Surfe e Medicina

O preço invisível do limite

Coluna Surfe e Medicina, do doutor Guilherme Vieira Lima, aborda dura realidade das concussões no surfe de elite e recente decisão de John John Florence de deixar o tour.

Não sei ao certo com quantos anos comecei a surfar, mas tenho perfeitamente a recordação da sensação de liberdade absoluta que o mar sempre me proporcionou. Aquele sentimento de que, na água, os problemas da terra firme não nos
alcançam. No entanto, à medida que o esporte evolui e os limites são empurrados para patamares inimagináveis, o oceano tem cobrado um preço cada vez mais alto dos nossos atletas.

Recentemente, fomos surpreendidos com a notícia de que o tricampeão mundial John John Florence decidiu se afastar do Championship Tour da WSL em 2026. Em vez de vestir a lycra de competição, ele optou por velejar pelo mundo e buscar ondas perfeitas e vazias, documentando tudo em sua nova série VELA. Para muitos fãs, foi um choque.

Para mim, do ponto de vista de saúde e medicina do esporte, pareceu uma decisão madura de alguém que busca longevidade, preservação física e mental, e um retorno à essência do surfe.

Essa busca por longevidade contrasta duramente com outra notícia recente e alarmante publicada pela Surfer Magazine, que trouxe à tona um problema silencioso e devastador: a epidemia de concussões e lesões cerebrais traumáticas (TBI) no surfe de elite.

Nomes de peso como Owen Wright, Albee Layer, Natxo Gonzalez e Stirling Spencer compartilham uma história em comum que vai muito além dos tubos insanos que já surfaram. Todos eles enfrentaram períodos sombrios de dor crônica, isolamento e depressão profunda causados por concussões.

O basco Natxo Gonzalez, por exemplo, relatou ter passado cinco meses de cama, com enxaquecas intermináveis, incapaz até mesmo de acender as luzes de casa após
sofrer duas concussões graves em Puerto Escondido e Nazaré.

Como médico, o que mais me chama a atenção nesses relatos é o mecanismo da lesão. A grande maioria dessas concussões não ocorre por um choque direto da cabeça contra a prancha ou o fundo de coral. Elas são causadas pelo que chamamos de efeito “chicote” (whiplash).

Durante um wipeout violento, as forças rotacionais e de aceleração-desaceleração extremas fazem com que o cérebro chacoalhe dentro da caixa craniana. Isso gera a Lesão Axonal Difusa (DAI), em que as fibras nervosas da substância branca do cérebro sofrem estiramento e ruptura.

Um estudo recente de 2024, realizado no High Performance Centre da Surfing Australia, avaliou 40 surfistas de elite. Os resultados são preocupantes: 13 deles tinham histórico de concussão diagnosticada, e impressionantes 95% relataram sintomas potenciais de concussão após wipeouts, sendo o impacto contra a própria superfície da água o mecanismo principal.

O grande perigo é que o surfe ainda sofre de um subdiagnóstico massivo. Diferente de esportes como o futebol americano ou o rugby, onde há protocolos rígidos de retirada do atleta após um impacto, no surfe, o instinto natural é voltar para o lineup ou remar para a areia e ir para casa descansar. Muitos surfistas estão sofrendo micro-impactos diários sem qualquer acompanhamento médico.

O uso do capacete, que felizmente vem ganhando cada vez mais adeptos em picos como Pipeline, é fundamental e salva vidas ao prevenir traumas diretos, cortes e fraturas cranianas. No entanto, as evidências científicas mostram que a capacidade do capacete de prevenir as concussões causadas pelo efeito chicote ainda é limitada.

A decisão de John John Florence de se afastar do ambiente hipercompetitivo e focar no freesurf nos faz refletir. O corpo humano é uma máquina incrível, mas tem seus limites. A pressão por manobras cada vez mais altas e tubos cada vez mais pesados cobra uma fatura neurológica e ortopédica que, muitas vezes, só chega anos depois.

Diante de tantas mudanças e à evolução extrema do nosso esporte, não devemos esquecer que a essência do surfe é se divertir de forma segura e duradoura. Precisamos falar mais sobre saúde mental, sobre o tempo de recuperação adequado após uma queda forte e sobre a importância de procurar um médico especializado quando as dores de cabeça ou as alterações de humor não passam.

O sorriso, a diversão, o bem-estar e a conexão com a natureza devem ser sempre o objetivo final. A minha eterna busca no surfe, e o que recomendo e prescrevo a todos os meus pacientes, é que possamos surfar com saúde não apenas na
próxima temporada, mas por toda a vida.

Referências: 1. Mondy, B. (2026). Is Surfing Taking Head Injuries Serious Enough? Surfer Magazine. 2. Concussion Incidence, Mechanism, and Perspectives Among Elite Australian Surfers. (2024). Surfing Australia High Performance Centre. 3. John John Florence Withdraws from 2026 WSL Championship Tour. (2026). Stab Magazine.
Dr. Guilherme H V Lima CRM 132043

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)