Bahia é a boa

Fabio Gouveia comanda barca pelas hospitaleiras ondas do litoral norte baiano.

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Galera prestes a dar mais uma queda na Praia de Busca Vida.

“É o quê meu fio, é o quê?”

Com o ano de viagens comprometido e algumas de nossas trips canceladas, eis que surge a oportunidade de fazermos a primeira Barca do Fia dentro do nosso território nacional. A praia de Busca Vida, no litoral norte baiano, foi a escolhida.

Proprietário do Bahia Surf Camp, Roberto Dias, mais conhecido como Betão, nos recebeu de braços abertos. Tivemos uma semana maravilhosa de muito surfe e diversão com o grupo formado por uma galera que já havia participado de barca anteriores.

O litoral nordestino é sinônimo de vento maral – e normalmente de intensidade forte. Logo, a esperança pelo terral era uma constante, e isso virou sinônimo de brincadeira. Mas, mesmo em época não propícia, com sorte, o famoso terral pode aparecer.

No entanto, nesta semana o vento fez “carreira”, mas tivemos horas preciosas surfadas com direito até a belos arco-íris. A bancada de Busca Vida é um mix de fundo de areia e laje de pedras chapadas em frente ao BSC (Bahia Surf Camp), mas outras valas ficam distribuídas ao longo da praia deste grande condomínio.

Gustavo Camerino faz bom proveito das ondas do pico.

E foi em uma dessas valas alternativas que vimos um tubo quadrado para a direita soltar um spray comprimido, mostrando o quanto esta onda poderia ser forte. “É isso galera, daqui de fora analisamos um tamanho. Parece fácil, mas não se enganem, a onda que estamos vendo é mais forte e maior do que parece daqui de fora”, alertei o pessoal.

Com o grupo dividido entre surfistas iniciantes, intermediários e avançados, a semana prometia. Os integrantes da barca foram Luiz Rodarte (São Paulo), Osmar Souza (Brasília), Eric Meyer (Santa Catarina) e Marcelo Pretto (Santa Catarina).

Acompanhando a viagem, José Eduardo (São Paulo), parceiro e proprietário da Dreamsurf. De Salvador, Luiz Eduardo juntou-se a nós por alguns dias durante a semana. Já para o “day use” vieram Gustavo Camerino (Bahia) e Fernando Esteves (Rio de Janeiro), mais conhecido como Fernandinho do Leme.

A primeira session foi um pouco complicada, pois tirar o ranço da viagem nem sempre é tarefa simples. Uns cansados e outros um pouco fora de forma. Marcelo Pretto, de posse de uma pranchinha mais volumosa, foi o que pegou mais ondas, mas aos poucos todos foram se soltando.

Na sequência, nossa primeira refeição já dava sinais do que que seriam os próximos dias. A chef Rita Sartório preparou um menu especial: Bobó de Camarão! “Êita mainha!”

Bahia Surf Camp recebe a turma de braços abertos.

Quem cedo madruga faz a mala. E, depois da chuva, apareceu o terral! Quem acreditou usufruiu de uma hora mágica em nossa primeira manhã, com direito a zoação aos que não compareceram. Mas nem tudo estava perdido. Conhecedor que é, Betão, CEO do BSC, já deu a dica: “Galera, lá para o meio do dia o tempo vai dar uma ‘escaldada’ e o vento vai melhorar”. Dito e feito! O surfe foi massa e todos compareceram. Destaque para a temperatura da água, que era sempre convidativa.

À noite resenha durante o jantar e a maioria dormiu cedo, pois o dia havia sido longo e movimentado. Na ansiedade pelo terral a turma despertou cedo, mas o vento mais uma vez soprou forte que “só a bixiga”. Não lembro se alguém caiu nessa hora, mas após o café da manhã chegaram nossos amigos para o day use. Gustavo Camerino e Fernandinho, que trouxe a esposa Kim Adam e a filhota Liz. Uma chuva forte entrou e ficamos receosos que aquele não fosse o dia propício para os amigos comparecerem.

No entanto, aquela esperada pela “escaldada” do tempo deu certo, e aos poucos o sol foi aparecendo. Ainda rolou piscina para a pequena Liz, e ela logo arrumou um tio recreador, pois Luiz Rodarte tinha o dom de botar as crianças para brincar. Ao final da manhã, todos foram para a água. Como ainda não poderia surfar devido à recuperação de uma cirurgia no joelho, lá estava eu acompanhando as performances da galera e gravando a session com minha “GoProsinha” velha de guerra. E o mar estava forte, com algumas séries de 1 metrão e meio e momentos de tubos esporádicos.

E nossos amigos foram agraciados. Gustavo Camerino pegou a maior do dia, enquanto Fernandinho achou o barrel. A interação da galera com a turma local também não poderia ter sido melhor, fizemos novas amizades e nos divertimos muito. E aí valeu a máxima da hospitalidade baiana e dos surfistas locais de Busca Vida. Dos que me lembro, Ticiano e Tony quebraram a vala e nos mostraram as diretrizes do pico.

Marcelo Pretto em sintonia com o belo visual do litoral norte baiano.

No dia seguinte, fizemos nossa primeira saída para a Praia do Forte, famoso pico do litoral baiano. Uma chuva torrencial nos recebeu no desenrolar das fitas do rack, e isso inicialmente bagunçou o mar. Mas logo a expectativa aumentou com a chegada do terral. Dito e feito! Logo após uma caminhada de uns 20 minutos até o pico da “Casinha”, ele começou a soprar.

Maré enchendo e as ondas melhorando. Cheguei ao pico para filmar a galera e percebi que havia esquecido os pés de pato no carro. Voltei em disparada para pegar, pois sem eles ficaria difícil nadar contra a corrente ou mudar de posicionamento rapidamente. Essa session foi muito legal, pois algumas ondas desafiadoras entraram para a galera. Betão deu as dicas do pico e pegou as boas.

Algumas despencadas foram registradas e Luiz Eduardo fez sua parte. Com uma prancha ligeiramente maior, ele estava sempre remando em qualquer coisa. Às vezes dava certo, mas quando não dava, ele despencava lá de cima parecendo um torpedo. Nesta session, também tivemos a companhia do Murilo, amigo do Eric, e que fez bonitos bottons turns.

No dia seguinte, ficamos mais uma vez em Busca Vida. Ondas e vento forte, e um pouco de correnteza. Mas a galera continuou na pilha e aproveitou o dia, incluindo um magnífico rolé de bike pelas imediações do local. Depois, já que no dia em que fomos à Praia do Forte não havíamos surfado no pico principal, o Papa Gente, decidimos partir mais uma vez para lá.

Chef Rita Sartório salva a larica depois da session.

Conversa boa com o surfista local Ian Kayssara, que deu a letra para nosso grupo sobre a entrada no mar. “Galera, vocês vão pegando umas ondinhas aí que daqui a pouco já chega ‘paê”, disse ele.

Primeiro me posicionei na direita para filmar o Eric, onde alguns locais – incluindo bodyboarders – também pegavam boas. Fiquei meia horinha por ali e passei o canal para gravar a esquerda, já que a maioria do grupo estava lá. Com ondas um pouco maiores e line-up mais estendido, a galera fez a mala. José Eduardo estava amarradão e pegou boas. Nesta session, também encontrei o mestre de yoga “Pedroca” e seu filho Santocha aproveitando o que a Bahia tem de melhor.

Vários surfistas locais dominaram as ondas e surfaram muito bem. Infelizmente, não lembro o nome de todos. Mas destaque para Ian Kaissara, por sua velocidade e pressão nas manobras. E o que tinha de onda, tinha de tartaruga. Elas nadavam livremente às centenas. Perdi as contas de quantas haviam, e que diga nosso amigo Osmar, que saiu com a borda da prancha rachada devido a uma colisão.

Depois de ótimas esquerdas, voltamos à direita para as saideiras. Nos despedimos da galera e partimos de volta ao Bahia Surf Camp, onde o delicioso cardápio da chef Sartório nos esperava.

Na parte da tarde, a galera ainda fez mais uma queda em Busca Vida. Fiquei olhando a turma surfar, ao mesmo tempo que monitorava as gêmeas Letícia e Gabriela (carinhosamente chamadas de “Praia” e “Algodão Doce”) brincarem, enquanto a mãe, a bodyboarder e capoeirista Claudia, pegava sua cota de ondas com a galera. Nesta sessão o outside estava bem concorrido.

Embora o line-up fosse longo, a turma gostou de ficar em frente à bancada rochosa. Betão, que também ministrava aulas particulares para outros hóspedes, de vez em quando aparecia para mostrar como se fazia na vala. Ô bicho “valeiro!”. Era um “carquiado” pra um lado e pro outro, e ele sempre conectava.

Osmar, morador de Brasília (DF), mas que originalmente é de Itanhaém (SP), também achava sempre as nuances das ondas. E a bateria estava boa! Quem também surfou conosco foi Marcelo Dias, irmão do Betão, que possui casa em frente ao pico. Figura era o seu filho Felipe, que em breve completará 5 anos e só falava da festa com a temática do Bahia FC. Nem preciso dizer que virou nosso mascote! Ô moleque esperto!

No último dia, fomos até uma onda que eu ainda não conhecia, o Scar Reef. Mais um condomínio fechado que guarda outra joia do surfe baiano. O mar não havia subido o quanto esperávamos e, com a maré baixando, o surfe piorou rapidamente.

Mesmo assim, deu pra ver o potencial das ondas, principalmente em uma que o surfista local master Jorginho Michaelsen dropou A direita cavou bastante e ele desferiu uma batida no seco, com total controle. Betão também pegou boas, assim como Osmar e Pretto. Já Rodarte ficou um pouco mais para trás do pico.

Voltamos para Busca Vida, pois nossa despedida coincidiu com o aniversário de Rodarte, com direito a festinha, balões e um bolo delicioso carinhosamente preparado pela chef. A criançada ficou amarradona, já que, ao lado de Marcelo Pretto, o aniversariante era o mais querido pela turma, pois toda hora estava em meio às brincadeiras.

Enfim, nossa passagem pelo Bahia Surf Camp teve muito astral. Na madrugada seguinte, já estávamos nos despedindo de mais uma Barca do Fia. E não temos dúvida: vamos voltar viu “paê?” Êita Bahêa!