A história e os macetes do kite surf

Mais um esporte desenvolvido pelos havaianos (como o tow in). Porém, os pioneiros foram os franceses da marca Wipika. Mas o expoente no mercado foi Robbie Nash, visto no final dos anos 80, em Maui, testando os mais diversos tipos e modelos de pipas e pranchas.

 

O designer da Naish, Don Monteguey, foi o inventor dos kites com quatro linhas, o que equivale à invenção das três quilhas por Simon Anderson e toda revolução causada. Os primeiros kites eram todos de duas linhas. Modelos pequenos ainda são usados com duas.

Um dos problemas é o preço salgadíssimo, cerca de US$1,5 a 2 mil por todo o
equipamento: prancha, pipa, barra, linhas e cinto. Hoje contamos com pelo menos 10 novas marcas disputando o mercado, mais destaque para as North Sails, Cabrinha e a pioneira Wipika.

 

O falecido Fernando “Sheena” Lopes foi o pioneiro e maior incentivador na prática do kite entre os surfistas profissionais brasileiros no Hawaii. Ele passou para o lado de lá fazendo o que mais gostava. Voando alto! Quando começou a velejar ficou totalmente viciado e só surfava quando Pipeline, seu pico preferido estava quebrando de gala, de outro jeito ninguém tirava ele e sua pipa da água.

 

Aldemir Calunga, Eraldo, João Mauricio e mais uma galera entraram para a “kitemania” por sua influência. Sempre vinha ao Brasil para um intercâmbio com um dos melhores kiters do Brasil, o catarinense Dudu Shultz e a galera da Barra da Tijuca. Outro detalhe importante: o equipamento é bem complexo. Dificilmente você conseguirá se divertir completamente se não tiver em seu poder pelo menos duas pipas e pranchas diferentes.É praticamente impossível andar em um dia de muito vento com uma pipa que é desenvolvida para ventos fracos, além da pipa se tornar uma arma para um amador.

 

A modalidade é extremamente perigosa, com a possibilidade de acidentes graves. Com certeza vocês já ouviram falar de algum iniciante que foi parar no meio da rua com o kite ou mesmo em cima de uma árvore. O último que presenciei foi na Lagoa da Conceição, onde a pipa do iniciante foi parar em cima dos fios de alta tensão bem na hora em que um ônibus passava, o que acabou arrastando tudo. Faltou luz no bairro por duas horas, uma pipa derretida e um novato com traumas.

 

Há dois anos o big rider Darrick Dorner desistiu de praticar o esporte depois de ficar preso nos corais pelas linhas do kite, em Backyards, Hawaii, e quase morrer afogado. Hoje, com o desenvolvimento do quick release, ou melhor, um sistema de segurança que permite desconectar a pipa do corpo, o esporte se tornou um pouco mais seguro. Eu mesmo fui parar em cima da árvore em minha primeira investida e fiquei praticamente um mês com dores nas costas fazendo acupuntura devido à pancada. É imprescindível o suporte de um profissional nas primeiras tentativas. A modalidade é muito perigosa e um pouco complicada para os iniciantes.

 

No Brasil a surfistada tem sido mordida pelo “bichinho do kite”, termo desenvolvido pelo freesurfer Guilherme Gross – namorado da também adepta e viciada na modalidade Daniela Monteiro, que é vista provando todos os tipos de experiências radicais no Esporte Espetacular, na TV Globo. Mas o que ela mais ama é mesmo o kite. Aldemir Calunga, Eduardo “Rato” Fernandes, Eraldo Gueiros, Teco, Herdy, Carlos Burle, Marcio Okumura, Jorge Pacelli e Marco Merhej são alguns dos surfistas que foram mordidos pela kitemania.
Os locais mais conhecidos para a prática e que têm escolinhas são: Ilhabela, em SP, Lagoa da Conceição e Ibiraquera, em SC, Meio da Barra e Araruama, no RJ. No nordeste o bicho pega em quase todo o litoral, pois o vento sopra forte quase todas as tardes.

 

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EQUIPAMENTOS

Harnets ou cinto: que fica preso em sua cintura; com um gancho te liga ao kite. Tem que estar bem ajustado à cintura e é adequado quando bem apertado (na água este cinto tende a relaxar e com a pressão do vento pode subir barriga acima prejudicando e incomodando).
Barra de controle: onde você direcionará o kite. Ali estão as quatro (ou duas) linhas anexadas e as duas argolas que ficam presas ao seu corpo – o chicken loop* e outra de pressão total. Quanto menor o kite menor será a barra. Os profissionais costumam usar barras pequenas em todos os kites, pois quanto menores, mais ágeis. * gancho que se prende às duas linhas que são presas na bóia principal; serve como regulador de potência, pois a argola principal mantém a pipa com força total e só atletas experientes dispensam seu uso.

 

KITE NAS ONDAS

As quatro linhas têm comprimento básico de 30 metros. Quando o atleta está velejando, ou melhor, surfando as ondas, elas podem ser diminuídas para 20m ou até 15m. Elas perderão potência, mas ganharão maneabilidade. Muito usadas em Maui, local de treino dos melhores praticantes da atualidade. No passado só se usavam duas linhas conectadas à pipa, sendo que hoje um kite com duas linhas só é usado em ventos muito fortes em pipas de tamanho máximo 9. Presenciei sessões de kite nas ondas em Backyards, no Hawaii, de deixar qualquer mortal com água na boca.

 

PRANCHAS

São diversos os modelos, tamanhos, e tendências das pranchas usadas para o kite. As principais tendências vêm dos surfistas, wakeboarders e windsurfistas.
Direcionais: Existem diversos modelos, mas todas têm o outline de pranchas tradicionais com as quilhas maiores na rabeta e, em algumas, quilhas pequenas na frente, proporcionando um surf bidirecional para os mais experientes.
Bidirecionais: Freqüentemente parecidas com o formato dos wakeboards, podendo ser finas ou grossas dependendo da finalidade. O tamanho também varia bastante.
Wakeboards: Muito usadas por profissionais em dias de ventos muito fortes, pois são bem finas e reduzem o atrito.

 

KITEFOIL

Agora a nova moda entre os melhores do mundo é usar o foilboard puxado pelo kite. O primeiro e único brasileiro a usar essa combinação é o curitibano radicado no Hawaii Vitor Marçal. Rush Randle foi o pioneiro em Maui. Vitor trabalha como salva-vidas em Oahu. É viciado em esportes. Todo ano fico perplexo com o tempo que ele passa na água em cima de seu foilboard, velejando, ou os dois ao mesmo tempo. Quando indagado se irá virar um peixe ele comenta: “Já tenho 38 anos e sei que a vida passa rápido e não quero perder nem um segundo dessa saúde”. A questão é que ele manda muito bem na combinação kite-foil, que não é nada fácil.
Obs: As pranchas de foil podem ser encontradas na G Zero (www.gzero.com.br)

 

FALA, CALUNGA

O potiguar Aldemir Calunga é um dos surfistas mais “psicos” pelo novo esporte. Ele foi o primeiro a aparecer em um anúncio nas revistas especializadas de surf voando a bordo de seu kite e domina a modalidade.

 

Quem foi a maior influência?
A TV no Hawaii e o Sheena.

 

Tem um vento irado no Brasil. Você vai surfar ou velejar?
Surfar. Porém, sempre passa pela cabeça que se tivesse no kite também seria show.

 

Quais os melhores lugares para velejar no Brasil?
O Brasil tem vários picos de velejo, meus preferidos são Tabatinga-RN e Flexeiras-CE.

 

Um esporte completa o outro?
Sem dúvida, pois quando paro para velejar por dois dias ou mais volto ao surf com total rip.

 

Qual é a velocidade de vento ideal e que pipa e prancha você usaria?
18-25 knots, kite aero II 8.0, linha de 20m e prancha Naish – mutante 5’0″.

 

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DUDU SHULTZ

O catarinense, local de Florianópolis, Dudu Shultz, é um dos melhores praticantes de kite e windsurf do Brasil. Pelas mãos dele uma galera forte do surf aprendeu os novos truques do kite. Ele tem uma escola em Floripa chamada Wind Center e manda alguns toques aos iniciantes e fala porque deixou o wind de lado depois de começar a praticar kite.

 

Como o kite apareceu na sua vida?
A primeira vez que eu vi um kite na água com uma prancha foi com Manu Bertan, amigo do Robby Seeger, Anders Bringdal e do Roberto Ricci (alguns dos melhores windsurfistas do mundo), que apareceu na Wind Center e testava os primeiros modelos infláveis feitos. Era um horror, o cara só se dava mal, mas já dava umas andadas. Isso há 7 ou 8 anos. Fiquei curioso, mas ele não deixou nem tocar nas pipas dele que furavam a toda hora e usava umas pranchas catamaram  achando que seria o caminho para ir up wind. Fiquei com a pulga atrás da orelha.

 

O wind ficou para segundo plano?
O windsurf ficou só para os dias clássicos para surfar, porque depois que você voa de kite você só pensa nisso.

 

E a surfistada? Tem facilidade em aprender kite?
O surfista tem mais facilidade, é claro, porque o kite é um tow surf, mas muitos surfistas têm o vício de ficar muito agachados.

 

Qual é seu quiver, pranchas e pipas?
Meu quiver tem duas pranchas de tow in – 5.10  e 6.2 – que eu também uso para velejar, e duas bi wake -155 e 135 – para freestyle em água lisa. Pipas Naish modelo X2: 12 e 16 para todas as condições de 10 a 40 knots.

 

Qual você recomenda para um iniciante?
O kitesurf é a nova onda da galera que se amarra em esportes radicais. A surfistada, windsurfistas e wakeboarders descobriram que velejar nas ondas em até 60km/h e voar alto puxado por uma pipa gigante é mais um dos prazeres das águas (e ventos). Eu aconselho sempre procurar uma escola ou uma pessoa capacitada e depois saber qual região do país ou do mundo em que vai velejar, observando qual a variação dos ventos em um ano. O atleta tem que ter uma pipa que puxe bem para poder deslizar na água ao contrário do que as pessoas normalmente fazem, que é comprar um kite pequeno para aprender. Porque depois que você souber controlar este kite, ele não te levará sobre a prancha.

 

EDUARDO FERNANDES

O pernambucano, mais conhecido como “Rato”, foi um dos personagens que se destacaram no programa Surf Adventures, mas hoje sua nova e maior aventura é decolar de kite nas ondas de PE.

 

Quando começou?
Comecei em janeiro de 2002.

 

Você já trabalhou no marketing de uma empresa líder de mercado no nordeste. O que você acha do grande espaço que o kite vem criando dentro da mídia?
Acho que o kite ainda está só começando e é o esporte que mais vai crescer nos próximos anos. Com relação ao espaço dentro do mundo do surf, o kite é o complemento perfeito para os surfistas, pois o surf, na maioria das vezes, só fica bom com vento fraco e de preferência terral, enquanto o kite começa a ficar bom quando o vento já está muito forte para o surf. É um casamento perfeito! Além disso no kite você também surfa e passa muito tempo em cima da prancha, fazendo com que melhore cada vez mais sua base. A mídia, como a maioria dos surfistas, no primeiro contato se mostram um pouco preconceituosos, mas não tem como fugir do que já é realidade. O kite chegou para ficar.

 

Sobre o circuito brasileiro de kite. Quem são os patrocinadores, a premiação, etapas, etc? Você vai participar?
O circuito está para ser confirmado nos próximos dias, parece que serão 4 etapas com premiação mínima de R$ 16 mil e terá como patrocinador empresas de grande porte não ligadas ao seguimento. Estarei nas etapas com certeza. O kite me deu aquela mesma motivação que eu tive no surf quando tinha 17 anos. Voltei a ser garoto de novo. Todo dia você aprende uma coisa nova, essa é a melhor parte.

 

Quais são suas manobras favoritas no kite?
O que eu mais gosto é de velejar nas ondas, de preferência point breaks, e também são muito legais os saltos, os bem altos, claro!

 

Fala a verdade. Em um dia de vento bom e boas ondas o que você escolhe?
Primeiro vou surfar, é lógico. Mas depois, com certeza, vou velejar também.

 

TAMANHO DO KITE    VELOCIDADE DO VENTO

4 – 6                           35 milhas/h
7¹5 – 10                      22-30 m/h
10 – 14                       15-20 m/h
15 – 18                        2-15 m/h
20 – 23                       10 m/h

 

Obs: Os experientes costumam usar kites grandes na maioria das condições,
pois conseguem mais power para vôos cada vez mais altos.

 

ESCOLINHAS

 

WIND CENTER  

Lagoa da Conceição (Sul)
Instrutor: Dudu Shultz. Tel: 48 2322278. www.windcenter.com.br

 

G ZERO / KIB 

Ilhabela (SP)
Instrutor: Guiga. Tel: 12 3896 3068 / (12) 3896 6743 / (12) 9141 3188 ou pelo e-mail: [email protected]www.gzero.com.br (12) 3896 3068

 

NAISH 

Ilhabela (SP)
Instrutor: Isabela. Tel: 12 9767-2033 – www.kitesurfmania.com.br

 

KING / GZERO 

São Vicente (SP)
Instrutor: King. Tel: 11 97056225

 

Agradecimentos: à G Zero pelo suporte, e especialmente a Vitor Marçal pelas
informações e por ter me ensinado a andar de kite.

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