Criado em Porto Alegre (RS), o free surfer aventureiro Fabiano Tissot viaja sempre em busca das melhores ondas do planeta.
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Ele esteve ao lado do desbravador Zeca Scheffer em uma participação importante para o surf brasileiro, no que diz respeito à introdução do tow-in na Ilha dos Lobos (RS) e na Laje da Jagua (SC).
Em entrevista exclusiva ao Waves.Terra, Tissot fala sobre como foi essa parceria e a dor da perda do seu grande amigo, além de esclarecer questões ambientais relacionadas ao tow-in, contar sobre o seu desenvolvimento no surf e o livro que está preparando.
Conte um pouco sobre como nasceu seu interesse por esse tipo de
onda.
Me criei em Porto Alegre (RS). O típico surfista de final de semana, que morava longe da praia e vivia sonhando com as ondas. Quando eu estava com uns 18 anos, em 1999, passei um mês de férias no Peru e decidi ir a Pico Alto na companhia do Luisfer, local de Punta Hermosa.
Usei uma 9″8′ pela primeira vez na vida e por sorte consegui descer algumas. Acho que depois disso ganhei um pouco de confiança e gosto por ondas maiorzinhas.
E o Tow-in, como você iniciou neste esporte?
Iniciei em 2002. Eu estava no outside da Silveira e reconheci o Zeca Scheffer dentro d´água. Nunca havia falado com ele, mas sabia quem ele era e que tinha ganho um prêmio pela maior onda surfada no ano anterior com uma bomba na Ilha dos Lobos.
Puxei assunto sobre o pico e combinamos de ir lá na remada algum dia. Por sorte o Zeca havia armaria um curso de tow-in em Torres com Rodrigo Resende e João Capilé semanas mais tarde. Depois das lições básicas, decidimos ir adiante e montar a primeira equipe do Rio Grande do Sul, batizada de Storm Surf Team.
E como foram as sessões na Ilha dos Lobos?
Foram emocionantes. Ter o Resende por perto também foi muito bom, ele possui muita experiência e nos ensinou muita coisa. Passou muita calma e tranqüilidade e além de tudo é medico. Nossa primeira ida foi inesquecível, estavamos Zeca, Rodrigo e eu com um jet apenas e as ondas estavam enormes. Foi o maior mar que já vi por lá e cada vez que o Zeca ia ser rebocado as séries dobravam de tamanho, foi pura magia.
Você teve certo destaque na Ilha dos Lobos, a que você atribui isso ?
Eu realmente era um garoto na época, com 23 anos de idade e pouca experiência. Acredito que ter o Zeca como dupla foi essencial para tudo dar certo pra mim. Ele conhecia a onda melhor que qualquer um e era quase um auto-didata na pilotagem, tinha um feeling incrível e devo minha sorte ao talento dele.
E a proibição do surf na Ilha dos Lobos?
Infelizmente meses depois, na quarta e última sessão, a coisa acabou virando bagunça com muitos jet-skis e pouco respeito. Penso que no fim a proibição do tow-in foi merecida para quase todos que estiveram por lá, mas não para o Zeca, que sempre tentou fazer a coisa certa. Sinto por ele, por ele não ter podido surfar mais no seu pico, ele realmente amava aquele lugar e queria o melhor pra Torres.
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E a liberação?
Acredito que a liberação é algo perfeitamente possível e compatível com a preservação do lugar, mas é um processo burocrático complicado. Me formei em Direito com especialização na área ambiental e meu trabalho de conclusão foi sobre o tow-in como aliado da preservação da Ilha dos Lobos, que inclusive está protocolado junto ao Ibama.
Acredito que pelo menos um campeonato anual revertendo verbas para o meio ambiente e com uso de jets ecológicos seria absolutamente compatível com a proteção do local. O Ibama poderia dispor de recursos diretos para ter melhores condições de cuidar do ecossistema da Ilha, a cidade sairia ganhando com o turismo, o esporte nacional de uma forma geral ganharia visibilidade e seria uma
maneira muito bonita de homenagear o Zeca, algo como o Eddie Aikau no Hawai. Inclusive o evento poderia se chamar Zeca Would Tow.
O que já foi feito de efetivo para liberar o tow-in por lá?
Em primeiro lugar vale ressaltar que os dias gigantes são raros de acontecerem – como em qualquer pico do mundo, e nessas condições a onda realmente justifica o uso de jet-skis. O Zeca fundou a AGT (Associação Gaúcha de Tow-in) em 2003, justamente para ter uma representatividade do esporte no estado.
Sou o atual presidente da entidade e não é facil dar continuidade ao trabalho dele, que era um cara extremamente competente e tinha um ritmo apuradissimo. Infelizmente não tenho passado muito tempo no Brasil nos últimos anos para cuidar melhor desse assunto.
Fico dividido entre querer estar lá e viajar para lugares de ondas grandes para ganhar experiência e poder encarar a pressão que é a possibilidade de voltar a surfar na Ilha dos Lobos um dia e levar o nome da equipe que o Zeca criou à altura do surfista que ele foi.
Não posso deixar de tentar meu melhor. O Zeca deixou um vasto trabalho em prol da liberação ordenada do tow-in por lá. Desde ter auxiliado na recategorização da Reserva para Refúgio da Vida Silvestre até o Estudo de Impacto Ambiental realizado pelo oceanógrafo João André de Mendonça Furtado em parceria com a UNIVALI de Itajaí (SC), comprovando que o uso ordenado de jet-skis pode ser perfeitamente compatível com o bem estar dos animais.
Hoje em dia o Cesar Kruger, vice-presidente da AGT e ex-presidente da AST (Associação dos Surfistas de Torres) é a base de união dos locais e o maior representante dos surfistas frente as autoridades no que diz respeito a este assunto.
Fale um pouco sobre a onda de lá.
A Ilha dos Lobos é uma onda de difícil acesso, a dois quilômetors da beira, com uma forte arrebentação na praia a ser varada logo de início e cercada por inúmeras correntes. A bancada de pedras é extremamente rasa, cheia de buracos, fendas e mariscos enormes apontados para cima como lâminas de facas.
Ela quebra abaixo do nivel do mar e das pedras postadas em frente ao pico. É uma onda perigosa, traiçoeira, cheia de armadilhas e não possui uma leitura previsível que facilite o posicionamento do surfista. Ela varia conforme bem entende, quebrando ora mais para dentro, ora mais para fora, ou sabe-se lá como.
E a Laje da Jagua?
Essa era a segunda paixão do Zeca. Felizmente ele teve o Resende por perto novamente para desbravar o pico pela primeira vez. Foi uma loucura que eles fizeram, saíram sem saber ao certo onde ficava a localização da onda, com o sol já se pondo atrás da serra.
Para você ter uma idéia a onda fica a seis quilômetros da beira, uma montanha submersa. Voltaram de noite, auxiliados pelos faróis do carro que piscavam na praia e chegaram dizendo que ela era a direita da Ilha dos Lobos.
Em 2006 o Zeca e o Jaca (local da Jagua) organizaram o primeiro campeonato brasileiro de tow-in por lá, com patrocínio da Mormaii. Meses antes do Zeca falecer no acidente da BR-101. É uma onda com muito potencial e pouco explorada pelos surfistas brasileiros, mas com certeza ainda vai dar muito o que falar.
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O Zeca deixou um espaço em branco no tow-in nacional. Como foi para você perder seu amigo de forma tão trágica?
Para mim e para todos que conviviam com ele foi bem traumatizante e acredito que continua sendo muito difícil, ele faz muita falta mesmo. Em um ano de tow-in o Zeca apresentou para o Brasil suas duas maiores ondas, ambas em lajes off-shore.
Em um país famoso por seus beach breaks isso realmente é algo que deve ser valorizado. Sua morte foi uma perda irreparável para os familiares e amigos, mas nao só, para o surf gaúcho e para Torres também. Particularmente eu tinha o Zeca como um irmão mais velho que olhava sempre por mim, dentro e fora d´água.
Aprendi muita coisa com ele e lhe devo todo meu respeito e
admiração, foi o cara mais brilhante que já conheci. Desbravador, empreendedor e um grande ser humano acima de tudo. É muita responsabilidade ter herdado o trabalho que ele vinha realizando em prol do tow-in gaucho e impossível conseguir manter o mesmo ritmo que ele tinha, mas dentro das minhas limitações estou tentando chegar lá.
Qual foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça quando se deu conta que ele nao estava mais aqui?
Não desistir, ir em frente, dar um jeito de chegar em Teahupoo e surfar as maiores ondas que conseguisse, pra um dia poder voltar pra Ilha dos Lobos e representar o nome da nossa equipe à altura. Uma forma de homenageá-lo e mostrar que nosso sonho continua vivo, que estamos juntos nessa batalha. Da maneira que for.
Conte sobre o livro que você esta escrevendo.
O nome do livro é “O Amigo da Tempestade ? Zeca Scheffer, O Nascimento do Tow-in Gaúcho e As Maiores Ondas do Brasil”. Tive essa idéia como uma forma de ajudar a manter viva sua memória, de contar um pouco da sua batalha e história de vida.
Ele sempre quis escrever um livro e já tinhamos conversado sobre isso antes. Espero fazer um trabalho a altura dos seus feitos, com certeza será uma responsabilidade muito grande, uma tarefa muito dificil. Tenho em mente criar um website como complemento da obra, o qual os familiares e amigos possam contar as histórias do Zeca também.
Ele tinha uma enorme quantidade de bons amigos e ótimas histórias, sem eles o trabalho não estaria completo e desde já estão todos convidados a participar.
Você tambem possui um site no qual escreve sobre algumas de suas viagens ao redor do mundo, fale um pouco sobre isso.
Depois que me formei em 2005 resolvi viajar ao exterior para trabalhar e tentar surfar ondas melhores, ou senão sabia que seria tarde demais e passaria o resto da minha vida em Porto Alegre.
Parti para o Oeste da Austrália um mês antes de perdermos o Zeca. Demorei um ano pra retornar e me dar conta do que realmente havia acontecido. O blog foi feito antes disso, já com o intuito de manter os amigos e familiares por perto e o exercício da escrita em dia. O nome é Diário de Viagens.
E quais foram até agora?
Oeste da Austrália, Indonésia, Chile, Tahiti e Ilha de Páscoa.
E as suas ondas preferidas entre todos esses picos?
Gostei de muitas, mas pra citar duas apenas: Teahupoo e El Gringo. Por serem bem tubulares e de certa forma lembrarem a Ilha dos Lobos.
E os planos para a próxima?
Espero estar de volta na temporada do Tahiti em 2009 e surfar as maiores ondas que puder por aqui. Estou há quatro meses na ilha e peguei alguns dos melhores tubos da minha vida, mas não dei a sorte de presenciar uma sessão de tow-in ainda. Já recebi convites dos locais, fiz bons amigos e sei que se não tiver a chance de tentar dessa vez será na próxima.
Quem são seus ídolos no esporte?
Zeca Scheffer, Rodrigo Resende e Malik Joyeux.
E o Stand-up paddle surf?
Adorei e entendo perfeitamente porque todo mundo está aderindo. Tenho apoio da Art in Surf no Brasil e espero encontrar um bom swell pra dropar umas boas em breve.
Quais são seus patrocinadores no momento?
Não tenho patrocínio.
Para finalizar, deixe uma mensagem para o internauta e seu endereço para contatos.
Pode parecer uma frase batida mas é verdadeira. Acredite nos seus sonhos e corra atrás para realizá-los, mais vale morrer tentando que deixar a vida passar em branco.
Conseguimos sentir quando estamos no caminho certo, mesmo que não sejamos perfeitos em tudo que fazemos. O que vale é a nossa busca, a sensação de encarar a luta de cabeça erguida e consciência limpa. Acredito que isso é o que conta ao final de tudo.





