Leitura de Onda

O novo Gabriel é ainda melhor

Tulio Brandão explica o papel da felicidade na avassaladora vitória de Gabriel Medina em North Narrabeen.
Gabriel Medina, Narrabeen Classic 2021, Sidney, Austrália

“Eu quero surfar mais.
Acho que estava pensando muito em estratégias.
Me sinto bem em poder surfar mais.”

A declaração de Gabriel Medina, dada na entrevista oficial depois da fabulosa recuperação contra Morgan Cibilic, é a síntese mais precisa do evento de Narrabeen e, claro, de seu incontestável vencedor, o feliz Gabriel Medina.

O padrasto Charles jamais poderá ser esquecido. Forjou, a fórceps, um surfista praticamente invencível, usando como matéria-prima um menino talentoso de Maresias que vivia numa família em circunstâncias econômicas desfavoráveis. Usou os recursos de que dispunha – disciplina, determinação e um foco obsessivo – para romper, ao lado do filho, o muro alto que separava o Brasil de seu primeiro título mundial. Seguiu ao lado dele por anos, e foi decisivo também no bi.

Mas os filhos ganham asas – esta aí a grande recompensa da paternidade. E voam, muitas vezes ao lado de novas companhias – no caso, da mulher Yasmin Brunet. Sem a tutoria da família, filhos costumam escolher novos caminhos, muitas vezes mais inteligentes. Filhos são a nossa evolução, nossa próxima fase civilizatória.

Foi o que Gabriel fez. Abandonou corajosamente a cultura obsessivamente competitiva em que foi criado (e que lhe rendeu títulos, sem dúvida), chamou um técnico novo, Andy King, com quem tem uma troca de informações proveitosa e parece ter resolvido se reconstruir, de um jeito mais orgânico, mais leve e mais feliz.

A serenidade dentro d’água, marcada pela desistência na disputa da primeira prioridade em baterias e pela abordagem mais desapegada às ondas, é só um dos sintomas. A disposição de atender aos fãs, as respostas relaxadas em entrevistas, as resenhas e cervejas com amigos do Tour e o amor pela mulher, Yasmin, compõem a realidade deste tal novo Gabriel.

Sai o circunspecto “eleito de Deus”, entra um surfista maduro, pleno, absolutamente consciente de suas possibilidades. Ainda religioso, claro, mas aparentemente disposto a viver a felicidade sem expectativa descrita pelo filósofo André Comte-Sponville:

“Como eu seria feliz se fosse feliz!”. Esta fórmula de Woody Allen talvez diga o essencial: estamos separados da felicidade pela própria esperança que a persegue. A sabedoria, ao contrário, seria viver de verdade, em vez de esperar viver. (…). Só teremos felicidade à proporção da desesperança que seremos capazes de atravessar. A sabedoria é isso mesmo: a felicidade, desesperadamente.

Demorei para entrar no evento por uma razão: é a felicidade o que explica todos os contornos da vitória de Gabriel em Narrabeen e a liderança isolada no ranking mundial, ou melhor, na corrida por uma vaga para a decisão do circuito, em Trestles.

O caminho até o título

A história é contada de trás para frente. Começo pela final, contra o americano Conner Coffin, quando Gabriel reuniu todos os atributos que mostrou, em pílulas, durante o evento. Foi avassalador. A 21 minutos do fim, estava tudo resolvido – ele já havia surfado a segunda nota acima de nove pontos. Todos sabiam que seria impossível, naquele mar, um surfista sem manobras aéreas igualar as notas do brasileiro.

Afinal, o surfe não tem handicap, que no golfe, por exemplo, permite a jogadores de níveis distintos competirem entre si através de uma espécie de marcador que compensa diferenças técnicas.

Coffin é um bom surfista de linha, mas esteve longe da lista dos melhores do evento. Perdeu a primeira fase. Na repescagem, passou raspando em segundo, derrotado por Alex Ribeiro. No round de 32, contra o australiano Wade Carmichael, que é uma versão menos penteada e mais divertida do americano, quase perdeu novamente.

Arrastou-se, portanto, até a bateria contra Italo, em que passou de nove pontos no somatório pela primeira vez na prova. Fez um medíocre 11,47, o que seria insuficiente numa comparação justa entre as ondas dos dois surfistas, mas não para os juízes da prova, que tinham outros planos – trato disso mais adiante. Dali, ganhou confiança e fez duas boas baterias, contra Kanoa Igarashi e Griffin Colapinto, até a final.

O americano Colapinto, aliás, seria um finalista mais interessante. Embora também tenha vencido uma bateria duvidosa, contra Adriano de Souza, surfou mais que o conterrâneo – eliminando, no caminho, um Yago Dora em grande fase, nas quartas.

Gabriel, por outro lado, caminhou em modo de cruzeiro até as oitavas de final, quando começou a produzir notas excelentes. Assombrou contra Caio Ibelli, Morgan Cibilic e, na final, contra Coffin, quando atingiu seu pico de desempenho.

Na semifinal, surfou bem contra o sempre “encardido” Frederico Morais, mas precisou de uma colher de sopa da velha estratégia dos tempos de Charles, ao usar a prioridade para marcar a remada do português de perto.

Cibilic vai brigar pelo top 5

Morgan Cibilic é a maior surpresa do ano, de longe. O estreante, de 21 anos, entrou na 11ª e penúltima vaga da divisão de acesso de 2019, sem vencer qualquer prova do QS. Mas a história está escondida na evolução do garoto: no ano anterior, em 2018, mesmo competindo em toda a temporada, o australiano ficou fora da lista dos 100 primeiros do ranking da segunda divisão. E, em 2021, no primeiro ano da elite, já venceu o bicampeão do mundo John John Florence duas vezes.

Nas três etapas disputadas (Pipe, Newcastle e Narrabeen), só foi derrotado para o atual líder do ranking, Gabriel. Mas Cibilic não parece ter se afetado pelo desafio de ter o seed baixo (ao ocupar a penúltima vaga do acesso) e, por isso, sempre ser obrigado a cruzar com os melhores do mundo pelo caminho.

Nas duas etapas já realizadas na Austrália, surfou bem, mesmo contra o brasileiro. Só foi derrotado porque, em ambas as ocasiões, seu oponente tirou da cartola uma daquelas mágicas raras, que só os juízes não viram notas máximas.

Seu surfe é leve, fluído e vertical, embora ainda tenha pontas soltas. Mas, a julgar pelos resultados recentes, não é apenas sobre a técnica de Cibilic, mas também sobre sua capacidade competitiva, força mental e concentração para confrontar campeões.

Não será surpresa vê-lo dentro d’água em Trestles. Hoje, já ocupa a sexta posição.

Italo e o banheiro químico

“Ahhhhhhhhhhhh! Eu consegui!”

Italo tinha acabado de vencer o tricampeão mundial Mick Fanning em sua onda favorita, a deitada Bells. Era a sua primeira vitória no circuito mundial, seja na elite ou na divisão de acesso. Com uma alegria incontida, entrou num banheiro químico do evento e explodiu, sem saber que tudo era registrado.

O videojornalista People on Tour fez um dos vídeos de bastidores mais sublimes da história recente da WSL, e o surfista expressava ali, pela primeira vez ao mundo, a felicidade (olhe ela aí) que serviria como uma importante usina de suas vitórias.

Em 2021, com um título mundial e sete vitórias de etapas no bolso, reconhecido pelo poder de seu surfe e pela infinita capacidade competitiva, Italo toma a primeira grande banda – não da onda, mas do painel de juízes do WCT.

Não será a última, é preciso dizer.

A discussão poderia girar em torno da aterrissagem do full rotation, ou de quanto tempo ele ficou em pé na onda até ser derrubado pela espuma.

O debate poderia se estender pelo critério torto de julgamento utilizado na esquerda que foi desfigurada por uma sublime rasgada com bordas enterradas do brasileiro. Ou poderia seguir pela simples, mas notável diferença de performance entre os dois surfistas ao longo de toda a bateria.

Mas não. Esgotados os argumentos, não se trata disso. Italo perdeu porque foi julgado, como diz um amigo, com o sarrafo alto de um líder que parecia imparável. Italo perdeu porque tinha um alvo pintado em suas costas, e muita gente com a mira apontada para ele. O showman estava irremediavelmente obrigado a dar espetáculo em todas as baterias – se vacilasse, se brilhasse um pouco menos, estaria fadado a ser derrotado.

Se é justo? Claro que não, mas nada é mais real. Juízes, por mais que se esforcem em busca da precisão, não são sempre máquinas de produzir resultados corretos. E, neutralidade, como se diz no jornalismo, é como uma cenoura na frente do burro: você jamais a alcançará, mas só sairá do lugar se passar a vida tentando comê-la.

A Italo, restou fazer a boa política, depois de um justificado acesso de fúria, que lhe custou uma boa Timmy Patterson: no dia seguinte, apaziguou a relação para seguir adiante, consciente de que no caminho, não apenas as espumas lhe darão bandas.

No mais, é jamais perder de vista o Italo daquele banheiro químico de Bells.

Antes do fim, vale dizer que o julgamento em Narrabeen foi especialmente infeliz, não apenas com Italo. Houve uma sucessão de erros, contra surfistas de todas as nacionalidades, além de critérios confusos e randômicos.

Deivid Silva não quebrou sua prancha

Uma das vítimas do julgamento nas duas etapas australianas foi o bom Deivid Silva. Em Newcastle, perdeu justamente para Italo nas quartas, numa bateria que poderia tranquilamente ter ido para o goofy do Guarujá.

Em Narrabeen, quem o derrotou com méritos duvidosos foi Kanoa Igarashi. O nipo-americano erra no surfe de borda e abusa de manobras com o fundo da prancha, mas a WSL parece ignorar esta lacuna. Pontua-o como se seu surfe não tivesse falhas – não sei se por erro técnico ou pela importância de ter seu protagonismo acentuado no ano em que os Jogos Olímpicos serão realizados no Japão.

Yago, Miguel e Filipe

Dois surfistas dignos de nota: Yago Dora e Miguel Pupo. Ambos estão tecnicamente em grande forma, são reconhecidos por suas linhas finas e com transições limpas, mas perderam baterias que poderiam ganhar, em fases distintas.

No round de 32, contra um pouco inspirado John John Florence, Miguel teve a vitória nas mãos, ao remar com prioridade numa das melhores ondas do dia. Surfou-a com uma linha sofisticada, irrepreensível, mas com certa falta de contundência e pressão. Foi punido (mais uma vez) com uma nota insuficiente, embora seu surfe seja uma unanimidade inclusive entre os comentaristas estrangeiros.

A derrota foi tão sofrida que, depois que soou a sirene, permaneceu na água, com a lycra de competição, no mar, por horas, em reflexão.

Já Yago foi até as quartas de final, o que ele poderia considerar um bom resultado. Sim, um quinto lugar pode ser útil a uma temporada tão distinta, mas ainda está bem abaixo das possibilidades do surfista.

Há uma certeza: ambos podem brigar por pódios e vitórias, na parte de cima da tabela.

Filipe Toledo, que já acumulou muitos pódios e vitórias, é um dos únicos do mundo que poderia ter rivalizado com Gabriel pelo título da etapa. Perdeu para Federico, nas oitavas, num mar absolutamente afeito às suas melhores manobras.

Seria incompreensível vê-lo fora de Trestles. Neste momento, está em oitavo, fora da lista dos cinco contemplados com o convite para a decisão. É hora de trabalhar.

Sobre Margaret River

Na próxima etapa, John John Florence terá a sua grande chance de dizer ao mundo o que foi fazer na Austrália. Também vale atenção ao surfe de Jack Robinson, a partir deste ano um dileto integrante da elite, na onda de The Box. É bom mesmo os rivais acelerarem, porque Gabriel e Italo já estão fazendo a primeira curva.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.