a tainha é quase adorada, a época da pesca da tainha movimenta a comunidade. Pescadores passam o dia inteiro de frente para o mar esperando o cardume para cercar. Os moradores ficam de olho esperando o primeiro lance para se deliciar. Os surfistas ficam desesperados vendo ondas clássicas quebrando sem poderem ser surfadas.
Todo ano, no mês de maio, em plena época de ondas no litoral catarinense, a guerra da tainha inicia. São dois meses de longa negociação entre surfistas e pescadores. Por lei, nesta época em Florianópolis não se pode surfar, a não ser nas praias da Joaquina e Mole. Mas os surfistas não se conformam. Casos de briga e tiros por causa das tainhas e das ondas existem em centenas nas últimas décadas.
Quando o senhor em Kirra me disse que haviam feito um lance de tainha, eu me liguei que as lanchas que estavam na praia há algumas semanas eram para pescar tainha.
Então eu comecei a pensar: cadê o conflito? Voltei para casa, peguei dinheiro e a câmera fotográfica. Esqueci da prancha e fui falar com os pescadores. A técnica é a mesma, os peixes são cercados com redes e trazido à praia. Aqui, camionetas 4×4 puxam a rede. No Brasil as mãos da comunidade puxam a rede.
Mas aqui eu não escutei nada sobre a pesca da tainha. A galera estava surfando normalmente durante este tempo todo. Pensando no contraste, imaginei uma explicação, aqui na Austrália os pescadores devem ser surfistas. O surfe está impregnado na cultura australiana, algo que não acontece na cultura brasileira.
No Brasil, antes dos surfistas chegarem, a época da tainha já era um acontecimento. Os surfistas vieram do centro da cidade, não conheciam muito bem os pescadores. Chegavam na praia, curtiam o dia e as ondas, cumprimentavam os pescadores, quando não incomodavam, e iam embora.
Hoje a realidade já mudou um pouco. Os filhos dos pescadores viraram surfistas. Certas vezes os pescadores são surfistas. Quando tem onda, em muitas praias os surfistas já podem surfar. Logo a maioria dos pescadores será surfista e a guerra da Tainha vai virar história.
A paz é possível em qualquer lugar. Basta as pessoas se entenderem e se aceitarem. De noite as tainhas compradas viraram tainha recheada com ova pelas mãos da chefe Laura (minha esposa) para o aniversário do Leco Costa, um camarada do surfe de Floripa que fui encontrar aqui na terra dos cangurus.
Carlos Portella conta com apoio QIBA. Confira mais algumas viagens do autor no site Umas Viagens.






