Acostumado a levar sua arte para cenários inimagináveis, perdidos
entre escombros de fábricas, becos, córregos, rios e galerias subterrâneas, o artista paulistano José Augusto Amaro Capela, mais conhecido como ?Zezão?, 36, recebeu da Hang Loose a missão de dar cara à programação visual da etapa brasileira do WCT, a elite do surf mundial.
Considerado um novo ícone da arte paulistana, o autodidata Zezão aprendeu a pintar nas ruas e é autor um amplo trabalho que envolve grafite, street art, decoração, campanhas publicitárias e obras para galerias.
Com seu olhar crítico, notou que sua arte poderia dialogar perfeitamente com espaços abandonados e denunciar situações de miséria e abandono.
Na parceria com a Hang Loose, o artista vislumbrou a oportunidade de ligar seu trabalho com um segmento onde há notória preocupação com o meio-ambiente, destacando ainda mais as causas que apóia como a poluição de rios e a ocupação desordenada das cidades. ?Sempre penso que nestes lugares existia um rio de águas limpas ou uma fábrica que garantia o sustento de dezenas de funcionários?, diz o artista.
Durante a competição na praia da Vila, o público terá a oportunidade de ver Zezão pintando um painel de 4 x 2,5 metros. Todo o lixo recolhido diariamente na praia será acumulado embaixo do painel para depois ser encaminhado à empresa de reciclagem. ?Esta é uma iniciativa para mostrar a quantidade de lixo que as pessoas abandonam na praia?, enfatiza.
Desde 1995, Zezão deixa sua marca pela cidade de São Paulo. Seus primeiros rabiscos no estilo grafite wild style evoluíram e viraram marca registrada graças aos seus ?flops?, termo criado por ele para denominar os desenhos abstratos e cheio de curvas que cria.
Ele utiliza sempre o mesmo tom ?feito no olho? de azul claro para preencher a parte interna do desenho, com contorno em azul escuro. De acordo com o artista, esta tonalidade remete ?calma e positividade?. ?E num lugar detonadão, o azul dá um grito?, explica.
Diariamente são recolhidas 15 mil toneladas de lixo na cidade de São Paulo. Calcula-se que uma quantidade equivalente a 20% acabe nas ruas e córregos da cidade. É esse lixo que, levado pela água das chuvas, invade as galerias por onde Zezão caminha, arrastando as galochas para não pisar nos pregos enferrujados.
Ele entra por bueiros e invade canais de águas pluviais que correm em direção ao Tietê e Pinheiros, demarcando galerias, córregos e canais de drenagem. ?São lugares que ninguém da cidade conhece, mas é onde eu vejo beleza?, revela o grafiteiro.
Zezão foi skatista e punk. Mas, rompeu os ligamentos e começou a pichar, principalmente trens. Por isso foi preso três vezes. Antes de dedicar-se somente à pintura, ele trabalhou como motorista e motoboy, justamente numa empresa de surfwear.
Essa experiência nas ruas permitiu que conhecesse as entranhas da cidade. Em 2000, vendeu sua moto e usou o dinheiro para comprar seu primeiro computador sem ao menos saber o que era o sistema operacional Windows. ?Senti que o computador daria um retorno e me proporcionaria dinheiro para eu trabalhar com grafite?, afirma ele.
Rapidamente, Zezão dominou câmeras fotográficas, scanners e passou a se familiarizar com a internet. A partir daí, construiu um site para mostrar seu trabalho subterrâneo e virou hit, contabilizando milhares de visitas em sua homepage, na qual colocava fotos e vídeos retratando o contexto da produção de suas obras.
Influenciado por artistas plásticos como Jackson Pollock e Basquiat, Zezão acumula em seu extenso portfólio trabalhos de cenografia, criação publicitária e institucional (caso da fachada da agência Trianon Masp do Bank Boston para o aniversário de São Paulo em 2003) e participou de diversas exposições no Brasil e no exterior, levando sua arte para países como Inglaterra, República Tcheca, França e Estados Unidos.
Para conhecer mais o trabalho de Zezão, visite o site Arte Subterrânea.

