Circuito Banco do Brasil

Mateus Sena vence final potiguar

Mateus Sena supera Adauto Sena, enquanto peruana Sol Aguirre festeja contra cearense Juliana dos Santos.
Circuito Banco do Brasil, Praia de Miami, Natal (RJ)

O Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024 fechou a primeira etapa da história do World Surf League (WSL) Championship Tour (QS) no Rio Grande do Norte, com uma final potiguar na Praia de Miami lotada no domingo em Natal.

A vitória era o único resultado para o natalense Mateus Sena ser o campeão no ranking das cinco etapas da temporada e ele conseguiu derrotar Adauto Sena, que é de Baía Formosa. A peruana Sol Aguirre ganhou a decisão feminina contra a cearense Juliana dos Santos, mas Laura Raupp já tinha conquistado o título de campeã do Circuito BB 2024 por antecipação. Um grande público lotou a Praia de Miami nos quatro dias do evento.

“É uma sensação inexplicável”, disse Mateus Sena. “Treinei muito, trabalhei muito para isso. Esse ano está sendo o mais difícil da minha carreira profissional, mas é o ano que eu mais queria ganhar, fazer as coisas entrarem no eixo de novo e estou conseguindo. Agora é comemorar, porque amanhã o trabalho continua. Esse era o único resultado que podia acontecer nessa semana. Eu tinha isso dentro de mim de uma forma muito clara, eu atraí muito isso daqui e chegou, então agora é aproveitar, porque amanhã começa tudo de novo”.

Depois de ser campeão do Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024, a meta de Mateus Sena agora é uma vaga entre os 7 surfistas que o ranking regional da WSL South America, classifica para o Challenger Series, o circuito de acesso para a elite do World Surf League (WSL) Championship Tour (CT).

Com os 1.000 pontos da vitória em Natal, ele subiu da 19.a para a nona posição no ranking e tem mais duas etapas em março do ano que vem, uma no Peru e outra em Florianópolis (SC), para fechar a lista da temporada 2024/2025.

“Tinham três etapas e pelo menos uma já ficou aqui né”, disse Mateus Sena. “Eu cheguei aqui bem atrás no ranking e sabia que se eu ganhasse essa etapa, ficaria mais próximo dos top-7 que se classificam. Ainda tem uma etapa de 3.000 pontos confirmada em Florianópolis, então estou dentro do jogo. E se a gente conseguir entrar no Challenger, vai ser para ir pras cabeças. Muito obrigado a todo mundo que veio aqui. Eu participo de QS há muitos anos e nunca vi um QS com a praia tão lotada como aqui. Eu queria muito deixar essa vitória em casa, então esse troféu aqui é nosso galera, muito obrigado a todos vocês”.

No domingo decisivo do Circuito Banco do Brasil de Surfe de Natal, Mateus Sena teve que vencer três adversários muito difíceis. Nas quartas de final que abriram o último dia, ele conseguiu reverter a vantagem inicial do paraibano Kauã Hanson nas ondas do final da bateria, para totalizar 12,86 contra 12,33 pontos. Na semifinal, enfrentou o outro concorrente ao título de campeão do Circuito BB de Surfe 2024, o cearense Cauã Costa. E Mateus acertou os aéreos, para vencer por 15,24 a 12,17 pontos com notas 7,67 e 7,57.

Decisão do título – Na decisão do título, Mateus começou melhor com 5,83, mas Adauto também usou os aéreos para somar notas 7,00 e 6,50 em duas ondas seguidas. Com elas, abriu 7,67 pontos de vantagem sobre Mateus Sena, que pega uma boa e começa com um aéreo rodando, a esquerda ainda abre pra fazer mais duas manobras e ganhar 7,23. Ele passou a precisar de 6,27 para vencer nos 5 minutos finais.

Mateus chega perto na primeira tentativa, fazendo um surfe de borda muito forte, variando batidas e rasgadas, mas a nota sai 5,67. Mateus Sena tenta de novo, completa um aéreo reverse muito alto, a torcida explode na praia, ele segue atacando a onda até o fim e recebe 8,50, virando o placar para 15,73 a 13,50 pontos do Adauto Sena.

“É o meu primeiro QS, mas eu estava bastante confiante para esse evento”, disse Adauto Sena, de apenas 18 anos de idade. “Quando apareceu para mim essa oportunidade de competir aqui, eu falei que ia aproveitar e me divertir. Foi isso o que eu fiz, consegui um excelente resultado e o próximo ano, se Deus quiser, vamos com tudo pros QS. Desde pequenininho eu venho aqui em Miami, já tive outros bons resultados aqui também e tava encaixado na vala. O segundo lugar foi muito bom e valeu galera”.

Final potiguar – Os grandes astros desta última etapa do Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024, eram o campeão mundial e olímpico, Italo Ferreira, e Jadson André, que também atuou como embaixador deste QS inédito em Natal. Então, a torcida que lotou a Praia de Miami todos os dias, já esperava uma final de um natalense de Ponta Negra, Jadson, com um de Baía Formosa, onde Italo tem até uma estátua. Só que a decisão do título foi entre dois potiguares da nova geração, o natalense Mateus Sena que é uma cria do Jadson e Adauto Sena, que competiu pela primeira vez em etapas do QS.

“Eu falei pra minha esposa e todo mundo, que essa competição, se fosse pra eu escolher eu vencer, ou um dos meninos lá da Vila de Ponta Negra, como o Arthur Alves, Emanoel Tobias, Lucas Pires ou Mateus Sena, eu escolheria eles, sem sombra de dúvidas”, disse Jadson André. “E vendo uma final potiguar na primeira etapa do QS da WSL no Rio Grande do Norte, pra mim é muito gratificante, não poderia ser melhor. É um momento totalmente diferente da minha carreira e um deles vencer essa etapa, não poderia encerrar melhor. Ainda mais o Mateus (Sena), sendo campeão do Circuito Banco do Brasil com a vitória”.

Melhores do Feminino – As duas melhores surfistas nas ondas da Praia de Miami, chegaram merecidamente à final. A peruana tetracampeã sul-americana da categoria Pro Junior Sub-20 da WSL South America, Sol Aguirre, era a grande favorita. Especialmente após vencer a semifinal peruana com Arena Rodriguez Vargas, fazendo os recordes femininos no Circuito Banco do Brasil de Surfe de Natal, nota 7,67 e 15,17 pontos. Só ela bateu as marcas da sua adversária na decisão do título, a cearense Juliana dos Santos, que tinha carimbado a faixa da campeã do Circuito BB 2024, Laura Raupp, por 13,00 pontos somando uma nota 7,00.

Juliana é uma das atletas patrocinadas pelo Banco do Brasil e era a única brasileira no domingo decisivo da quinta e última etapa. Nas semifinais, ela achou boas ondas para mostrar a potência do seu frontside nas esquerdas da Praia de Miami e derrotar a argentina Vera Jarisz. Pela primeira vez, Juliana chegava numa final em etapas do QS, enquanto Sol Aguirre já tinha duas vitórias no currículo, uma no Equador e outra no Chile. A peruana aproveitou melhor as ondas que surfou e colecionou seu terceiro título, derrotando Juliana dos Santos por 12,00 a 9,64 pontos.

“Foi um ano muito longo e eu tinha um pouco de receio de vir pra cá, porque não conhecia esse lugar”, contou Sol Aguirre. “Eu tomei a decisão de vir na última hora e estou muito feliz por ter vindo. A onda aqui não achei muito boa, mas acreditei em mim, apostei no meu surfe e só tentei fazer o meu melhor. Essa é a meu terceiro título em QS, fechamos o ano com uma vitória e aguardem que em 2025 a Sol estará de volta, com tudo”.

Juliana dos Santos também ficou feliz pelo resultado: “Tudo o que eu queria era mostrar meu surfe e estar numa final representando meu patrocinador principal e do evento, pra mim é uma honra. É uma honra fazer parte desse time e estou muito feliz pelo meu resultado. É a minha primeira final em QS, dei meu melhor pra poder levar o título, mas a Sol (Aguirre) foi merecedora também. Todos os eventos do Banco do Brasil foram fantásticos e a Praia de Miami não deixou a desejar. Olha esse público, olha o que esse circuito do meu patrocinador faz com a galera, que está na praia pra aplaudir o evento, foi irado, show de surfe dentro d´água, foi fantástico”.

Novos talentos – Um dos objetivos do Circuito Banco do Brasil de Surfe, é descobrir novos talentos no surfe brasileiro, oferecendo a chance para que participem de eventos da World Surf League. Nas quatro primeiras etapas deste ano, 47 surfistas aproveitaram a oportunidade de competir pela primeira vez de uma etapa do QS e agora nesta etapa inédita em Natal, foram incríveis 44 estreantes competindo na Praia de Miami. Um deles, o vice-campeão, Adauto Sena, que já chegou na final depois de vencer uma semifinal igualmente potiguar contra outra sensação do evento, Emanoel Tobias, de Ponta Negra.

“Fã e Apoiador do Surfe Brasileiro” é o slogan do Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024, que foi encerrado neste domingo na Praia de Miami, com total apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, da Prefeitura Municipal de Natal e da Federação de Surf do Rio Grande do Norte. Todas as notícias desta etapa inédita do WSL Qualifying Series (QS) no Rio Grande do Norte, podem ser acessadas no www.wsllatinamerica.com.

Resultados do Circuito Banco do Brasil
Final Masculino

Campeão: Mateus Sena (BRA) por 15,73 pts (8,50+7,23) – US$ 2.000 e 1.000 pontos
2.o lugar: Adauto Sena (BRA) com 13,50 pts (7,00+6,50) – US$ 1.000 e 800 pontos
Semifinais – 3.o lugar com US$ 700 e 650 pontos:

Adauto Sena (BRA) 13,77 x 11,47 Emanoel Tobias (BRA)
Mateus Sena (BRA) 15,24 x 12,17 Cauã Costa (BRA)
Quartas de final  – 5.o lugar com US$ 375 e 500 pontos:

Adauto Sena (BRA) 12,03 x 6,67 Yuri Barros (BRA)
Emanoel Tobias (BRA) 12,50 x 5,00 Weslley Dantas (BRA)
Cauã Costa (BRA) 11,50 x 9,30 Ryan Kainalo (BRA)
Mateus Sena (BRA) 12,86 x 12,33 Kauã Hanson (BRA)
Final Feminino

Campeã: Sol Aguirre (PER) por 12,00 pts (6,17+5,83) – US$ 2.000 e 1.000 pontos
2.o lugar: Juliana dos Santos (BRA) com 9,64 pts (5,17+4,47) – US$ 1.000 e 800 pontos
Semifinais – 3.o lugar com US$ 700 e 650 pontos:

Juliana dos Santos (BRA) 10,70 x 7,67 Vera Jarisz (ARG)
2 Sol Aguirre (PER) 15,17 x 11,33 Arena Rodriguez Vargas (PER)

Ranking Masculino

Campeão: Mateus Sena (BRA) – 2.216 pontos
2 José Francisco (BRA) – 2.150
3 Nacho Gundesen (ARG) – 1.866
4 Cauã Costa (BRA) – 1.800
5 Matheus Navarro (BRA) – 1.561
6 Vitor Ferreira (BRA) – 1.450
7 Peterson Crisanto (BRA) – 1.350
8 Wesley Leite (BRA) – 1.316
9 Lucas Vicente (BRA) – 1.282
10 Weslley Dantas (BRA) – 1.266
Ranking Feminino

Campeã: Laura Raupp (BRA) – 4.300 pontos
2 Daniella Rosas (PER) – 2.800
3 Vera Jarisz (ARG) – 2.150
3 Julia Duarte (BRA) – 2.150
5 Arena Rodriguez Vargas (PER) – 2.100
6 Sol Aguirre (PER) – 2.000
7 Juliana dos Santos (BRA) – 1.945
8 Silvana Lima (BRA) – 1.795
9 Tainá Hinckel (BRA) – 1.390
10 Alexia Monteiro (BRA) – 1.345
Ranking Sul-Americano Masculino (classifica 7 homens e 3 mulheres para o Challenger Series 2025)

Lucas Vicente (BRA) – 5.616 pontos
2 Franco Radziunas (ARG) – 4.590
3 José Francisco (BRA) – 4.440
Peterson Crisanto (BRA) – 3.895
5 Igor Moraes (BRA) – 3.792
6 Cauã Costa (BRA) – 3.723
Kaue Germano (BRA) – 3.592
8 Nacho Gundesen (ARG) – 3.475
Mateus Sena (BRA) – 3.195
10 Rickson Falcão (BRA) – 3.182
Ranking Feminino

1 Laura Raupp (BRA) – 9.340 pontos
2 Arena Rodriguez Vargas (PER) – 7.375
3 Daniella Rosas (PER) – 6.732
Julia Duarte (BRA) – 5.465
5 Vera Jarisz (ARG) – 4.992
6 Juliana dos Santos (BRA) – 4.378
Silvana Lima (BRA) – 4.078
8 Sol Aguirre (PER) – 4.050
Alexia Monteiro (BRA) – 3.220
10 Kiany Hyakutake (BRA) – 3.143

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.