Circuito Banco do Brasil

Navarro brilha com high scores

Defensor do título, Matheus Navarro anota 17.00 pontos com duas notas excelentes e comanda dia de estreias no QS 6.000 da World Surf League na Praia da Vila, Imbituba (SC).
Circuito Banco do Brasil 2026, Praia da Vila, Imbituba (SC)

O Circuito Banco do Brasil de Surfe – Etapa Imbituba teve sequência com mais um dia de high scores nesta quinta-feira na Praia da Vila (SC). Até o dia 29 de março, a cidade catarinense recebe a primeira etapa da temporada com status QS 6.000 da World Surf League, marcando também o início do calendário 2026/27 da WSL South America.

Depois de completar os quatro confrontos pendentes da Rodada dos 96 do masculino, o evento seguiu com as 16 baterias do Round dos 64 e estreia dos cabeças de chave nas esquerdas de meio metro perfeitas. O feminino não vestiu a lycra neste segundo dia de evento.

A próxima chamada está programada para esta sexta-feira (27), às 7h30, para possível reinício às 8h com o Round dos 32 do masculino, seguido pela Rodada das 16 do feminino.

Matheus Navarro tem performance impecável

O mar apresentou uma leve queda no início da manhã, mas as esquerdas continuaram longas e lisas no point break de Imbituba. Com a entrada dos cabeças de chave e ex-integrantes do Championship Tour (CT) da WSL, o Round of 64 passou a contar com baterias de 30 minutos, elevando ainda mais o nível técnico da competição.

Defensor do título da etapa, Matheus Navarro (BRA) abriu sua participação de forma dominante na quarta bateria da fase. Logo em sua primeira onda, o catarinense ditou o ritmo ao surfar de backside e conectar nada menos que nove manobras fluidas para garantir 9.00 pontos. Na sequência, ainda adicionou um 8.00 ao somatório, tornando-se o primeiro surfista do evento a registrar duas notas na casa da excelência no mesmo confronto, e fechar com 17.00 pontos no somatório final.

“Feliz demais. Cheguei muito bem e fazia tempo que eu não surfava aqui, desde a final do ano passado. Minha primeira onda foi na primeira bateria, e consegui abrir com high score. Fiquei assistindo o evento ontem e preferi não fazer freesurf por causa do crowd, mas sabia que a onda estava perfeita, então não tinha muito mistério. Começar com o pé direito assim é incrível. Ano passado eu venci o campeonato, mas não fiz nenhuma bateria perto dessa, sem dúvida uma das melhores dos últimos anos”, afirmou.

Competindo com uma prancha semelhante à do título de 2025, Navarro optou por um modelo 5’10 para ganhar mais pressão nas manobras de backside. “Meu surfe de backside é mais de rasgada e batida, então uma prancha um pouco maior me dá mais pressão. Ano passado usei 5’9 nas direitas, agora fiz esse ajuste”, explicou. “Muito feliz por surfar nessas condições, é só o começo”, completou.

Ex-CTs estreiam e catarinenses seguem vivos na disputa

Um pouco antes, a abertura do Round dos 64 colocou frente a frente os irmãos Wiggolly Dantas (BRA), ex-integrante do CT, e Weslley Dantas (BRA), campeão sul-americano da temporada 2025/26 e já garantido no Challenger Series 2026. No entanto, quem roubou a cena foi o catarinense Derek Adriano (BRA).

Com leitura precisa e excelente aproveitamento das melhores ondas, Derek assumiu a liderança logo nos primeiros minutos, deixando os irmãos na disputa pela segunda colocação. Com notas 8.00 e um sólido 7.67, ele garantiu a vitória em um dos confrontos mais aguardados da rodada, enquanto Weslley, defensor do título do Circuito Banco do Brasil de Surfe, também avançou.

“Fui agraciado com essa primeira onda. Quando vi o Weslley, o Wiggolly e o Cauê Germano indo mais para o lado da ilha, acabei ficando e Deus me abençoou com uma esquerda perfeita. Abri a bateria muito bem e isso me deu tranquilidade”, contou.

“Eu tinha observado antes que as séries estavam demorando entre seis e sete minutos para entrar, mas, como sempre faço, agradeço a Deus porque já veio uma onda no primeiro minuto da bateria, uma das melhores. No final, ainda peguei uma esquerda melhor para fazer um 8 e avançar em uma bateria muito difícil e importante para mim”, completou.

Outro destaque foi o retorno de Alex Ribeiro (BRA), que usou sua experiência de ex-elite da WSL para avançar na bateria 13 do Round of 64 mesmo voltando de lesão.

“Estou muito feliz por ter passado essa bateria. Garanti a liderança logo nas duas primeiras ondas. Ainda não estou 100% da lombar, estou me cuidando e nem estava treinando. Esse foi o primeiro surfe em que não senti nada”, afirmou.

Entre os demais classificados, que já tiveram seus nomes estampados nas lycras do primeiro pelotão do surfe mundial, estão Tomas Hermes (BRA), que fechou o oitavo embate da Rodada dos 64 com duas notas na casa dos 7.00 pontos; Jadson André (BRA), com um surfe progressivo e uma rabetada na junção que rendeu 8.00 pontos; Michael Rodrigues (BRA), também somando duas sólidas ondas acima dos 7.00 pontos; além de Peterson Crisanto (BRA), Edgard Groggia (BRA) e Deivid Silva (BRA), que confirmaram presença na próxima fase. Já Ian Gouveia (BRA) se despediu da competição.

Representando a força local catarinense, Lucas Vicente (BRA) e Heitor Mueller (BRA) seguem vivos na disputa e garantiram vaga no Round dos 32.

E faltando apenas uma bateria para o encerramento do dia, Pedro Dib (BRA) foi surpreendente ao somar 16 pontos dos 20 possíveis, registrando assim o segundo maior somatório do dia, e o terceiro maior do evento até o momento. Numa disputa direta com Caio Costa (BRA), que também achou um excelente 8.13, a dupla seguiu firme na competição. No total, nesta quinta-feira, sete atletas anotaram notas maiores que 8 pontos na Praia da Vila.

Ações ambientais e ativações fora d’água continuam agitando o público na Vila

Mais do que um campeonato, o Circuito Banco do Brasil de Surfe 2026 também reforça seu compromisso com o meio ambiente. Em Imbituba, a baleia franca – símbolo desta etapa e presente no pôster oficial – representa a conexão entre o surfe e a vida marinha. Em parceria com o Instituto Australis, o evento promove ações de educação ambiental, envolvendo centenas de alunos de escolas públicas e destacando a importância da preservação dessa espécie tão emblemática do litoral brasileiro. Um encontro entre esporte, arte e consciência ambiental dentro e fora d’água.

“É muito importante trabalhar a educação ambiental com crianças, adultos, surfistas e todo o público presente no evento. Essa baleia tem uma curiosidade muito especial: ela costuma se aproximar bastante da arrebentação e, no inverno, conseguimos vê-la bem perto dos surfistas, muitas vezes ‘dividindo’ as ondas e interagindo com o mar de forma única”, destacou Gabriele Praisner, coordenadora de educação ambiental da ProFRANCA.

Além dessa ação, o evento ainda contou com outras atividades para o público presente nas areias da Praia da Vila ao longo do dia, como o Funcional by Red Bull, a Red Bull Experience (event car com DJ + tenda aranha), aulas de Beach Tennis e Altinha by Banco do Brasil, além de aluguel de cadeiras e guarda sol. Na sexta-feira os fãs de surfe presentes em Imbituba poderão conferir novamente todas as atividades.

O Banco do Brasil celebra 35 anos de apoio ao esporte, destacando o surfe como uma modalidade alinhada aos seus valores de conexão, inclusão e sustentabilidade. Em parceria com a World Surf League, o Circuito Banco do Brasil de Surfe se consolidou como uma das principais plataformas de desenvolvimento da modalidade no país, abrindo caminho para atletas alcançarem o cenário internacional. Após o sucesso de 2025, o evento retorna ainda mais robusto, reunindo alguns dos principais nomes do surfe sul-americano em um dos picos mais tradicionais do Brasil com o slogan “Pra Quem Sonha Grande!”

Assista ao vivo

O Circuito Banco do Brasil de Surfe – Etapa Imbituba QS 6,000 faz parte do Qualifying Series (QS) 2026 da WSL South America e tem o patrocínio do Banco do Brasil, Prefeitura de Imbituba, Red Bull e com mídia oficial oferecida pela NSC Esporte, Terra e com transmissão ao vivo pelo site da WorldSurfLeague.com, app da WSL e canal de YouTube da WSL.

Sobre a WSL – A World Surf League (WSL) é a casa do surf competitivo no planeta, coroando campeões mundiais desde 1976, apresentando os melhores surfistas do mundo. A WSL supervisiona o cenário competitivo global do surf e estabelece o padrão para o desempenho de alta performance no ambiente mais dinâmico de todos os esportes. Com um firme compromisso com os seus valores, a WSL prioriza a proteção do oceano, a igualdade de gêneros e a rica herança do esporte, ao mesmo tempo que destaca a progressão e a inovação.

Resultados desta quinta-feira do Circuito Banco do Brasil 2026
Baterias pendentes do round dos 96 Masculino

13 Ryan Martins (BRA) 10.26, Cauet Frazão (BRA) 7.53, João Victor Scharnovski (BRA) 6.07, Moa Soares (BRA) 4.07

14 Nacho Gundesen (ARG) 12.73, Cauã Gonçalves (BRA) 10.67, Lautaro Rojas Thill (ARG) 5.37, Renaro Hubbe (BRA) 5.27

15 Pedro Dib (BRA) 12.77, Guilherme Lemos (BRA) 11.10, Leon De La Torre (CHI) 6.80, Luca Chipoco (PER) 6.17

16 Matheus Neves (BRA) 12.17, Leo Andrade (BRA) 8.73, Pol Huguet (PER) 7.96, João Carlos Ely (BRA) 5.93
Round dos 64 Masculino

1 Derek Adriano (BRA) 15.67, Weslley Dantas (BRA) 12.27, Wiggolly Dantas (BRA) 8.56, Kaue Germano (BRA) 7.93

2 Lucas Vicente (BRA) 10.13, Daniel Templar (BRA) 9.33, Diego Aguiar (BRA) 8.10, Patrick Plachi (BRA) 7.17

3 Cauã Costa (BRA) 12.54, Peterson Crisanto (BRA) 12.16, Takeshi Oyama (BRA) 9.83, Riomar Rodrigues (BRA) 8.60

4 Matheus Navarro (BRA) 17.00, Rafael Teixeira (BRA) 12.43, Douglas Silva (BRA) 9.60, Bastian Pierce (PER) 4.57

5 Gabriel Klaussner (BRA) 10.40, Rodrigo Saldanha (BRA) 8.40, Miguel Tudela (PER) 7.43, Walley Guimarães (BRA) 6.04

6 Ryan Kainalo (BRA) 11.47, Israel Junior (BRA) 9.40, Sunny Pires (BRA) 8.10, Sean Goldszmidt (PER) 5.37

7 Michael Rodrigues (BRA) 14.10, Gabriel Andre (BRA) 13.66, Igor Moraes (BRA) 12.47, Samuel Joca (BRA) 10.13

8 Tomas Hermes (BRA) 14.97, Bino Lopes (BRA) 13.50, Lucas Haag (BRA) 11.73, Ian Gouveia (BRA) 11.13

9 Daniel Adisaka (BRA) 13.24, Deivid Silva (BRA) 11.56, Martin Ottado (URU) 10.93, Reimundo Berry (CHI) 7.96

10 Lucas Silveira (BRA) 13.80, Renan Peres Pulga (BRA) 13.16, Wesley Leite (BRA) 12.77, Gustavo Ramalho (BRA) 8.34

11 Alonso Correa (PER) 14.60, Luan Wood (BRA) 13.73, Anuar Chiah (BRA) 11.30, Marco Giorgi (URU) 7.37

12 Vitor Ferreira (BRA) 14.67, Rickson Falcao (BRA) 14.13, Facundo Arreyes (BRA) 12.00, Roberto Araki (CHI) 11.94

13 Alex Ribeiro (BRA) 12.47, Ryan Martins (BRA) 12.24, Rafael Barbosa (BRA) 10.97, Cauã Gonçalves (BRA) 9.74

14 Jadson Andre (BRA) 12.84, Heitor Mueller (BRA) 10.90, Nacho Gundesen (ARG) 8.96, Cauet Frazão (BRA) 8.50

15 Pedro Dib (BRA) 16.00, Caio Costa (BRA) 14.53, Franco Radziunas (ARG) 10.40, Leo Andrade (BRA) 10.13

16 Guilherme Lemos (BRA) 12.94, Edgard Groggia (BRA) 12.90, Matheus Neves (BRA) 12.77, Thiago Passeri (ARG) 12.53

Round dos 32 Masculino

1 Derek Adriano (BRA), Lucas Vicente (BRA), Peterson Crisanto (BRA), Rafael Teixeira (BRA)

2 Weslley Dantas (BRA), Daniel Templar (BRA), Cauã Costa (BRA), Matheus Navarro (BRA)

3 Gabriel Klaussner (BRA), Ryan Kainalo (BRA), Gabriel Andre (BRA), Bino Lopes (BRA)

4 Rodrigo Saldanha (BRA), Israel Junior (BRA), Michael Rodrigues (BRA), Tomas Hermes (BRA)

5 Daniel Adisaka (BRA), Lucas Silveira (BRA), Luan Wood (BRA), Rickson Falcão (BRA)

6 Deivid Silva (BRA), Renan Peres Pulga (BRA), Alonso Correa (PER), Vitor Ferreira (BRA)

7 Alex Ribeiro (BRA), Jadson Andre (BRA), Caio Costa (BRA), Edgard Groggia (BRA)

8 Ryan Martins (BRA), Heitor Mueller (BRA), Pedro Dib (BRA), Guilherme Lemos (BRA)
Round dos 16 Feminino 

1 Arena Rodriguez (PER),. Sofia Artieda (PER), Sophia Medina (BRA), Victoria Muñoz Larreta (ARG)

2 Isabelle Nalu (BRA), Camila Sanday (PER), Tainá Hinckel (BRA), Luara Mandelli (BRA)

3 Daniella Rosas (PER), Sophia Goncalves (BRA), Silvana Lima (BRA), Luiza Teixeira (BRA)

4 Sol Aguirre (PER), Alexia Monteiro (BRA), Laura Raupp (BRA), Melanie Giunta (PER)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.