Jean da Silva

Momentos marcantes

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Jean da Silva. Foto: Arquivo pessoal.

 

Por anos, Jean da Silva foi apontado como sério candidato a uma vaga na elite mundial.

Nascido em Joinville e revelado nas ondas de Balneário Barra do Sul, o catarinense sempre reuniu diversas qualidades importantes para um surfista de alto nível.

Inteligente, poliglota, carismático e dono de um surf muito fluido e polido, Jean possui um currículo de respeito. Conquistou três títulos nas categorias de base do Circuito Brasileiro – Iniciante (1999), Mirim (2001) e Open (2002); venceu três etapas do WQS – Fernando de Noronha (2006), Portugal (2008) e Virginia Beach (2012); foi terceiro no Mundial Pro Junior em 2006 e, no mesmo ano, faturou o título catarinense profissional.

No ano de 2010, Jean tornou-se o primeiro surfista de Santa Catarina a erguer a taça de campeão brasileiro profissional. Este ano, além de subir ao topo do pódio em Virginia (EUA), foi coroado campeão sul-americano da ASP.

Porém, alguns problemas atrapalharam seu desempenho e sua caminhada rumo ao World Tour, circuito mais cobiçado pelos competidores.

Hoje, aos 27 anos, ele ainda tenta a classificação. O nível da divisão de acesso está cada vez mais forte e renovado, mas o sonho de Jean continua firme e forte.

No momento, ele está na lista dos 10 surfistas que garantem vaga na elite mundial em 2013. “Hoje estou muito mais preparado em todos os sentidos. Sei que a hora vai chegar. Estou muito dedicado, com esperanças e muitas chances!”, garante o atleta.

Nesta entrevista, ele relembra os momentos mais marcantes da carreira e fala sobre as pedras que surgiram em seu caminho.

Jean pensou em abandonar a carreira devido aos desgastes nas viagens para competir, sofreu uma contusão no quadril e ficou traumatizado ao ser assaltado em sua própria residência depois de vencer o Hang Loose Pro Contest em Fernando Noronha. “Nasci de novo!”, diz Jean, que levou uma coronhada, uma facada e foi ameaçado de morte com a arma apontada para a sua testa.

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Jean da Silva na Cacimba do Padre, em Fernando de Noronha. Foto: Daniel Smorigo / WSL South America.

 
Como o surf entrou em sua vida?

Meu pai, Sidnei da Silva, pegava onda quando era mais novo e sempre frequentávamos o Balneário Barra do Sul nas férias. Sempre gostei de ficar na água; nadava três vezes por semana e gostava muito de ficar brincando no mar com meu irmão (Maycon), com uma prancha de bodyboard que ganhamos. 

Em pouco tempo começamos a ficar de pé, buscando fazer qualquer coisa diferente de estar deitado nela. Foi quando ganhei minha primeira prancha de surf de verdade, isso porque já havíamos quebrado algumas pranchas de body nessas tentativas! Foi bem no meu aniversario de 7 anos (6/2/92) e dada pelo meu pai. Ele disse que eu poderia tomar como uma atividade saudável para o resto da vida e não ficar na areia da praia fazendo castelinhos de areia ou, pior ainda, depois de velho estar fazendo castelinho de latinhas de cerveja. Foi uma forma carinhosa de me orientar a praticar um esporte saudável, ocupando a mente com algo que valesse a pena, e até mesmo ter um futuro nisso! 

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Jean no pódio do Pro Junior em 2002, na Ilha do Mel (PR). Foto: Ricardo Macario.

Bom, a prancha era zerada e era uma 5’9 Oceano, laminada pelo então shaper Afonso Egert, hoje empresário de surfwear. Essa prancha já tinha uma história antes mesmo de eu ter estreado: era uma prancha nova a partir de uma prancha velha! (risos), provavelmente uma 6’6 que virou 5’9. Ela não tinha envergadura alguma, era uma tábua de passar. Era difícil não imbicá-la na água!!

De qualquer maneira, era verão e eu não saía mais da água. Foi quando começamos a fazer várias amizades no mar. Foi aí que conheci Balú e, aos 13 anos, meu velho amigo me convidou para competir em um evento local em Barra do Sul, só por brincadeira. Competi na categoria Estreante (naquela época não havia categoria Grommet ou Infantil). Daí, competia com vários atletas de diferentes idades e tamanhos. Fiquei em segundo lugar. Foram três etapas; venci as duas últimas etapas e fui campeão da Estreante.

Paralelamente, eu também competia nos eventos de natação e treinava três vezes por semana com meu irmão. Certo dia, meu treinador falou pra mim que eu teria que treinar aos sábados também. Virei para o meu pai e disse que não queria mais nadar (risos). Não iria perder o fim de semana de surf por causa do treino de natação!

Meus pais me apoiaram desde sempre na minha carreira. Lembro certinho dos mínimos detalhes quando meu pai ia me buscar no colégio em Joinville, com um prato de comida no banco da frente que minha mãe tinha preparado para eu comer rapidinho no caminho até o ponto de ônibus para a Barra.

Treinava a tarde toda sozinho e no final de tarde eu voltava a Joinville para estudar e fazer curso de inglês. Foi uma das épocas mais maneiras. Tinha aquela aventura de pegar o ônibus por duas horas sem saber como o mar estava, chegar à praia e não ter ninguém surfando no mar! Era muito bom!

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Comemorando o título catarinense profissional, em 2005. Foto: Ricardo Macuco.

Você foi campeão brasileiro amador em três categorias (Open, Mirim e Iniciante) e já representou o Brasil nos eventos da ISA. Qual a importância desses eventos em sua carreira?

Todos os eventos dos quais participei na minha carreira foram muito importantes, sejam eles locais ou nacionais, porque sempre adorei competir. Tenho sangue de competidor, pratiquei muitos esportes antes de entrar no surf profissionalmente, e em todos eu almejava vencer. Mas, com certeza, os títulos de campeão brasileiro em quase todas as categorias de base me deram um nome de peso nos circuitos em que eu iria disputar e, principalmente, para fechar um bom patrocínio. Competi apenas uma vez no ISA, na África do Sul, e fiquei em 13o. lugar. Foi uma experiência muito boa, mas gostaria de ter competido em mais eventos como esse, porque existe uma união muito boa entre os países.

E o título brasileiro profissional? Como enxerga essa conquista??

Esse título ficou marcado para mim, para a história do surf brasileiro e catarinense. Fui o primeiro catarinense a ser campeão brasileiro e me orgulho muito disso porque foi um circuito muito dificil. Grandes nomes do surf fizeram parte desse seleto grupo nacional , como Neco Padaratz, Fábio Gouveia, entre outros, e consegui ter uma consistência para alcançar meu objetivo. Quando viajava para os eventos do QS, meus amigos de outros países sempre perguntavam sobre o nosso circuito, porque sabiam do nível devido à quantidade de surfistas brasileiros com enorme talento, mas sem patrocínio, que dão a vida pelo surf. Tentei por alguns anos, mas nunca tive bons resultados, e 2012 foi o ano em que tive uma regularidade muito boa.  Quando eles souberam que venci, ficaram muito felizes por mim.

Como avalia o atual momento das competições profissionais no Brasil?

As competições no Brasil estão fraquíssimas! Tínhamos circuitos estaduais em todos os cantos, circuito brasileiro com ótimas premiações e mais algumas etapas do WQS passando por alguns estados do Brasil, dando oportunidade para todos os competidores mostrarem seu trabalho. Já passaram-se muitos anos e o circuito estadual continua com o mesmo valor de premiação. Patrocínio existe, mas seguram os valores das premiações. Não acho correto porque o esporte dá muito retorno para todas as partes e nós, que fazemos o show acontecer, continuamos na mesma! As marcas que patrocinam os eventos deveriam exigir que as premiações sejam maiores para dar mais status e prestígio ao evento. Entre um voo e outro, li uma reportagem na revista de uma companhia aérea brasileira e me chamou muita atenção a questão de o mercado brasileiro ser a maior potência em vendas no mundo inteiro. Se não me falha a memória, gira em torno de 12 bilhões anuais. Como podemos estar sem eventos de surf em nosso país? Em 2012, estamos sem um circuito brasileiro por falta de patrocínio e o número de eventos do WQS caiu absurdamente. Lamentável!

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Em 2010, Jean tornou-se o primeiro catarinense a conquistar o título nacional da ABRASP. Foto: Pedro Monteiro.

 
Você sempre foi visto como um atleta muito exemplar, mas teve uma fase sem resultados há alguns anos. O que aconteceu?

Sempre fui e sempre serei visto como um atleta exemplar enquanto estiver nas competições, porque o esporte faz parte de mim. Passei por uma fase difícil em minha vida. Fui assaltado por conta de um evento que venci. Fiquei traumatizado com isso. Lutei muito para conseguir minhas coisas, sempre fui muito focado e dedicado, e depois disso eu não queria mais vencer eventos, com medo de que isso viesse a acontecer novamente. Veio o Jean que as pessoas nunca viam sair à noite e se espantavam com minha presença em baladas, mas eu não via nada de mais naquilo porque eu sabia o que estava fazendo! Uma pena que muitas pessoas olharam isso de uma maneira errada, acabaram apontando dedos e julgando como elas bem entendiam. O bacana foi que isso não durou muito. Botei a cabeça no lugar e segui no meu foco.   

Como foi esse assalto?
    
Isso aconteceu em 2006, depois que venci o Hang Loose Pro Contest em Fernando de Noronha. Publicaram muitas reportagens em revistas, websites e jornais sobre meu feito. Só que, em uma dessas publicações em jornais, saiu uma nota dizendo que ganhei a premiação equivalente a 200 mil reais, valor total distribuído entre os 96 atletas naquela época. Depois de um ou dois meses, em uma noite tranquila, duas pessoas entraram em minha casa armadas, perguntando sobre o dinheiro. No momento eu não entendi nada porque não podia acreditar que aquilo era um assalto! Levei uma coronhada na cara, fiquei amarrado por muito tempo e sempre sendo intimado pela premiação. Depois de um tempo falando que o único dinheiro que eu tinha comigo estava em minha carteira, eles falaram que iriam cortar meus dedos, e eu dizendo que eles iriam me matar e não achariam nada porque realmente não tinha nada comigo. Quando eles viram que não iriam chegar a lugar algum, um dos assaltantes falou para me apagar! Colocou a arma na minha testa e falou “apaga”. Fechei meus olhos e achei que era o fim. Nada aconteceu! Mais uma vez eles confirmaram que não chegariam a lugar algum com aquilo. Enquanto um ladrão apontava a arma para mim, o outro pegava tudo o que eu tinha no meu armário, como roupas e relógios do meu patrocinador. Mais uma vez ele veio para cima de mim e disse “apaga ele!”. Aí, eu já não tinha mais esperanças; olhei para a arma apontada na minha cara e estava pronto para morrer, já que não tinha o que fazer a não ser esperar para ver como era do outro lado dessa vida.  No final, para saírem com algumas roupas e um computador que eu tinha, me deram uma facada nas costas, muito perto do pulmão, e por sorte eu não morri, pelo corte não ter sido tão profundo. Foi uma das experiências mais pesadas da minha vida. Passei quase um ano tentando absorver isso e acabei não conseguindo competir direito. Mas, graças a Deus, isso passou e tudo ficou para trás! Deparar-se com a morte em uma situação dessas foi algo que me renovou. Nasci de novo!

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Jean da Silva brinca com Gabe Kling depois de faturar um QS no Guincho, Portugal. Foto: Arquivo pessoal Jean.

Chegou a pensar em abandonar o surf alguma vez na carreira?

Já pensei em abandonar as competições em um ano. Estava competindo muito e surfando pouco. O surfar pouco quer dizer viajar pouco para lugares com ondas boas e viver o real espírito do surf. Cheguei ao ponto de me sentir sufocado de tantos campeonatos e viagens desgastantes, dormindo mal, passando por inúmeras roubadas, surfando com pranchas emprestadas porque entre as conexões elas se perdiam no caminho. Enfim, muita coisa que não estava curtindo. Quando fiz uma viagem para a Indonésia com meus amigos Marco Giorgi, Loic Wirth, Icaro Ronchi e Cicero Ronchi, minha visão mudou em relação a tudo. Meu surf evoluiu e acabei competindo muito mais feliz. Uma das coisas que também me incomodava acho que era a questão da cobrança. Eu me cobrava muito em todas as etapas, sempre queria vencer e não admitia a derrota. O engraçado era que as pessoas mais próximas me diziam “Poxa, olha para o Jean, ele perde e não sai da bateria socando a prancha ou indignado!”. Mas, a verdade era que eu ficava muito bravo, só que eu refletia sobre meus erros em particular e não aparentava isso para o povo. Até em eventos que vencia, eu mal comemorava porque achava que o trabalho foi concluído da maneira que eu tinha almejado, e algumas pessoas achavam que eu não parecia estar contente (risos) e me falavam para comemorar porque gostavam de ver a cara de “vencedor feliz” (risos).

Você se arrepende de alguma coisa que fez?

Não me arrependo de nada porque sempre tive uma vida normal! Eu me arrependo de não ter viajado mais para pegar ondas perfeitas (risos).

Como foi aquela contusão no quadril, em 2008?

Essa contusão foi bem pesada para mim. Fiquei quatro meses parado, sem fazer nenhum exercício físico. Comecei a ficar preocupado todas as vezes que eu ia a algum médico e o doutor falava que eu precisava operar o quadril porque tinha a mesma lesão que Gustavo Kuerten. Teve um médico que chegou a falar que eu iria sentir dor pelo resto da vida. Comecei a achar que não tinha mais saída, chorei muitas vezes. achando que não poderia mais surfar.  Sentia tanta dor no quadril que tive que ser internado para amenizarem com morfina. Minha família sempre esteve ao meu lado, botando fé que isso iria passar logo. Em uma certa tarde, estava andando no shopping em Joinville e encontrei meu amigo Davi de Jesus, de Florianópolis. Contei meu caso e ele me indicou uma japonesa, Mikiko, que morava na ilha e tratou de uma lesão grave que ele teve. Fui consultado por ela e a primeira coisa que ela falou, ainda com um sotaque japonês bem puxado, foi “Não precisa operar”. Primeiramente eu não acreditei, porque muitos médicos já tinham colocado isso na minha cabeça. Mas, já que estava lá, decidi apostar nela e, quando levantei para ir para casa, eu já não sentia tanta dor. Foram algumas sessões e voltei a surfar novamente. Foram dias em que dei ainda mais valor ao surf! Sou muito grato ao meu amigo Davi e ao trabalho da Mikiko.

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Filipe Toledo e Jean da Silva no pódio do QS em Virginia Beach (EUA), em 2012. Foto: Divulgação WSL.

 
E a volta por cima, em Portugal?

No WQS em Carcavelos, éramos apenas eu e Rodrigo Dornelles de brasileiros competindo no evento. Estava rolando uma etapa na mesma data, em Ubatuba. Já estava recuperado da minha lesão e me sentindo mais forte do que nunca. Foi um dos eventos mais difíceis que já venci, porque passei baterias em todos os tipos de condições de mar e estavam competindo praticamente todos os melhores colocados no ranking do WQS. Nos primeiros dias, o evento aconteceu em Carcavelos, em ondas perfeitas de 4 pés, e nos últimos dias o swell entrou com uma direção desfavorável para a praia e tiveram que dar continuidade na praia do Guincho, a alguns quilômetros de lá. O Guincho é muito conhecido pelo kite surf, o vento não é brincadeira! O mar crescendo, eu passando baterias e, na semifinal homem-a-homem, me deparo com Tiago Pires, o Pelé do surf português! A cidade parou para assistir à bateria! Do outside eu vi a praia lotada e todos com sua bandeira portuguesa no alto, torcendo para o “Saca”! Parecia que eu estava em um estádio português no qual todos estavam torcendo apenas para ele, e eu ali, sozinho. Quando saí do mar, não tinha ideia do resultado por causa do vento forte, mas vi que a multidão começou a diminuir e, dentre tanta gente, meu amigo vem correndo em minha direção e disse “Ah, garoto, agora é nosso!!”. A final foi contra o norte-americano Gabe Kling. Na minha primeira onda, arrebentei a cordinha e tive que nadar até a praia para pegar uma nova, voltar ao outside e começar tudo de novo. Surfei apenas duas ondas, porque o mar estava muito grande e fechando bastante. Mais uma vez, quando eu saio do mar, meu amigo vem em minha direção, dessa vez com duas cervejas na mão,  pulando feito doido e gritando “Eu sabia, porra!!!”.

Você chegou perto da elite algumas vezes, mas não conseguiu entrar. O que faltou?

Em dois anos, eu quase entrei na elite. Acho que naquela época eu me cobrava muito e teve um ano em que tive essa lesão no quadril, o que prejudicou meus resultados. A experiência e o fato de conhecer mais as ondas onde eu competi fazem uma grande diferença. Hoje estou muito mais preparado em todos os sentidos. Sei que a hora vai chegar. Estou muito dedicado, com esperanças e muitas chances!

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Jean em Sunset Beach, Hawaii Foto: © WSL / Cestari.

 
Depois de anos batendo na trave, conquistando bons resultados no WQS, você teve que deixar o mundo um pouco de lado e focar o título brasileiro. Como foi essa decisão? Ficou chateado?

Fiquei super animado em priorizar apenas o circuito brasileiro, pois eu estava correndo dois circuitos no mundo todo sem parar para respirar. Eram mais de 20 etapas por ano! Praticamente toda semana em um país diferente, em um hotel diferente, lutando contra o fuso horário, vivendo a mesma rotina de eventos em ondas ruins, e tudo isso dificultava o desempenho final. Competindo apenas no circuito brasileiro, pude concentrar em somente um objetivo. Foi em 2010, quando tive mais tempo para mim. Pude surfar mais, treinar mais e competir feliz. Foi aí que os resultados apareceram em quase todos os campeonatos que corri. Perdi no round 3 na primeira etapa, em Ubatuba (SP). Antes da segunda etapa, fiz uma viagem para a Indonésia e voltei muito preparado para dar continuidade ao circuito. Fiquei em quinto no Cupe (PE), venci em Búzios (RJ), terceiro na Joaquina (SC) e fui quinto no Rio, onde consegui o título de campeão brasileiro profissional.

Desde novo, você foi patrocinado por uma marca internacional. Já foi convidado para disputar etapas do World Tour (Reunião e Austrália), viajou para muitos países, aprendeu outras línguas. Como foi a transição para uma marca nacional?

A transição foi das melhores. A Maresia acreditou no meu trabalho e eu no deles! A Maresia é uma das maiores marcas de surfwear do Brasil e fiquei muito feliz com a proposta deles. Acredito muito na empresa e estou muito feliz em fazer parte da equipe.

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Jean da Silva atacando Saint Leu, nas Ilhas Reunião, durante o Rip Curl Search 2005. Foto: ASP World Tour / Tostee.

Como foram essas experiências na Austrália e Reunião? Lembro que venceu Bruce Irons em uma bateria nas Ilhas Reunião, levou a Expression Session, depois perdeu para Andy. Na Austrália, teve aquela bateria apertada contra Luke Egan…

Fui convidado para competir nas triagens dos dois eventos e consegui minha classificação surfando contra caras como Tom Curren, Pancho Sullivan, Kieren Perrow, entre outros. A primeira bateria foi na Austrália, contra Luke Egan. Foi uma disputa apertada e, como eu era muito novo e quase ninguém me conhecia no circuito, o nome dele pesou no resultado, favorecendo-o.

Em Reunião, competi contra Bede Durbidge e Bruce Irons na primeira fase; passei em primeiro, direto para o round 3, onde tive a honra de competir contra um dos meus ídolos, Andy Irons. O mar tinha altas ondas, somei quase 8 e tinha uma nota baixa para descartar. Esperei a boa, e no final da bateria ela apareceu!

Só que, para vencer os melhores do mundo, você precisa fazer mais que o normal, então pensei em surfar mais que o meu máximo. Dei três manobras e, no inside, na maioria das ondas, rola um tubo irado e pensei que se o fizesse de uma maneira simples eu não iria conseguir a nota, então fiquei muito à vontade no tubo e o lip bateu na borda da minha prancha. Acabei caindo! Não passei a bateria, mas fiquei feliz com minha atitude.??

Na sua época, já exisitia um suporte internacional das marcas para os atletas brasileiros, como vimos hoje?

Já existia, sim. Os atletas que eram patrocinados por empresas internacionais, como Adriano de Souza, Jadson André, entre outros, recebiam uma atenção muito boa pelo que eu via. Tinham seus carros alugados, hotéis reservados e até uma casa disponível no Hawaii durante a temporada de eventos, por mais de um mês. Hoje em dia, o suporte é  ainda melhor pelo que vejo com os brasileiros. Em Huntington Beach, Alejo e Medina ficaram hospedados no hotel mais caro, pago pelos seus patrocinadores, e o team manager dava suporte em praticamente tudo o que era feito no evento.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.