Australian Open

Jessé Mendes é campeão

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Jessé Mendes celebra a vitória na Austrália. Foto: © WSL / Ethan Smith.

 

O Brasil começa muito bem a temporada, conquistando as duas primeiras etapas do QS 6000 na Austrália. O paulista Jessé Mendes, 24 anos, foi finalista nas duas. Em Newcastle, perdeu a decisão verde-amarela para o catarinense Yago Dora, 20, mas em Sydney festejou uma vitória fantástica no Australian Open of Surfing.

 

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Por um incrível placar de 18,13 a 18,00 pontos, bateu o favorito ao título, Julian Wilson, 28, diante da sua torcida em Manly Beach, garantindo o título com uma nota 9,40 logo após o australiano receber 9,33 nas melhores ondas da bateria.

 

O top da elite da World Surf League impediu outra final brasileira ao barrar o paulista Alex Ribeiro, 27, nas semifinais, porém amargou mais uma derrota como na decisão de 2014, contra o hoje campeão mundial Adriano de Souza, 30 anos.

 

  

“Estou muito feliz por essa vitória, pois vencer o Julian (Wilson) numa final é uma coisa incrível”, disse Jessé Mendes. “Eu sabia que teria que surfar o meu melhor e foi isso o que eu fiz. Eu nunca tinha passado das quartas de final em campeonatos aqui na Austrália, então fazer duas finais e ganhar o título aqui foi fantástico para mim. Eu ganhei uma etapa importante do QS no ano passado (QS 10000 em Cascais, Portugal), mas não me qualifiquei para o CT. Então, começar a temporada com um segundo e um primeiro lugar me dá muito mais confiança para ir busca do meu sonho esse ano, que é entrar no CT”.

 

Jessé Mendes já tinha tirado a primeira posição no WSL Qualifying Series 2017 de Yago Dora quando se classificou para as quartas de final que abriram o domingo decisivo do Australian Open.

 

Yago caiu para o segundo lugar e mais dois brasileiros estão na lista dos dez primeiros que se classificam para a elite dos top-34 da World Surf League pelo ranking de acesso, após a décima etapa em Sydney. Alex Ribeiro subiu para a oitava posição com o terceiro lugar no domingo e o catarinense Alejo Muniz, 27 anos, está fechando o G-10 no momento.

 

Julian Wilson entrou na final querendo vingar a derrota sofrida em 2014 para Adriano de Souza e começou bem com nota 8,67, contra 5,33 de Jessé Mendes. As ondas estavam mais lisas, porém com as séries muito espaçadas, demorando a entrar na bateria. Enquanto o brasileiro tinha a prioridade de escolha da próxima onda e ficava esperando por uma boa, o australiano foi pegando as que passavam buscando uma segunda nota para somar. Ele foi em cinco antes de Jessé surfar sua segunda onda e o máximo que conseguiu foi nota 4,87.

 

Jessé só pegou outra quando faltavam 13 minutos para o término da bateria e escolheu bem, uma esquerda de bom tamanho que abriu uma parede lisa para ele variar uma série de seis manobras modernas e vibrar na finalização. Os juízes deram nota 8,73 e o brasileiro passou a frente, mas a vantagem era pequena ainda, 5,40 pontos que o australiano poderia tirar facilmente numa onda boa também. Mas, Jessé bota pressão ficando mais ativo na bateria. Logo ele surfa outra esquerda e tenta o aéreo, sem completar. Julian pega uma direita, faz duas grandes manobras, erra a terceira e continua precisando de 5,40 para vencer.

 

O australiano pega uma esquerda na prioridade de Jessé e a onda abriu para mandar quatro manobras muito fortes abrindo grandes leques de água, completando com outras três para arrancar 9,33 dos juízes e já totalizar incríveis 18 pontos de 20 possíveis. Mas, Jessé Mendes também surfa de forma impressionante outra boa esquerda da mesma série, atacando a onda com grandes arcos, batidas, rasgadas invertendo a rabeta da prancha e segue variando manobras até a beira para conseguir uma virada sensacional com nota 9,40. Ela foi anunciada quando restavam 3 minutos para o término e não entrou mais nada de ondas, com a segunda vitória brasileira consecutiva na Austrália sendo confirmada por 18,13 a 18,00 pontos.

 

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Julian Wilson fica com a segunda colocação. Foto: © WSL / Ethan Smith.

 

“Foi um grande campeonato e estou feliz por ter feito boas baterias aqui”, disse Julian Wilson. “Eu sinto que surfei bem durante todo o evento e na final também, mas parabéns para o Jessé (Mendes), que achou uma boa onda no final para me vencer. Certamente, foi uma boa semana de preparação para Snnaper Rocks (palco da primeira etapa do CT 2017 na Austrália) e espero repetir as boas atuações que fiz aqui, lá também”.

 

Jessé mostrou um surfe moderno na “perna australiana”, atacando as ondas de Manly Beach com uma incrível variedade de manobras progressivas usando a borda da prancha para levantar grandes leques de águas e aéreas também para liquidar seus adversários nas diferentes condições do mar. A primeira vítima do domingo foi o francês Jorgann Couzinet, 23 anos, da Ilha Reunião, único concorrente pela liderança do ranking, que não teve qualquer chance e foi facilmente batido por uma tranquila vantagem de 15,17 a 11,43 pontos.

 

Semifinais – Depois, Jessé enfrentou o perigoso japonês Hiroto Ohhara, 20 anos, campeão do US Open of Surfing de 2015 na Califórnia, que vinha surfando bem e tinha feito a maior nota – 9,83 – do dia contra o pernambucano Luel Felipe, 25, no sábado de grandes ondas e mar desafiador em Manly Beach.

 

O japonês logo mostrou seu surfe agressivo, manobrando forte com velocidade para assumir a dianteira com notas 8,43 e 6,50, contra 6,40 e 7,00 de Jessé Mendes. A batalha foi onda a onda e o brasileiro garantiu a vitória com um aéreo full-rotation de frontside incrível que valeu nota 8,00. Com ela, virou o placar para 15,00 a 14,93 pontos e se classificou para a sua segunda final consecutiva nas etapas do QS 6000 na Austrália.

 

A outra semifinal já tinha sido igualmente eletrizante. Alex Ribeiro foi rápido contra Julian Wilson e logo pegou uma boa esquerda para detonar uma série de cinco manobras com pressão e velocidade e largar na frente com nota 8,83. Ele ainda fez um 5,33 antes do australiano surfar sua primeira onda, que valeu 7,67.

 

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Alex Ribeiro fica em terceiro. Foto: © WSL / Ethan Smith.

 

O brasileiro aumentou a vantagem com o 6,83 recebido na onda seguinte, deixando Julian Wilson precisando de 8 pontos. E o australiano consegue quase a conta exata para a virada numa direita que ele começou com um giro completo no ar e foi manobrando até a beira para ganhar nota 8,33 e assumir a ponta.

 

Outra série de boas ondas só entrou quando restavam 10 minutos para terminar a bateria. Alex Ribeiro vem na da frente e manda um aéreo rodando, mas a onda não fluiu para tentar aumentar a nota, que ficou em 4,93. Já o australiano destrói uma esquerda com quatro batidas e rasgadas muito fortes e recebe 8,10 para aumentar a vantagem para 7,60. O brasileiro ainda tenta a vitória no final com três manobras potentes, mas não consegue reverter o resultado no placar encerrado em 16,43 a 15,66 pontos.

 

Novidades no G-10 – Mesmo assim, o terceiro lugar foi muito bom para Alex Ribeiro, pois com os 3.550 pontos recebidos subiu para o oitavo lugar no ranking, sendo um dos três únicos surfistas que entraram no G-10 do WSL Qualifying Series em Sydney. Os outros foram o também terceiro colocado no Australian Open, Hiroto Ohhara, que assumiu a quarta posição, e o vice-campeão Julian Wilson, que está logo acima de Alex Ribeiro, em sétimo lugar.

 

O outro brasileiro que competiu no domingo foi o baiano Marco Fernandez, 25 anos, que perdeu a bateria que abriu as quartas de final para o mesmo Julian Wilson. O australiano praticamente liquidou a fatura em sua primeira onda, quando completou um aéreo “full rotation” perfeito que arrancou nota 9,70 dos juízes.

 

O brasileiro só conseguiu reagir no final com uma nota 7,33, mas já era tarde e o australiano confirmou o favoritismo vencendo por 14,87 a 12,33 pontos. O baiano terminou em quinto lugar e subiu para a 18.a posição no ranking com o bom resultado. Mas, quem está mais próximo da zona de classificação para o CT é o catarinense Willian Cardoso, empatado em 14.o lugar com o norte-americano Nat Young.

 

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Marco Fernandez participa do último dia do evento e encerra na quinta posição. Foto: © WSL / Ethan Smith.

  

Havaiana campeã – No domingo foi encerrado o segundo QS 6000 feminino do ano e a favorita ao título também não ganhou o campeonato. A atual campeã mundial Tyler Wright, 22 anos, foi barrada nas semifinais por uma pequena diferença de 15,83 a 15,03 pontos pela havaiana Malia Manuel, 23.

 

A bateria final foi de alto nível como a decisão masculina. As duas finalistas surfaram ondas no critério excelente dos juízes e Malia Manuel faturou o título do QS 6000 Girls Make Your Move Women´s Pro com a nota 9,30 da sua melhor apresentação.

 

“Estou muito feliz por não ter sido a dama de honra hoje (domingo), como no ano passado (quando perdeu a final para Nikki Van Dijk)”, disse Malia Manuel. “Eu acho que quando você retorna a um evento que você terminou como vice-campeã, você realmente pode colocar muita pressão sobre si mesma para vencer. Eu não queria isso para mim e tentei competir relaxada, que pareceu ter funcionado bem. Foi incrível surfar as baterias aqui com todas as tops do CT e foi um ótimo aquecimento para Snapper Rocks (local da primeira etapa do CT 2017)”.

 

Assim como Jessé Mendes, a francesa Johanne Defay, 23 anos, chegou nas finais das duas etapas mais importantes do WSL Qualifying Series 2017 na Austrália. Só que, diferente do brasileiro, ela venceu o QS 6000 de Newcastle e perdeu a decisão em Sydney no domingo. Mas foi por pouco, 17,87 a 16,16 pontos. A campeã Malia Manuel computou notas 9,30 e 8,57 e Johanne Defay somou 8,33 e 7,83 das suas melhores ondas na bateria. Apesar da derrota, a francesa passou a liderar o ranking com incríveis 87,5% de aproveitamento e Malia Manuel subiu para o segundo lugar com 72,1% dos pontos conquistados nas duas etapas.

 

“Foram duas semanas muito loucas, de muito surfe e eu consegui ficar focada, o que é uma novidade para mim”, disse Johanne Defay. “Eu cometi alguns erros de prioridade na final, fiquei esperando por uma onda que não veio, mas fazer outra final foi incrível. Me sinto muito mais animada para chegar em Snapper Rocks e ver como vai ser lá. Sinto que essas duas semanas foram um bom treinamento para mim, então espero que a recompensa venha no CT”.

 

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Malia Manuel vence entre as meninas. Foto: © WSL / Ethan Smith.

 

Resultados do último dia do QS 6000 Australian Open of Surfing

 

 

Campeão: Jessé Mendes (BRA) por 18,13 pontos (9,40+8,73) – US$ 25.000 e 6.000 pontos

Vice-campeão: Julian Wilson (AUS) com 18,00 pontos (9,33+8,67) – US$ 12.000 e 4.500 pontos

 

Semifinais – 3.o lugar com 3.550 pontos e US$ 5.500 de prêmio:

 

1 Julian Wilson (AUS) 16.43 x 15.66 Alex Ribeiro (BRA)

2 Jessé Mendes (BRA) 15.00 x 14.93 Hiroto Ohhara (JPN)

 

Quartas de final – 5.o lugar com 2.650 pontos e US$ 3.000 de prêmio:

 

1 Julian Wilson (AUS) 14.87 x 12.33 Marco Fernandez (BRA)

2 Alex Ribeiro (BRA) 14.43 x 7.16 Mitch Crews (AUS)

3 Hiroto Ohhara (JPN) 16.77 x 8.47 Nat Young (EUA)

4 Jessé Mendes (BRA) 15.17 x 11.43 Jorgann Couzinet (FRA)

 

Final do QS 6000 Girls Make Your Move Women’s Pro:

 

Campeã: Malia Manuel (HAV) por 17,87 pontos (9,30+8,57) – US$ 10.000 e 6.000 pontos

Vice-campeã: Johanne Defay (FRA) com 16,16 pontos (8,33+7,83) – US$ 5.000 e 4.500 pontos

 

Semifinais – 3.o lugar com 3.550 pontos e US$ 2.500 de prêmio:

 

1 Malia Manuel (HAV) 15.83 x 15.03 Tyler Wright (AUS)

2 Johanne Defay (FRA) 17.27 x 12.43 Pauline Ado (FRA)

 

Quartas de final – 5.o lugar com 2.650 pontos e US$ 1.750 de prêmio:

 

1 Tyler Wright (AUS) 15.40 x 14.07 Philippa Anderson (AUS)

2 Malia Manuel (HAV) 14.93 x 12.30 Sally Fitzgibbons (AUS)

3 Johanne Defay (FRA) 13.00 x 11.77 Keely Andrew (AUS)

4 Pauline Ado (FRA) 12.54 x 12.44 Tatiana Weston-Webb (HAV)

 

G-10 DO WSL QUALIFYING SERIES 2017 – ranking das 10 primeiras etapas:

1.o: Jessé Mendes (BRA) – 10.980 pontos
2.o: Yago Dora (BRA) – 7.185
3.o: Jorgann Couzinet (FRA) – 6.425
4.o: Hiroto Ohhara (JPN) – 5.340
5.o: Mitch Coleborn (AUS) – 5.100
6.o: Ian Crane (EUA) – 5.080
7.o: Julian Wilson (AUS) – 4.870
8.o: Alex Ribeiro (BRA) – 4.200
9.o: Soli Bailey (AUS) – 4.100
10.o: Alejo Muniz (BRA) – 3.700

Próximos sul-americanos até 100:

14: Willian Cardoso (BRA) – 3.050 pontos
18: Marco Fernandez (BRA) – 2.770
27: Rafael Teixeira (BRA) – 2.290
28: Michael Rodrigues (BRA) – 2.280
29: Adriano de Souza (BRA) – 2.250
36: David do Carmo (BRA) – 2.080
45: Peterson Crisanto (BRA) – 1.895
48: Deivid Silva (BRA) – 1.750
48: Santiago Muniz (ARG) – 1.750
51: Leandro Usuna (ARG) – 1.705
54: Bino Lopes (BRA) – 1.690
57: Miguel Tudela (PER) – 1.645
58: Juninho Urcia (PER) – 1.640
60: Lucca Mesinas Novaro (PER) – 1.610
69: Samuel Pupo (BRA) – 1.350
71: Marcos Correa (BRA) – 1.325
81: Lucas Silveira (BRA) – 1.215
84: Jean da Silva (BRA) – 1.170
89: Alonso Correa (PER) – 1.100
95: Thiago Guimarães (BRA) – 1.070
103: Flavio Nakagima (BRA) – 980
103: Joaquin del Castillo (PER) – 980

G-6 DO WSL QUALIFYING SERIES FEMININO – ranking das 8 primeiras etapas:

1.a: Johanne Defay (FRA) – 10.500 pontos
2.a: Malia Manuel (HAV) – 8.650
3.a: Macy Callaghan (AUS) – 7.000
4.a: Paige Hareb (NZL) – 6.230
5.a: Tatiana Weston-Webb (HAV) – 5.300
6.a: Pauline Ado (FRA) – 5.100

Sul-americanas no ranking 2017:

16: Silvana Lima (BRA) – 3.100 pontos
50: Melanie Giunta (PER) – 1.435
53: Dominic Barona (EQU) – 1.350
90: Lorena Fica (CHL) – 785
96: Anali Gomez (PER) – 700
100: Josefina Ane (ARG) – 640
103: Tainá Hinckel (BRA) – 620
145: Jessica Anderson (CHL) – 240
167: Pomare Dreisziger (CHL) – 120

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.