Perfeita como num sonho

Essa onda existe?

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O que será que Bruno Santos enxergou ao olhar para o interior deste tubo em Teahupoo? A perfeição inatingível? Foto: Joli

A forma teria de ser tão cilíndrica que permitisse Kelly Slater andar ainda mais fundo no interior do tubo? A força proporcional à violência das rasgadas de Sunny Garcia? A velocidade páreo para a capacidade de aceleração de Felipe Toledo? A extensão suficiente para que Gabriel Medina exibisse todo seu repertório de manobras? O tamanho desafiador a ponto de provocar uma descarga de adrenalina em Laird Hamilton?

Uma coisa é certa, a onda que atendesse a todos estes pré-requisitos teria que ser uma mistura de Teahupoo, com Sunset, com Pipeline/Backdoor, com Superbank e com Jaws, e somente poderia ser surfada por poucos, muito poucos surfistas, que fossem quase tão perfeitos quanto elas?

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Cada surfista tem sua própria concepção do que é uma onda perfeita. Para o mega big rider Mike Parsons, a resposta pode estar na magnitude de Jaws. Foto: David Pu´u

E a grande massa de surfistas que tem como seu maior desejo surfar ondas entre quatro e oito pés, com um drop vertical, mas não impossível, seguido de uma seção tubular, mas não assassina, e outra manobrável, mas não rápida demais, com tudo acabando no canal, onde os amigos aplaudem sua performance, eles tão sonhando com o quê? Não é justamente com a onda perfeita?

Perfeição é um conceito subjetivo, e a definição do que é uma onda perfeita vai sempre variar de surfista para surfista. O surfista de pranchão e o de pranchinha, o fissurado em tubos e o que só pensa em aéreos, o que adora inventar novas manobras e o que vive de drops quilométricos, todos sonham com a onda perfeita. Mas cada um tem sua necessidade própria, seu sonho particular.

O perfeito não existe. O perfeito é efêmero. O perfeito é um sonho. Uma das definições de sonho diz: “Coisa imaginada, mas sem existência real no mundo dos sentidos”. Outra: “Pensamento dominante que seguimos com interesse ou paixão”. Também: “Fantasia, ilusão, utopia”.

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Surfista anônimo faz a cabeça na exatidão cilíndrica de Nias, na Indonésia. Foto: John Callahan

Ainda assim, numa permanente discordância da razão, mesmo conscientes da imaterialidade do perfeito, os surfistas nunca desistem e continuam acreditando na existência da onda perfeita, da onda do sonho.

Todo surfista sabe que uma onda, por mais perfeita, nunca é igual à outra. O que jamais impediu que, na hora de descrever aquela sessão alucinante, os surfistas encham a boca de certeza ao afirmar para os amigos que as ondas estavam tão perfeitas que entravam uma igualzinha à outra.

Desert Point produz ondas perfeitas? Jeffrey’s Bay produz ondas perfeitas? O que as ondas desses dois picos, que habitam o imaginário dos surfistas na condição de produtores da perfeição que tanto sonham, possuem em comum? Muito ou pouco? Em um local as ondas quebram para a esquerda e no outro para a direita, em um a água é quente e no outro gelada, em um o fundo é de coral e no outro de pedra, em um as ondas são longas e no outro mais longas ainda. Mas não há quem surfe as ondas de Desert ou de J-Bay num dia clássico que não saia d’água feliz por ter experimentado o gosto da perfeição.

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Filipe Toledo testando a perfeição de Trestles, na Califórnia. Foto: Marcio Canavarro
 

E quem criou as ondas, qual o conhecimento prévio teria usado na hora de desenhar determinados acidentes geográficos, como point breaks que recebem as ondulações num ângulo perfeito, ou determinadas bancadas milimetricamente posicionadas na rota de poderosos swells? Será que a ocorrência de ondas perfeitas é fruto do acaso ou desígnio de uma força superior?E estas ondas de piscinas que estão sendo prometidas para um futuro próximo – nas quais a força, a forma e o tamanho serão controlados por computador, a gosto do cliente – poderão ser consideradas perfeitas? Ou o perfeito deve essencialmente vir da natureza?

Deus e perfeição, duas coisas que combinam. Aliás, para quem acredita nele, Deus é perfeição. Quantos e quantos surfistas nunca deram bola nenhuma para Deus saíram d’água convertidos após terem surfado as ondas mais perfeitas de suas vidas. Mesmo o mais incrédulo dos ateus, diante de certos dias de surf tão mágicos, se vê tentado a recorrer a Deus para compreender a origem de tanta perfeição.

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Para muitos, Desert Point, na Indonésia, é a onda mais perfeita do planeta. Foto: Sebastian Rojas
 

Mas então a onda perfeita existe? Não, a onda perfeita não existe. Ela sempre ou já existiu ou ainda vai existir. Pegue um avião agora para Maui, no Hawaii, e dirija até Honolua Bay, para muita gente a onda mais perfeita do planeta. Mesmo que você chegue lá num dia de condições sublimes, o que é bem raro de acontecer, as ondas que você vai avistar do alto do barranco ou estarão iniciando ou terminando sua trajetória de perfeição. Mas nunca serão perfeitas em sua plenitude justamente por terem começo, meio e fim. A perfeição deve ser infinita. Nunca transitória. Quem sabe se na imensidão do Cosmo uma onda de energia não se propague eternamente aguardando os surfistas que passam para o outro plano. Eddie would go.

Desert Point, Uluwatu, Padang Padang, Grajagan, Nias, Macaronis, Lance’s são as ondas mais famosas da Indonésia, e por isso mesmo estão indiscutivelmente entre as ondas mais sonhadas do planeta. Quando se fala em perfeição, Indonésia é o destino mais associado à palavra-chave do imaginário dos surfistas. Mas e as ondas do Hawaii e do Tahiti, são por acaso menos perfeitas que as da Indonésia?

Uma situação é sonhar que estamos surfando a onda perfeita, nós mesmos com nossas qualidades e defeitos, nossas capacidades e limitações. Outra é sonhar que temos a habilidade, o preparo físico e a coragem de um Kelly Slater ou Laird Hamilton. No primeiro caso, o mais recomendável é sonhar com uma onda perfeita na Indonésia mesmo. Já no segundo tipo de sonho, aí sim Pipeline, Teahupoo ou Jaws podem fazer parte da película.

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A performance perfeita faz a onda perfeita. Kelly Slater irretocável em Pipeline. Foto: Joli

É por isso que sonhar dormindo é sempre mais seguro. Se de repente a onda com a qual você está sonhando não se revelar tão perfeita assim, e você enveredar pelo caminho do pesadelo, se salvar é a maior moleza. Não importa a força ou o tamanho da onda. Se a bancada é rasa ou profunda. Se a corrente está puxando ou o tubarão cercando. Se você tomou a série na cabeça ou bateu com a mesma no coral. Basta acordar.

Já na hora de sonhar acordado, tente sempre manter os pés no chão. Lembre-se que não basta a onda parecer perfeita, ela tem que ser perfeita para você e para ela. Num dia de swell de sudoeste com vente leste fraco, nenhuma onda pode ser mais irretocavelmente bela do que a rainha da série em Teahupoo. Mas esta mesma beleza quando vista de cabeça pra baixo, rodando junto com o lip após ter sido sugado pela parede do tubo, irá se revelar absolutamente horripilante. E nada perfeita, com certeza ao menos não para você.

“Ah, se ao menos houvesse uma maneira de se livrar do crowd e surfar sozinho…” O que tem de gente que suspira estas palavras quando se vê as imagens de Pipeline nas revistas e filmes não é brincadeira. Por mais inconstante e imprevisível que se apresente, o pico mais famoso do planeta definitivamente é sinônimo de onda perfeita para milhões de surfistas. O engraçado é que quem conhece Pipeline de verdade costuma negar que ela seja tão perfeita assim. A mais emocionante do planeta sim, mas não a mais perfeita. Mas a onda mais perfeita não deveria justamente ser aquela que proporcionasse a mais forte emoção?

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Gabriel Medina em total harmonia em Teahupoo, Tahiti. Foto: © WSL / Kirstin
 

Tudo se trata mesmo é de uma questão de percepção. O que se capta vendo uma foto, filme ou mesmo ouvindo um relato verbal está sempre atrelado à imaginação, ao sonho. Já a experiência real proporciona o distanciamento da fantasia, com os defeitos da perfeição idealizada vindo à tona, expostos na superfície.

Mas é justamente aí, nesta insistência em estar sempre buscando algo que comprovadamente não existe, ao menos não da maneira absoluta que a própria concepção de perfeição exige, que reside o segredo. Enquanto a maior parte da humanidade não sabe direito a que veio para o planeta Terra, os surfistas possuem o privilégio de perseguir uma razão de vida muito clara, ainda que virtualmente incompreendida por quem não compartilha dela. Porque o que importa realmente não é encontrar, e sim continuar buscando a onda perfeita. Para sempre.

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