O carioca Rick Werneck é talvez um dos fotógrafos brasileiros com mais bagagem em viagens pelo mundo atrás de ondas perfeitas. Porém, mesmo tendo conhecido lugares como Tahiti, Fiji, Indonésia e até Fernando de Noronha, no Brasil, Rick afirma que nenhum lugar lhe causou tanta atração como a Floresta Amazônica. Na verdade, uma onda no meio da floresta: a Pororoca. Um dos pioneiros nas expedições em busca da lendária onda, ele diz que a magia em torno da Pororoca não acaba nunca e conta, nesta entrevista exclusiva ao correspondente Waves Júlio Adler, sobre lendas que envolvem o fenômeno, tubos que lembram Backdoor, no Hawaii, músicas inspiradas na onda e crianças, filhos de vaqueiros das fazendas de búfalos da região, que estão dando seus primeiros passos sobre pranchas de surf na Pororoca.
Que diabos você vai fazer tanto na Pororoca?
Existe uma lenda segundo a qual quem toma três goles d?água da Pororoca,
volta sempre. Na primeira vez que eu fui, eu bebi estes três goles logo depois de ter surfado a onda.
Diga uma coisa: pra quem faz fotos em lugares como Tahiti, Tavarua, Noronha, com líquidos de transparência irritante, qual é a graça de fotografar ? passado o ineditismo ? naquela água barrenta?
Já fotografei muitas ondas, às vezes tubos quebrando perfeitos, de terral. Mas, nunca tinha um surfista nela usufruindo totalmente do que a onda oferece. Estou procurando este momento.
E isso deu até música! De onde surgiu essa veia e porque foi se manifestar logo na Pororoca?
A veia, na verdade, se manifestou nas Maldivas, um mês antes. Mas a atração que eu tenho pela floresta é muito forte. Ver aquela onda passar e logo depois assistir a um casal de araras passar sobre a sua cabeça só podia inspirar música. Além do mais, é uma onda por dia, porque a outra só passa a noite, portanto, tem bastante tempo para botar em palavras a exuberância da natureza que nos cerca. Mas a música fala, na verdade, da quebra de um mito. Até pouco tempo atrás, a Pororoca era uma onda assassina, agora é um desafio e objeto de prazer e foi o surfista que quebrou este mito de muitas gerações. Aliás, acabei de fazer uma nova música sobre a Pororoca nesta última viagem, mas, ainda tenho que gravar o CD.
Uma curiosidade: o equipamento que os surfistas usam são muito diferentes dos considerados “normais”? Afinal, a densidade da água deve ser bem esquisita, doce misturada com salgada, e se tem menos sal a prancha flutua menos.
As pranchas são basicamente as mesmas, mas deve ter mais 1/4 ou ½ polegada de espessura justamente para dar mais flutuação.
Essa deve ser a sua centésima vez na Pororoca. Quantas vezes você viu
a onda funcionando e qual foi a mais impressionante delas?
A primeira vez, até pelo ineditismo e a incerteza do que iríamos encontrar, foi muito impressionante. Não estávamos devidamente equipados e precisou de uma dose de coragem para nos colocarmos na situação em que nos colocamos. Também pegamos três dias de terral, o que, nas outras viagens, eu descobri que é muito raro. O que também me impressionou nestes cinco anos desde a primeira vez é a rapidez com que as margens estão sendo “devoradas” pelas águas.
Tubo! Tem tubo lá?
Perfeito, de terral, pros dois lados. Poucos já viram, mas tem. Vi um tubo uma vez que lembrava Backdoor, correndo para a margem, mas o vento não era o ideal. Se tivesse um surfista na onda ia dar uma foto incrível e a noção certa do tamanho da onda. No momento seguinte o caldo seria horrível, mas valeria a foto. Tenho certeza de que as pessoas iriam ficar “chocadas”. Pelo menos as que estavam no barco comigo ficaram.
Pioneiro, você viu a primeira e algumas das últimas? Quais as mudanças que as cidades que tem margem com o fenômeno sofreram com a publicidade da Pororoca?
Na verdade não tem uma cidade perto de onde o fenômeno acontece. A cidade mais próxima, Cutias do Araguari, fica a nove horas de barco. Mesmo assim, a cidade adotou o slogan “A Terra da Pororoca” e já investiu dinheiro para incentivar e divulgar o surf na Pororoca, inclusive com a presença do ex-governador e candidato a senador João Capiberibe.
Existe algum surfista que é produto direto da Pororoca, digo, um camarada que aprendeu a surfar na Pororoca?
Ainda não, mas nas últimas viagens, alguns filhos de vaqueiros das fazendas de búfalos da região, com idades entre 4 e 13 anos, ficavam remando em pranchas emprestadas e tentando ficar em pé até a noite.
Como faz pra chegar na Pororoca? E quantas delas devem existir?
Voa até Macapá, roda quatro horas de carro e mais nove horas de barco, até a foz do rio. Pororocas existem muitas, inclusive em outros países, mas naquela região talvez exista a maior concentração delas, com relatos que vão desde o Maranhão até a Guiana.
De todas as ondas/recordes que você presenciou, quais as diferenças mais marcantes entre elas?
Na verdade, cada vez que eu fui à Pororoca, a onda era diferente. Às vezes longa, outras vezes muito longa. Às vezes quebrava perto da margem, às vezes no meio. Muitas vezes de maral, algumas de terral. Algumas poucas vezes rodando, muitas outras formando uma parede extensa. Mas o que mais marca é que você ouve a onda chegando antes mesmo de conseguir vê-la. O volume d’água é muito grande.
Pipe 12 pés ou Pororoca 6 pés?
Pipe é, com certeza, uma onda mais “high performance”, mas já foi revirada do avesso através de centenas de milhares de fotos e filmes. Eu, como bom nacionalista e uma pessoa que tem orgulho de escrever surfe com “e”, tenho paixão pela mais brasileira das ondas: a Pororoca.