Museu do Surfe

Koxa e Nazaré: um capítulo histórico

Coluna Museu do Surfe, de Gabriel Pierin e Diniz Iozzi, conta trajetória de Rodrigo Koxa, recordista mundial de ondas grandes em 2017 e que possivelmente repete dose em 2025.

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No dia 19 de dezembro de 2025, em Nazaré, Portugal, Rodrigo Augusto do Espírito Santo, o Koxa, voltou a colocar seu nome no centro mundial das ondas gigantes. O brasileiro surfou uma montanha d’água estimada em 95,64 pés (29,15m) — medida ainda em processo de validação, mas suficiente para reacender a possibilidade de um novo recorde mundial.

Caso se confirme, Koxa supera a marca de Sebastian Steudtner (26,21m, de 2020) e retoma o posto que já foi seu em 2017, quando entrou para o Guinness Book com uma onda de 80 pés.

A trajetória dele começou muito longe de Nazaré. Os pais, Sandra Regina e Hélio do Espírito Santo, economistas, se conheceram em Jundiaí e mudaram para São Paulo, onde dividiam o ritmo intenso da Bolsa de Valores. Nos fins de semana, trocavam as cotações pelo mercado imobiliário, aproveitando o boom do Guarujá para comprar, reformar e vender apartamentos.

Koxa tinha 5 anos quando frequentava o apartamento do avô, na praia do Embaré, em Santos. A mãe, apaixonada pelo mar, arrastava o menino para dentro d’água. Seu tio Paulinho, piloto de motocross e enduro, aparecia com uma prancha velha para se aventurar em ondas pequenas. Não era surfista, mas abriu uma porta que Koxa atravessou para nunca mais voltar.

O futebol, porém, veio primeiro. Incentivado pelo pai, que jogou no aspirante de Jundiaí, Koxa cresceu batendo bola, apaixonado. Uma paixão que nunca passou. Essa mistura de futebol e surfe moldou o personagem que ele se tornaria — um atleta de mar e de terra, sempre vibrante e ligado à comunidade.

O surfe competitivo apareceu cedo. Porém, foi aos 15 anos, numa viagem a Puerto Escondido, no México, que descobriu sua vocação. Ali conheceu os big riders que surfavam tubos gigantes sem leash, com pranchas simples e muita atitude. Desde então, dedicou-se a ondas grandes na remada em lugares clássicos como Pipeline, Mavericks, Jaws e a própria Porto Escondido, até migrar com mais força para o tow-in a partir dos 20 anos.

A transição trouxe eficiência e segurança — e exigiu maturidade. “Com o jet ski, você tem sua vida e a do outro nas mãos”, afirma. No tow-in, cada detalhe técnico importa: o novo recorde foi conquistado sobre a prancha Akiwas 5’10’’ de 9,5 kg, uma quadriquilha de alta performance, ao wetsuit Yuki Brand, feito sob medida com borracha japonesa, capaz de suportar os 6 a 10 graus da água de Nazaré e acomodar o colete inflável com quatro botijas de CO₂, e ao jet ski de hélice dupla, um dos cinco do time GoBigger.

Nada disso funciona sem equipe. E aí entra a figura central de Vitor Faria, piloto e parceiro de Koxa há 25 anos — a dupla mais longeva de Nazaré. Juntos desde 2000, criaram uma linguagem própria de leitura do mar e tomada de decisão. No dia da possível maior onda da história, a estratégia estava clara: esperar a terceira da série, quando o fenômeno de Nazaré costuma produzir a parede perfeita. O mar reunia todas as condições desejadas: maré seca enchendo, vento norte terral e uma sequência rara de três ondas encaixadas.

O momento decisivo coube ao piloto, com a ajuda da esposa de Vitor, a Laura, spotter do time, que orientou no posicionamento correto. “O Vitor fez uma puxada de excelência. Se não fosse aquilo, eu não faria a onda”, diz Koxa. A dupla acelerou no limite, entrou no timing exato e cruzou o ponto crítico onde a água branca das duas primeiras ondas não apagaria a terceira. O resultado foi a descida em uma face quase impossível, que agora passa pelos processos técnicos de medição.

Aos 46 anos, Koxa diz que não teme o risco, mas sim o oposto: “A gente não surfa com medo de morrer. A gente surfa com medo de não viver”.

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Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi – o Pardhal.