
Em dezembro de 99 eu estava na cidade de Mar del Plata, Argentina, onde acontecia o quarto campeonato Pan-Americano de surf. Não havia muitas ondas, mas durante o free-surf antes da prova, uma garota loira chamava a atenção pelo surf dinâmico e agressivo.
Como estavam todos no mesmo hotel, o relacionamento entre os atletas era bastante estreito, e foi lá que conheci Sofia Mulanovich. A garota era simpática e muito boa gente. Cada dia que passava eu ficava mais impressionado com o que via. Ela tinha 16 anos e surfava melhor que qualquer mulher que eu já tivesse visto em minha vida. No Pan-Americano anterior, no Rio de Janeiro, ela venceu o campeonato com apenas 14 anos.
Tudo indicava que se tratava de uma possível campeã mundial no futuro, e o melhor é que ela falava minha língua. Naquele ano, com forte patrocínio estrangeiro, ela já tinha ido ao Hawaii, Tahiti, Indonésia etc e era um exemplo de que, com apoio econômico, a América do Sul também poderia gerar grandes valores no esporte.
No final do Pan-Americano, Sofia teve que se conformar com um segundo lugar, derrotada pela carioca Andréa Lopes, vice no ano anterior. Seis meses depois, em Porto de Galinhas, a vi novamente e continuava com a mesma disposição de sempre, pronta para ser campeã. À medida em que crescia, notava-se nela mais segurança e maturidade nas manobras.
Estou certo de que naquele momento ela já poderia ter se classificado para o WCT. Mas Sofia foi inteligente e terminou a escola, subindo cada degrau para um futuro profissional sólido. Viajou várias vezes para o Hawaii, Indonésia, Tahiti e outro lugares, além de competir nos Pan-Americanos e Mundiais da ISA (onde terminou em terceiro lugar no ano 2000).

Apesar de competir em algumas etapas do WQS desde 96, somente em 2000 decidiu correr todo o circuito, ficando na 18a posição. Em 2001 perdeu por uma colocação o lugar na primeira divisão, terminando em 11o lugar. No ano seguinte, treinou forte e amadureceu seu surf para garantir o segundo lugar no WQS e, conseqüentemente, uma vaga entre as melhores do mundo. Na metade do ano venceu seu primeiro evento profissional, o Mr Price Pro, na África do Sul.
Em 2003, estreou no WCT de forma quase perfeita. Chegou às semifinais, onde perdeu para a atual campeã mundial Layne Beachley. Aos 19 anos, com bons patrocinadores, apoio da família, atitude e, acima de tudo, talento, Sofia tem tudo para se colocar no mesmo lugar que seu compatriota Felipe Pomar esteve há 38 anos atrás, quando ele venceu o primeiro campeonato mundial de surf, no Peru.
Confira entrevista exclusiva com a atleta, realizada dias antes de começar a temporada 2003 do circuito mundial.
Como foi teu primeiro contato com o mar?
Foi em Manoxre, quando eu tinha 9 anos. Magoo (de la Rosa) nos empurrou em nossa primeira onda, eu e meu irmão Matias. Depois, segui correndo para Punta Hermosa e Máncora com Matias por várias vezes seguidas.
Quando você se deu conta que iria viver do surf?
Falando sério, desde que subi na minha primeira onda tive a certeza que ia fazer tudo que pudesse para fazer aquilo a vida toda e a toda hora. Não sei, é esquisito, mas sempre tive essa sensação.
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Quem te influenciou mais?
Minha família, meus amigos, Magoo e Roberto Meza.
Como você chegou ao WCT?
Consegui mais segurança, mais confiança em minha habilidade, me concentrei em cada série, e também treinei bastante fisicamente. No momento em que finalmente soube que tinha me classificado, me senti nas nuvens, pois consegui algo pelo qual tinha lutado quase a minha vida toda. Foi um sentimento incrível, um dos melhores da minha vida.
O que você gosta mais no surf?
O sentimento de liberdade que ele proporciona, é só você e a onda.
Quais os pontos fortes e fracos do seu surf?
Acredito que preciso treinar melhor a força nas manobras e meu frontside. Por outro lado, gosto do meu surf de backside, acho que é minha melhor arma.
Você ganha muito dinheiro surfando?
Ganho o suficiente para viajar com comodidade. Sei que tenho uma sorte incrível por ser tão jovem e ter tudo o que tenho.
Quais os lados bons e ruins de ser uma surfista profissional?
Acho que o melhor é ter como trabalho tua paixão. O pior é não poder levar toda tua família e teus amigos para viajarem junto contigo.
Você se sente capaz de ser campeã mundial?
Acho que por estar no WCT, todas são capazes de disputar o título mundial. Tudo depende de quem o deseja mais, e pode ter certeza de que eu quero muito que isso aconteça. Este ano eu adoraria ganhar, mas estou tranqüila, já que é meu primeiro ano no tour. Quero pelo menos ficar entre as oito primeiras.

Layne Beachley é a melhor surfista do mundo?
Layne é a competidora mais determinada que eu conheço e ganhou todos seus títulos com disciplina e determinação. Eu acho que ela merece cada um de seus títulos.
Quem foi o melhor surfista peruano da história?
Magoo de la Rosa.
E o melhor surfista latino-americano?
Magoo e Gabriel Villarán.
Quem você destaca na atualidade?
Magoo, Gabriel e meu irmão Matias.
Como você descreve o Peru?
Ainda não está muito crowd e as ondas são boas. Porém, não temos muito apoio e há muito talento desperdiçado.
Quando e onde você pegou as maiores ondas de sua vida?
Sunset, há dois anos.
Qual é teu sonho?
Ser campeã mundial e levar todos meus amigos numa viagem para as Mentawaiis.
O que você gostaria que informasse tua biografia em 2099?
Que sempre fui uma pessoa feliz.
Ficha técnica
Apelido: Sofi
Local de nascimento: Lima, Peru
Onde mora: Lima, Peru
Posicionamento: regular
Patrocinadores: Roxy, Reef, Channel Island Surfboards, Creatures of Leisure, Velvet, Ripley, Nixon
Shaper: Al Merrick
Quiver: 5’7″, 5’9″, 6’0″, 6’2″, 6’5″
Treinamento: corrida e surfe
Onda favorita: esquerdas tubulares
Manobras favoritas: qualquer uma com força
Surfistas que admira: Kalani Robb, Mick Fanning, Lisa Andersen, Megan Abubo e Chelsea Georgeson
Outros interesses: música e amigos