Arica Pro Tour

Brazucas em peso

Jerônimo Vargas e Franklin Serpa comandam ataque brasileiro no quarto dia do QS 3.000 em El Gringo, Arica, Chile.

O carioca Jerônimo Vargas passou a bateria dos três campeões do Maui and Sons Arica Pro Tour QS 3.000 by Jeep e é o único que pode conseguir um inédito bicampeonato nos 10 anos de história da etapa mais antiga do Circuito Mundial da World Surf League na América do Sul, fora do Brasil.

O brasileiro eliminou os peruanos Tomas Tudela campeão de 2017 e Alvaro Malpartida de 2013. Depois, o único chileno a vencer em casa nos tubos de El Gringo, Guillermo Satt, não achou nada pra surfar na bateria que fechou a sexta-feira de ondas pequenas na Ex Isla El Alacrán. Mas, as previsões são de subirem e a primeira chamada do sábado foi antecipada, com a fase dos 32 melhores iniciando as 8 horas no Brasil.

Na sexta-feira, só foram realizadas as cinco baterias que restavam para fechar a terceira fase. Mesmo as ondas estando com a menor altura da semana, El Gringo ainda mandou alguns tubos incríveis durante a manhã. O melhor do dia foi surfado pelo peruano Joaquin del Castillo, justamente na última bateria, a que o chileno Guillermo Satt não conseguiu surfar nenhuma.

Joaquin depois só pegou mais uma para vencer por 10.73 pontos e o costa-ricense Carlos Muñoz fechou a lista dos 32 melhores surfistas nos tubos de El Gringo, nesta edição que celebra o décimo aniversário do Maui and Sons Arica Pro Tour.

Antes do tubaço de Joaquin del Castillo, o melhor do dia tinha sido o do taitiano Kauli Vaast, na primeira onda que pegou na bateria dos três campeões do QS 3000 de Arica. Ele ganhou nota 7.00 que praticamente garantiu a vitória, depois confirmada por exatos 10.00 pontos.

O defensor do título, Jerônimo Vargas, surfou um no início que valeu 4.00 e outro no final que recebeu 5.17, passando em segundo com 9.17 pontos. O campeão de 2017, Tomas Tudela, não achou nada de ondas, enquanto o único a fazer três finais em El Gringo, Alvaro Malpartida, buscou os tubos seis vezes e o máximo de nota que conseguiu foi 4.33.

“Além de nós três, o Kauli (Vaast) é um moleque da nova geração, local de Teahupoo (Taiti), então eu sabia que era praticamente uma final logo na minha primeira bateria aqui”, diz Jeronimo Vargas. “Eu sou muito fã também do Tomas (Tudela) e do Alvaro (Malpartida), que é uma lenda, já fez três finais aqui, então não podia dar mole, não tinha margem de erro e estou até orgulhoso de mim mesmo por ter conseguido passar. Eu me machuquei no freesurf antes do campeonato começar e foi sorte ter demorado tanto para eu competir. Assim, pude fazer fisioterapia, tomar remédios e não estou 100%, mas consegui surfar e estou feliz por isso”.

Vitória brasileira O atual campeão do Maui and Sons Arica Pro Tour QS 3000 by Jeep, machuchou o joelho se chocando com a bancada de El Gringo enquanto treinava na terça-feira. Ele aproveitou esses últimos dias para fazer tratamento com gelo e conquistou a segunda classificação brasileira em segundo lugar, nas cinco baterias disputadas na sexta-feira em El Gringo. A única vitória foi a do baiano Franklin Serpa, criado nas ondas quentes do Nordeste do Brasil, bem diferentes do mar congelante do Chile.

Em Arica, todos competem usando botinha e roupas de neoprene bem mais grossas, algumas cobrindo até a cabeça, para suportar a água sempre muito fria de El Gringo. Franklin achou um bom tubo na sua primeira onda para derrotar mais dois peruanos por 7.73 pontos, contra 7.03 de Lucca Mesinas e 5.40 de Cristobal de Col, eliminado junto com o havaiano Ian Gentil que não conseguiu sair de nenhum tubo.

“Eu nunca tinha vindo antes pra cá e está sendo mágico, é uma onda incrível”, disse Franklin Serpa. “Apesar das ondas terem diminuído, acredito que amanhã e depois vão ficar bem legais. Aqui é totalmente diferente de onde eu venho, pois tem que ter botinha, roupa grossa, que nunca uso lá no Brasil. A gente fica mais duro, é mais difícil de firmar o pé na prancha, mas é uma onda incrível. É tubo pra esquerda, que eu gosto muito, então estou feliz por ter achado um tubo ali no começo que não podia errar, pois não tinham muitas chances pra surfar”.

Doze países na briga A histórica décima edição do Maui and Sons Arica Pro Tour QS 3.000 by Jeep começou na terça-feira com 112 surfistas de 20 países e chega no fim de semana, que promete ser de altos tubos em El Gringo, com 32 concorrentes ao título de 12 nações. O único chileno é Danilo Cerda, que está na quinta bateria com o brasileiro Lucas Silveira, o americano Nolan Rapoza e o francês Gatien Delahaye, campeão do QS 3.000 do Peru em Punta Hermosa.

A maioria dos classificados é do Brasil, nove no total com o atual campeão, Jerônimo Vargas, que vai fazer sua segunda defesa do título na sétima bateria, contra o baiano Franklin Serpa, o californiano John Mel e Carlos Munoz, da Costa Rica. Os norte-americanos, com cinco surfistas, formam o segundo maior pelotão entre os 32 melhores, seguido pelo Peru e Austrália com quatro cada um, Havaí e França com dois e mais seis países ainda estão na briga do título com um representante, Chile, Argentina, Espanha, Nova Zelândia, Costa Rica e Taiti.

O argentino é Leandro Usuña, único não brasileiro a conquistar o título sul-americano da WSL South America, em 2016. Ele estreou na primeira bateria da sexta-feira de ondas pequenas e que aumentam o perigo para competir em El Gringo, formando muito mais próximas da bancada de pedras que não admite erros. Leandro achou um tubaço que valeu nota 6,0 na única onda que completou e foi suficiente para vencer por 6,67 pontos. O brasileiro Lucas Silveira passou em segundo com 5,77, eliminando o australiano Hinata Aizawa e o último surfista que veio do Japão para desafiar El Gringo, Shun Murakami.

“É bom começar com o pé direito, passando a primeira bateria”, disse Leandro Usuña. “Estou há muito tempo esperando para vestir a lycra de competição e essa é uma onda que eu gosto bastante. É um dos melhores tubos do mundo, mas quando as ondas estão pequenas assim na maré cheia, fica muito mais perigoso em El Gringo. Pelo menos, já passei por isso e agora é olhar pra frente, porque pretendo passar mais baterias nos próximos dias”.

O Maui and Sons Arica Pro Tour QS 3.000 by Jeep está sendo transmitido ao vivo pelo site da WSL e o show nos tubos de El Gringo continua neste sábado, com o primeiro confronto da fase dos 32 melhores devendo começar mais cedo, às 8 horas no Brasil.

Maui and Sons Arica Pro Tour 2019
Quarta fase

1 Weslley Dantas (BRA), Dean Bowen (AUS), Dusty Payne (HAV), Imaikalani Devault (HAV)
2 Alonso Correa (PER), Pedro Dib (BRA), Tyler Gunter (EUA), Elliot Paerata-Reid (NZL)
3 Aritz Aranburu (ESP), Max Kearney (AUS), Skip McCullough (EUA), Samson Coulter (AUS)
4 Ian Gouveia (BRA), Wiggolly Dantas (BRA), Leo Casal (BRA), Luke Gordon (EUA)
5 Danilo Cerda (CHL), Lucas Silveira (BRA), Gatien Delahaye (FRA), Nolan Rapoza (EUA)
6 Leandro Usuña (ARG), Vitor Mendes (BRA), Mihimana Braye (TAH), Sandon Whittaker (AUS)
7 Jerînimo Vargas (BRA), Franklin Serpa (BRA), Carlos Munoz (CRI), John Mel (EUA)
8 Miguel Tudela (PER), Lucca Mesinas (PER), Joaquin del Castillo (PER), Kauli Vaast (TAH)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.