
O World Championship Tour, circuito mundial de surfe profissional, está prestes a perder algumas de suas maiores estrelas. Mais precisamente nove atletas, do calibre de Kelly Slater, Taj Burrow, os irmãos Cory e Shea Lopez, Damien Hobgood, Taylor Knox, Shane Dorian, Kalani Robb e Pat O’Connell.
A notícia, dada pelo site da revista Surfing, pode ser considerada uma das mais bombásticas da história da ASP (Association of Surfing Professionals), entidade que rege o esporte no mundo. E tudo por causa de uma atitude dos atletas em prol do surfe.
Neste final de semana será realizada a nona edição das Olimpíadas dos esportes radicais, mais conhecida como X-Games, em Huntington Beach, Califórnia (EUA), e o grupo citado acima foi convidado para representar o surfe na primeira participação do esporte na competição (clique aqui para saber mais).
Após uma semana de negociações e debates a portas fechadas, o Grupo dos Nove tomou uma decisão que pode encerrar suas carreiras no WCT. Em carta enviada à ASP, eles dizem:

“Concordamos em unanimidade que iremos participar do X-Games em nome do crescimento do surfe. Também estamos de acordo em continuar totalmente comprometidos com a ASP”.
O problema é que o X-Games não é um evento sancionado pela ASP. E nunca foi, de acordo com Wayne Rabbit Bartholomew, presidente da entidade. A ESPN e os organizadores do X-Games ainda tentaram obter uma sanção durante a reunião anual da entidade em Jeffreys Bay, mas foram orientados a pagar uma taxa de US$ 35 mil até o dia 31 de julho passado.
Quando a data expirou sem o pagamento, a ASP fechou questão sobre o assunto e enviou uma carta aos atletas convidados para o X-Games alertando sobre a regra 6 do livro de regras do circuito mundial, que diz que qualquer atleta do WCT que participar de um evento não sancionado pela ASP estaria impedido de participar de outro evento da entidade no mesmo ano e ainda perderia sua classificação para o ano seguinte.
É um preço alto para algumas horas de disputas no lendário pier de Huntington, mas os surfistas acreditam que o buraco é mais embaixo e há coisas muito mais importantes em jogo.

A começar pelo motivo que levou a ASP a não dar a devida importância ao fato de o surfe ser inserido no contexto do X-Games. Vamos aos fatos. A próxima etapa do WCT será o Boost Mobile Pro, sétima etapa do tour, daqui exatas três semanas no mesmo local que acontece o X-Games.
Porém, a Boost Mobile, empresa de telefonia celular, não gostou nem um pouco de saber que sua principal concorrente, a Verizon, estava patrocinando o X-Games com direito a uma exposição de mídia e cobertura televisiva quase cem vezes maior que eles teriam no WCT. Quando foram analisados os números, a coisa piorou.
A Boost investiu US$ 1,2 milhões na etapa do WCT teoricamente sem uma cobertura televisiva. Já a Verizon colocou US$ 35 mil no X-Games para ter uma cobertura de mídia absurdamente maior, já que a ESPN está presente em cerca de 140 milhões de lares no mundo todo. E eles informaram a ASP sobre o problema.
“Não temos nada contra a ESPN nem contra o X-Games”, disse Peter Adderton, CEO da Boost. “Mas investimos milhões de dólares numa etapa do WCT para ter nossa marca exposta através do surfe. E se a melhor escolha seria o X-Games, ótimo, iremos mudar de evento no ano que vem”.

Já os surfistas acharam que não deveriam escolher entre um e outro. Depois de anos assistindo esportes como o skate tendo grande destaque na competição, eles viram a oportunidade de colocar o surfe no lugar onde ele deveria estar desde o início. Na visão deles, o X-Games apenas irá ajudar a dar mais exposição ao surfe, o que conseqüentemente dá mais exposição à ASP.
“Gostaria de enfatizar que não se trata de nós contra a ASP”, esclarece Pat O’Connell, porta-voz do Grupo dos Nove. “Nós simplesmente achamos que estamos fazendo a coisa certa, uma atitude em prol do surfe a longo prazo”.
A decisão dos atletas foi um caso à parte. Até o começo da semana, a situação parecia desanimadora para eles, que já começavam a fazer outros planos para o final de semana. Foi quando Brad Gerlach, criador do formato que será aplicado no X-Games e principal responsável pela inclusão do surfe na competição, pediu a todos que participassem de uma simulação em Oceanside.
Assim, Gerlach conseguiu convencê-los de que o show teria que ir adiante. Ele e Chris Stiepock, da ESPN, explicaram a situação e concluíram que a decisão seria exclusivamente dos surfistas. Dez minutos depois, o Grupo dos Nove escreveu uma carta à ASP.

“Eles me chocaram com a decisão tomada, porque não queria que tomassem nenhum partido nisso”, disse Gerlach. “Mas foram verdadeiras lendas do esporte que tomaram a decisão, um verdadeiro marco na história do surfe”.
O que quer que venha a acontecer diante disso depende apenas da ASP. Segundo O’Connel, “Temos total consciência do que estamos fazendo e quais podem ser as conseqüências. Apenas esperamos que a ASP entenda nossas intenções e encontre uma maneira de estar ao nosso lado”.
No lado da entidade, no entanto, a situação não parece ser animadora. Depois de dizer que a entidade não terá escolha senão excluir os atletas do WCT que disputarem o X-Games, Bartholomew concluiu: “Eles são indivíduos e devem assumir as conseqüências de seus atos – se querem competir no WCT ou seguir por outro caminho”.