Caça às ondas

A magia da América Central

Wilber e Roland Roderjan durante tour pela América Central. Foto: Arquivo pessoal Roland Roderjan.

Conheci um espanhol rastafari em Pavones, Costa Rica. Explicando sua viagem, me contava como sobrevivia há mais de um ano na América Central, trabalhando como artesão, e também falava de seus planos de descer pela América do Sul e chegar até o Brasil.

 

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Viagem longa. ?Um ano é muito pouco para conhecer bem toda a América?, dizia ele. Foi pensando assim que aterrissei na Costa Rica oito meses atrás. Disposto a dar um giro do México até o Chile, atrás das ondas e de experiências que ajudem a entender melhor o mundo em que vivemos.

 

Realmente, em todo este tempo que já passei aqui conheci muito pouco, comparado com tudo que tem neste mega-continente. Mas, sem muita pressa, fiz da América Central meu lar, e já passei toda uma temporada no Pacífico aproveitando os swells que vinham lá do Sul.

Popoyo quebra de gala na Nicarágua. Foto: Roland Roderjan.

De março a setembro, a América Central recebe ondulações vindas do hemisfério Sul, que antes passam pelo Chile e Peru e depois atingem direto toda a costa do Pacífico até o México. Pela internet, podia ver as manchas laranjadas e vermelhas, marchando direto para onde estava.

 

A primeira base foi o ?pueblo? de Pavones, no Sul da Costa Rica, onde mais dois amigos do Brasil, Wilber e Tião, se juntaram a mim e assim passamos cinco meses conhecendo detalhadamente a onda de Pavones. Para sobreviver, comecei a trabalhar como fotógrafo de surf no pico.

 

Pavones é a segunda esquerda mais longa do mundo. Quando quebra em seus dias clássicos fica extra-terrestre, praticamente dando a volta no pequeno povoado de mesmo nome.

 

Essa onda quebra em três seções distintas, e quando todas conectam com um bom tamanho, pode ter certeza de que será uma das sessões de surf mais clássicas da vida.

 

Extremamente rápida; em algumas ondas é bom descansar as pernas um pouco no meio da seção para depois poder acelerar até o fim. Dá-lhe gás.

 

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Santa Catalina, no Panamá, mostra as caras. Foto: Roland Roderjan.

Atravessando a fronteira com o Panamá, está outro pico de grandes proporções – Santa Catalina. Uma baía recheada de rochas vulcânicas e que não tem exatamente o aspecto de uma praia bonita de natureza exuberante, como Pavones.

 

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O negócio ali é a onda, que funciona quando uma boa ondulação vem lá do fundo e atinge uma ponta de rochas rasas escondida no meio da baía. Nisso se forma uma direita cavada que começa a funcionar com 1 metro e agüenta ondulações de até 6,5 metros.

 

Começa com um tubo oco e depois segue abrindo uma parede manobrável por um longo percurso pela baía. Mas é bom ficar ligado, porque as rochas estão ali pertinho, esperando para um encontro marcante.

Nicarágua tem belas paisagens. Foto: Roland Roderjan.

Fomos a Santa Catalina algumas vezes nesta temporada. Descobrimos um terreno de frente para a onda com umas cabanas abandonadas e passamos algumas noites ali, sem gastar nada e tendo o céu de estrelas como teto. Mas sempre ao acordar tínhamos a visão do pico quebrando perfeito em nossa cara. Não tem preço.

 

No começo de novembro, demos uma investida até a Nicarágua. Fomos de ônibus em direção à praia de Salinas, onde sabíamos que quebrava uma onda chamada Popoyo.

 

Apesar das notícias de que a estrada estava debaixo d´agua depois de quarenta dias de chuva, resolvemos encarar para aproveitar um swell generoso que estava previsto para os próximos dias.

 

Não foi fácil chegar à praia, pulando de ônibus em ônibus e depois caminhando por estradas de terra vazias até encontrar uma boa alma que nos levou até uma casa de uma família para passarmos os próximos dias perto da praia e sem gasta nada.

 

Dormimos por quatro noites em redes do lado de fora da casa e em troca compramos comida para todos, pois aquela família estava há alguns meses sem receber nada de dinheiro, só sobrevivendo com o que produzia no terreno.

 

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Pavones, Costa Rica, funciona com perfeição. Foto: Roland Roderjan.

Popoyo começou a ser surfada há pouco tempo e ficou famosa por causa de uma laje de pedra que existe no outside e forma uma onda pra lá de cavernosa. Mas essa é só para os profissionais, segundo os próprios locais.

 

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Já no segundo dia em que estávamos lá, entrou o esperado swell rachando tudo e a laje estava bombando, mas sem ninguém para encarar a besta. O surf estava rolando mesmo no beach break na praia deserta perto da laje.

 

As ondas já estavam suficientemente pesadas e o pequeno crowd revezava as séries que vinham perfeitas, alinhadas pelo forte terral que sopra direto aqui no Sul da Nicarágua.

 

Popoyo não pára. Foto: Roland Roderjan.

Fizemos uma cabana de galhos na praia para se proteger do Sol e esperávamos a hora boa da maré para ir até a praia e surfar até dizer chega.

 

Depois de quatro dias, já com o couro todo torrado do Sol e a cabeça inchada de tanta onda, nos despedimos da família que nos recebeu com toda sua humildade, mas nos tratou como reis do jeito que podia, e seguimos nossa viagem pela estrada.

 

Agora acabou a temporada do Pacífico, mas como Netuno é generoso, já deve estar começando a entrar as ondulações do lado do Caribe, e é pra lá que vamos. Estamos indo pro arquipélago de Bocas del Toro, no Panamá. Já demos uma passada por lá antes e conhecemos a galera rasta local, sabemos que lá continuaremos a nos sentir em casa.

 

De dezembro a março, as bancadas de coral do arquipélago funcionam como um expresso, e por ali ficaremos por estes meses. Depois, quem sabe México, e uma volta até o Brasil pela América do Sul está prevista para o ano que vem, chegando a Curitiba, nossa cidade natal.

 

Em quanto tempo faremos tudo isso? Não sei, mas o espanhol rastafari de Pavones com certeza tinha razão, um ano é pouco.

 

Para obter mais informações, visite o site Panamerikah.com .

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