A dinâmica mental de uma interferência

A longboarder catarinense Tania Candemil faz uma análise, do que passou pela sua cabeça após cometer uma interferência na quinta etapa do circuito catarinense realizada na Praia do Rosa nos dias 23 e 24 de agosto de 2004.

 

Vale a pena conferir abaixo seu depoimento, pois retrata muito bem as emoções de um surfista em interferência.

 

Bateria final de 20 minutos. Logo no primeiro minuto estou colocada no outside e vem uma boa esquerda. É a primeira onda da bateria. Ao me virar para remar percebo uma concorrente colocada mais em baixo e penso: ?Fico em pé bem antes de ela remar e a onda é minha?. Dito e feito. Remei e subi consciente do que fazia. Dropei, fiz a parede e mais embaixo percebi que ela também havia remado e entrado para a esquerda, quase encostando a prancha na minha. Saí da onda. Até agora não sei se não foi este o meu maior erro, maior até do que ter remado na onda, pois ao sair da onda caracterizei estar consciente de que a atrapalhava. Ainda assim pensei esta situação ser isenta de punição pelo fato de eu ter ?chamado? a onda, por assim dizer, pois me levantei antes de ela começar a remar.

Mas fui punida. Primeiro pelos juízes (agora, reconheço, com razão), e em seguida por minha própria cabeça. Quem não surfa e principalmente quem não compete não entende o que se passa na cabeça de um atleta nestas horas. O processo mental é o seguinte: A primeira reação é culpar os juízes de estarem cometendo uma injustiça. Em seguida o alvo é o(a) atleta envolvido(a) por ter agido de “má fé” e, por último, culpa-se a si mesmo(a) pela burrada que fez e por se sentir derrotado(a) perante todos.

Acontece que não temos o direito de culpar os juízes por aplicarem a regra friamente. É o seu trabalho. Tampouco temos o direito de culpar o(a) adversário(a) pois talvez na mesma situação faríamos a mesma coisa. Por que não? É ingênuo pensar que, por amizade, arregaríamos uma onda a quem quer que seja numa bateria decisiva. Sinto muito, I?m sorry, Desolée. Qualquer um que compete a sério faria a mesma coisa. Minha concorrente estava certa ao ir na onda. Eu mesma teria ido.

Na verdade ninguém é culpado, desde que saibamos aceitar estes incidentes. Tem-se que separar o lado pessoal do lado competitivo e aí não há ingenuidade. Vence a astúcia, nem que isto signifique deixar acontecer uma interferência (sim, por que na verdade quem “forçou” a interferência fui eu ao remar na onda, ainda que primeiro. Ela simplesmente deixou acontecer). O difícil é aceitar tudo isso e perdoar a si mesmo. E nunca dizer que vai desistir por que só quem desiste não passa por isso.

 

Foto: Herbert Passos Neto.

Horas antes de minha bateria tinha experimentado uma emoção muito forte a ver o filho de uma grande amiga que já partiu para a outra dimensão sagrar-se campeão de sua categoria justo no dia de seu aniversário de 13 anos. Foi muito bonito como sua atual família o acolheu com festa e o levantou nos braços cantando parabéns como um verdadeiro campeão. Fiquei imaginando seus pais (ambos já se foram) lá no céu aplaudindo junto. Fiquei imaginando como aquilo faria bem à auto estima daquele adolescente. Chorei.

Com o emocional já a flor da pele, chorei bastante após o incidente. Só depois comecei a re-pensar em quantas coisas importantes também aconteceram naquele dia, quantas vitórias de amigos e quantas emoções bonitas.

É preciso aceitar as vitórias e as derrotas, isentar de culpa os outros e nós mesmos e continuar acreditando em nosso próprio potencial, por que só esta atitude atrairá as verdadeiras vitórias. Dentro e fora d?água.

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)

Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.