Conheci um espanhol rastafari em Pavones, Costa Rica. Explicando sua viagem, me contava como sobrevivia há mais de um ano na América Central, trabalhando como artesão, e também falava de seus planos de descer pela América do Sul e chegar até o Brasil.
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Viagem longa. ?Um ano é muito pouco para conhecer bem toda a América?, dizia ele. Foi pensando assim que aterrissei na Costa Rica oito meses atrás. Disposto a dar um giro do México até o Chile, atrás das ondas e de experiências que ajudem a entender melhor o mundo em que vivemos.
Realmente, em todo este tempo que já passei aqui conheci muito pouco, comparado com tudo que tem neste mega-continente. Mas, sem muita pressa, fiz da América Central meu lar, e já passei toda uma temporada no Pacífico aproveitando os swells que vinham lá do Sul.
De março a setembro, a América Central recebe ondulações vindas do hemisfério Sul, que antes passam pelo Chile e Peru e depois atingem direto toda a costa do Pacífico até o México. Pela internet, podia ver as manchas laranjadas e vermelhas, marchando direto para onde estava.
A primeira base foi o ?pueblo? de Pavones, no Sul da Costa Rica, onde mais dois amigos do Brasil, Wilber e Tião, se juntaram a mim e assim passamos cinco meses conhecendo detalhadamente a onda de Pavones. Para sobreviver, comecei a trabalhar como fotógrafo de surf no pico.
Pavones é a segunda esquerda mais longa do mundo. Quando quebra em seus dias clássicos fica extra-terrestre, praticamente dando a volta no pequeno povoado de mesmo nome.
Essa onda quebra em três seções distintas, e quando todas conectam com um bom tamanho, pode ter certeza de que será uma das sessões de surf mais clássicas da vida.
Extremamente rápida; em algumas ondas é bom descansar as pernas um pouco no meio da seção para depois poder acelerar até o fim. Dá-lhe gás.
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Atravessando a fronteira com o Panamá, está outro pico de grandes proporções – Santa Catalina. Uma baía recheada de rochas vulcânicas e que não tem exatamente o aspecto de uma praia bonita de natureza exuberante, como Pavones.
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O negócio ali é a onda, que funciona quando uma boa ondulação vem lá do fundo e atinge uma ponta de rochas rasas escondida no meio da baía. Nisso se forma uma direita cavada que começa a funcionar com 1 metro e agüenta ondulações de até 6,5 metros.
Começa com um tubo oco e depois segue abrindo uma parede manobrável por um longo percurso pela baía. Mas é bom ficar ligado, porque as rochas estão ali pertinho, esperando para um encontro marcante.
Fomos a Santa Catalina algumas vezes nesta temporada. Descobrimos um terreno de frente para a onda com umas cabanas abandonadas e passamos algumas noites ali, sem gastar nada e tendo o céu de estrelas como teto. Mas sempre ao acordar tínhamos a visão do pico quebrando perfeito em nossa cara. Não tem preço.
No começo de novembro, demos uma investida até a Nicarágua. Fomos de ônibus em direção à praia de Salinas, onde sabíamos que quebrava uma onda chamada Popoyo.
Apesar das notícias de que a estrada estava debaixo d´agua depois de quarenta dias de chuva, resolvemos encarar para aproveitar um swell generoso que estava previsto para os próximos dias.
Não foi fácil chegar à praia, pulando de ônibus em ônibus e depois caminhando por estradas de terra vazias até encontrar uma boa alma que nos levou até uma casa de uma família para passarmos os próximos dias perto da praia e sem gasta nada.
Dormimos por quatro noites em redes do lado de fora da casa e em troca compramos comida para todos, pois aquela família estava há alguns meses sem receber nada de dinheiro, só sobrevivendo com o que produzia no terreno.
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Popoyo começou a ser surfada há pouco tempo e ficou famosa por causa de uma laje de pedra que existe no outside e forma uma onda pra lá de cavernosa. Mas essa é só para os profissionais, segundo os próprios locais.
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Já no segundo dia em que estávamos lá, entrou o esperado swell rachando tudo e a laje estava bombando, mas sem ninguém para encarar a besta. O surf estava rolando mesmo no beach break na praia deserta perto da laje.
As ondas já estavam suficientemente pesadas e o pequeno crowd revezava as séries que vinham perfeitas, alinhadas pelo forte terral que sopra direto aqui no Sul da Nicarágua.
Fizemos uma cabana de galhos na praia para se proteger do Sol e esperávamos a hora boa da maré para ir até a praia e surfar até dizer chega.
Depois de quatro dias, já com o couro todo torrado do Sol e a cabeça inchada de tanta onda, nos despedimos da família que nos recebeu com toda sua humildade, mas nos tratou como reis do jeito que podia, e seguimos nossa viagem pela estrada.
Agora acabou a temporada do Pacífico, mas como Netuno é generoso, já deve estar começando a entrar as ondulações do lado do Caribe, e é pra lá que vamos. Estamos indo pro arquipélago de Bocas del Toro, no Panamá. Já demos uma passada por lá antes e conhecemos a galera rasta local, sabemos que lá continuaremos a nos sentir em casa.
De dezembro a março, as bancadas de coral do arquipélago funcionam como um expresso, e por ali ficaremos por estes meses. Depois, quem sabe México, e uma volta até o Brasil pela América do Sul está prevista para o ano que vem, chegando a Curitiba, nossa cidade natal.
Em quanto tempo faremos tudo isso? Não sei, mas o espanhol rastafari de Pavones com certeza tinha razão, um ano é pouco.
Para obter mais informações, visite o site Panamerikah.com .





