
O surf, ao contrário de outros esportes, tem a capacidade de gerar lendas fora do âmbito profissional como nenhuma outra atividade atlética.
Existem muito mais surfistas respeitados e admirados no meio do que os 45 do WCT e os 200 primeiros do WQS. Cada um dos picos deste imenso planeta tem esse alguém que se destaca, que viajou pelo mundo todo, que dedicou sua vida ao surf.
Quando estava dando meus primeiros passos em cima de uma prancha, no balneário de “El Bosque”, em Solymar – à beira do Rio da Prata – , havia mais alguém na mesma situação, e que depois seria um companheiro das sessões nas ondas mexidas em nosso pico local.
Leonardo Antunez, “O Canijo”, era fissurado que nem eu e passávamos o dia inteiro nas pequenas merrecas. Essa rotina se repetiu até que crescemos. Eu me comprometi com os estudos e outros trabalhos, reduzindo minha quantidade de sessions semanais e teve um dia que escutei falar que Canijo tinha se mudado para La Paloma, uma das mecas do surfe uruguaio, abandonando tudo para viver do esporte.

Ele começou em pleno inverno uruguaio – que é muito frio, eu garanto – em uma carpa. Trabalhou em muitos lugares, mas o que mais fez foi surfar quase sozinho os picos de Rocha, agüentando as babaquices dos locais que fizeram de tudo para que o cara fosse embora. Ele foi, mas obviamente não foi por causa dos locais.
Depois de juntar um pouco de grana, decidiu ir para o Peru, de ônibus, onde pela primeira vez sentiu o sabor do Pacífico e surfou algumas ondas verdadeiramente boas. Ao retornar ao seu país, não tinha intenção de ficar.
No verão de 2000/01, com alguns amigos, investiu em um barzinho na praia La Balconada de La Paloma, onde arranjou o dinheiro para sua passagem. Meses depois, estava surfando e arrumando jardins na ilha verde do Kauai, no Hawaii. Conseguiu uma linda cabana e passou a surfar ao lado dos irmãos Irons e Sunny Garcia.
Após alguns meses, economizou dinheiro suficiente para matar o verão do hemisfério Norte nas ilhas da Indonésia. Passou pelos tubos de Padang, de Bingin e de um dia alucinante em G Land. Ao voltar ao Hawaii, seu primeiro inverno caiu em cima e sua disposição lhe permitiu surfar as ondas alucinantes do North Shore de Oahu e Pipeline ficou grande um dia.

“Fiquei sentado olhando as ondas e duvidava de minha capacidade para surfar aquelas massas. Passou um amigo israelense que tinha estado comigo no Kauai, eu lhe contei e ele me disse: ‘You can’. É bastante fácil entrar em Pipe e um minuto depois eu estava sentado no inside, quando uma das grandes se aproximou. Sobrou sozinha para mim e não duvidei em botar pra baixo, a onda foi perfeita, um tubo enorme e pela primeira vez uma câmera apareceu em meu caminho”.
Acabou o inverno e Canijo partiu para mais uma viagem, desta vez para as pesadas ondas de Teahupoo, onde pegou mais e mais tubos. Também conheceu as outras pérolas taitianas e percorreu as ilhas por mais de um mês.
Voltou ao Hawaii e continuou trabalhando e surfando, e vice-versa. Ficou por mais dois invernos e aproveitou ao máximo. Além do mais, conta Canijo: “Morar em um país gringo tem seus contras”. Daniel, um amigo de La Paloma lhe fez um convite para percorrer o Caribe em seu veleiro. O uruguaio somou-se a outra aventura.

“Essa viagem foi mais uma experiência de sobrevivência e aprendizagem sobre mim mesmo que outra coisa. Passei o tempo todo enjoado e pensando muito no que tinha vivido, até que chegou um dia que não agüentei mais. Estávamos cruzando o Caribe desde a Península de Yucatán até Porto Rico, as correntes estavam muito fortes e nos derivavam para o continente. As mesmas não nos deixaram cruzar e ancoramos em um porto de Honduras. Eu estava na miséria em todos os sentidos. Precisei de três dias para recuperar o sono e outros dois para curar as feridas. Me despedi de Daniel e saí em direção a El Salvador”.
Leonardo esteve um mês e meio surfando as ondas alucinantes de La Libertad até que uns amigos que iam para a Califórnia o convidaram para ir junto. Na Guatemala, antes de cruzar a fronteira com o México, teve todos seus documentos roubados. Fez-se de gringo e passou por todos os controles migratórios. Abandonou a carona na metade do caminho, bem perto de Puerto Escondido, onde vários de seus amigos uruguaios o estavam esperando.
Em Puerto arranjou trabalho consertando pranchas partidas – que todos sabemos, são muitas – e lá ficou por seis meses pegando tubos e mais tubos. Depois de quatro anos na estrada, este ano Canijo decidiu voltar à sua pátria e surfar suas queridas ondas uruguaias, sem dúvida, muito melhor que antes, pois o cara esta arrepiando.
Dois meses foram suficientes para que a vontade de viajar voltasse, e assim partiu uma vez mais, para Puerto Escondido, e aí está, dentro de um tubo. O cara nasceu em uma família humilde, começou a surfar em um rio e deixou tudo pelo amor ao nosso querido surf. Esteve pelas ondas do mundo todo e viveu seu sonho porque foi atrás dele.