Shaper globalizado

Xanadu analisa mercado

Xanadu produz cerca de 90 pranchas durante curta passagem pela Austrália. Foto: Ader Oliveira.

O shaper Paulo Xanadu é um dos principais talentos brasileiros na arte de produzir pranchas.

 

Residente na Califórnia (EUA) há mais de duas décadas, Xanadu conseguiu ter seu talento reconhecido internacionalmente. Suas pranchas são requisitadas na Austrália, Estados Unidos e Brasil, bem como em outros países.

 

Durante passagem pela Austrália, onde produz cerca de 80 a 100 pranchas sempre que visita o país, Xanadu concedeu uma entrevista ao Waves e falou sobre o mercado de pranchas no mundo, as novidades que vem produzindo, crise financeira e a repercussão das quadriquilhas utilizadas pelo nove vezes campeão mundial Kelly Slater.

 

Qual o motivo dessa sua passagem pela Austrália?

 

Gosto de vir pra cá porque a Austrália tem vários designers interessantes, vários surfistas bons. Então, é um lugar em que realmente gosto de trabalhar. Aqui tem boas ondas, o clima é ótimo e tenho vários amigos. A maioria dos meus amigos é de Sydney, morava lá antes. A demanda está muito boa, crescendo todo ano. A Austrália sempre foi um dos países mais fortes em termos de surf, em evolução de pranchas de surf.

 

Por que trocou o Brasil pelos Estados Unidos?

 

Morei aqui na Austrália muito tempo atrás, durante quatro anos, entre 83 e 87. Na verdade, passava uns cinco meses por aqui e o resto do tempo no Japão. Aí, depois me fixei nos Estados Unidos. Lá é mais fácil você iniciar e ter negócios, além de o país ser centralizado pra você viajar pelo planeta Terra. Aqui é muito longe de tudo e nos Estados Unidos eu fico próximo da Europa, da Ásia. Não é tão longe da América do Sul. Então esse foi um dos motivos de eu ter ido morar lá. Prefiro o estilo de vida daqui, as ondas daqui também e tudo. Mas, como negócio sei que foi melhor ter mudado para os Estados Unidos. Tenho certeza disso hoje em dia.

 

Como você analisa o mercado de pranchas do Brasil desde que saiu até agora?

 

O Brasil hoje em dia é um dos países emergentes. O sistema econômico é um dos que mais cresceu nos últimos três, cinco anos. Então, quer dizer, mudou mudou, né? Saí há 27 anos e não tinha nem fábrica de espuma. O que tinha era escasso. Chegava o verão e a gente não tinha espuma pra produzir prancha. Então eu sempre estocava no inverno. Hoje em dia, você não tem esses problemas no Brasil. Mudou muito, né? Placa tem à vontade, melhor qualidade do mundo a espuma brasileira… Tem umas fábricas que estão lá e são muito mais profissionais do que antigamente, no tempo em que fui embora. Em termos de produção, a fabricação de pranchas cresceu muito. A qualidade está bem melhor, está compatível com o que tem por aí pelo planeta Terra. Acho que o mercado lá, não vou dizer que é um dos melhores do mundo, pois o país não tem a melhor economia do mundo, mas também não é tão ruim quanto outros lugares pelos quais já andei viajando.

 

Onde você costuma produzir suas pranchas?

 

Eu vou ao Brasil, com certeza pra trabalho, umas duas ou três vezes ao ano. Venho pra cá (Austrália) duas vezes ao ano, Estados Unidos… Eu ia direto a Portugal, mas como não estava tendo muito tempo pra vir pra cá, eu priorizei vir mais para a Austrália do que para Portugal, então ultimamente dei uma parada ali em Portugal. Mas, talvez eu volte lá. Sempre tem demanda, sempre tem o pessoal pedindo pra shapear em outros lugares do mundo, mas é questão de tempo também e eu tenho que tomar conta dos meus negócios nos Estados Unidos. Então, eu vejo os mercados que dão mais retorno pra mim, que eu sinto mais vontade de ir por questão de onda. Tem várias coisas envolvidas ? surfistas, pessoal que está lá trabalhando… Mas, que eu gostaria de ir para a Europa sempre? Gostaria. Tem a América Central também, Costa Rica, Caribe e outros lugares assim, mas a questão é não ter tempo.

 

Você vem sentindo dificuldades com a crise financeira?

 

Nos Estados Unidos a coisa está muito ruim, pior do que o pessoal de fora está vendo nas notícias. Geralmente as notícias exageram o acontecimento. Tem uma coisa e eles fazem 10 vezes maior, mas hoje em dia está o contrário. Realmente a situação econômica lá dentro está pior do que o pessoal tem lido aí nas notícias. Passei o Natal e Ano Novo no Brasil, fiquei nos Estados Unidos no fim de janeiro e fevereiro e, se eu não era o que estava mais produzindo ali em San Diego, era um dos que estava mais produzindo no Sul da Califórnia. O negócio está preto mesmo. Pelo que eu vi ali, produzindo prancha agora, pelo que conversei, eram eu, o Al Merrick estava indo muito bem ? tem muito dinheiro por trás dele porque não é o Al Merrick mais, e sim a Burton, uma companhia de snowboard. Lá está sério. Aqui foi na boa, Brasil também foi na boa. Eu converso com o pessoal lá e a economia não está ruim quanto nos Estados Unidos.

 

Para quem ainda não está por dentro, você pode explicar qual a relação entre a Burton e a Al Merrick?

 

A Burton é dona da Channell Islands ? marca do Al Merrick ? há uns três anos e está querendo criar um monopólio no mercado, pelo menos nos Estados Unidos, e claro que eles vão entrar pesado com roupa. Por isso estão tendo tantos atletas, gastando tanto dinheiro em marketing e em pranchas, porque depois eles vão virar tudo isso em roupa e o que for. Além de eles fazerem isso, tem o Joel Tudor (longboarder). Eles agora vão produzir a marca do Joel Tudor na América também, de repente ele comprou a marca, vai saber. Vão pagar licenciamento da marca para o Joel Tudor. Outra coisa que escutei que eles vão começar a fazer, já ouviu falar nessa história de que Kelly Slater está shapeando prancha?

 

Sim, ele fala que produziu as quadriquilhas dele.

 

Palhaçada. É que eles vão fazer uma marca do Kelly Slater, para eles terem mais uma marca ainda dentro do Burton e ter como pagar ao Kelly Slater depois que ele se aposentar ali no circuito. Como o Joel Tudor é um surfista e nunca tocou talvez numa placa de prancha ou talvez tocou só pra dizer que tocou, mas quem fabrica são outros shapers, eles vão fazer a mesma coisa com o Kelly Slater. Vão dizer ?Ah, vai lá com o Al Merrick, pega a lixinha e tal?, mas na verdade, quem está fazendo é o Al Merrick ou algum outro shaper por trás, e vai ser mais uma marca que está no guarda-chuva da Burton Snowboard, uma companhia de snowboard, não de surf.

 

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Wiggolly Dantas e sua prancha Xanadu durante vitória no WQS em Fistral Beach, Inglaterra. Foto: Aquashot / Aspeurope.com.

Como está a sua equipe de surf atualmente?

 

Falta dinheiro pra eu investir mais forte na equipe. Têm caras querendo trabalhar comigo mais sério, até que estão no WCT, mas eu não tenho finanças atualmente, não quero arriscar também com a situação econômica que está nos Estados Unidos. A gente tem um pessoal aí que está surfando o WQS, um pessoal amador lá dos Estados Unidos, tenho vários meninos lá, e tenho feito pranchas para um pessoal do WCT também, mas nenhum é patrocinado por mim. O último que estava no WCT e era patrocinado foi o Pedra (Rodrigo Dornelles).

 

Você acha que as quadriquilhas utilizadas por Slater vão revolucionar o mercado?

 

Engraçado. Esse até era um assunto que eu ia mencionar para você, pois o editor da Surfers Magazine me fez essa pergunta. Eu acho muito bom o que ele (Kelly Slater) está fazendo, pois se não for o Slater que fizer isso, quem vai fazer? A molecada vai continuar sempre naquele mesmo estilo de prancha. Eu os entendo. No caminho deles, eles querem ganhar a próxima bateria, o próximo campeonato, então eles não querem arriscar mudar muito o equipamento. Mas, para o Kelly Slater não tenho mais o que ele ganhar ou provar. O que vai ser um desafio para ele é trabalhar com um material diferente, umas ferramentas diferentes, e é o que ele está fazendo. O Kelly fez várias coisas para o surf. Eu sempre mencionei como uma bíblia, que tem o tempo antes de Cristo e depois de Cristo.

 

Falo que o surf foi antes de Kelly Slater e depois de Kelly Slater. Ele não só ajudou ensinando a gente a como a surfar. Ele avançou o surf uns 10 anos, se não fosse por ele estaríamos atrasados 10 anos. Em termos de prancha, ele sempre trabalhou quilha, você via que o cara estava sempre procurando quilhas diferentes, posicionamentos, flexibilidade e tal. E agora, o desafio para ele é trabalhar com pranchas diferentes e ser campeão mundial com pranchas diferentes, não com um material que ele já teve antes e sabe que pode ser campeão de novo, como ano passado, quando ganhou meses antes de acabar o circuito. Acho que vai ser super bom em termos de desenvolvimento de designers de prancha. Eu não vi a bateria em que ele perdeu, mas todo mundo que viu achou que foi o equipamento que prejudicou ele, e ele profissionalmente negou isso. Mas eu acredito que ele vai trabalhar sério pra fazer aquelas ferramentas funcionarem, pelo menos vão melhorar bastante, não sei se vão ficar ao ponto de bater aquelas pranchas de high-performances atuais.

 

Vejo muitas pessoas criticarem atletas brasileiros por surfarem com pranchas brasileiras. Qual a sua opinião a respeito disso?

 

Qualidade a prancha brasileira tem, então, em termos de material não deve nada à prancha gringa. Agora, em termos de desenho de prancha, de designer, realmente eu senti que nos últimos dois ou três anos o pessoal lá deu uma estacionada. Deram uma boa evoluída na década de 90 até 2004, por aí, e ultimamente eu não tenho sentido tanto. Fazem pranchas bonitas? Fazem. Mas, em termos de design, não sei. Não ando muito lá, não vejo muitas pranchas de atletas brasileiros, então não posso comentar. Acho que é importante para o atleta achar o que funciona melhor pra ele, tanto sendo brasileiro ou gringo. Foi o que sempre falei. De repente você está no meio da África e um índio africano te dá um pedaço de madeira e você vai surfar a melhor coisa do planeta Terra que ninguém nunca pensou em termos de designer. Já falo isso a vários atletas há mais de 10, 15 anos. Mas, de repente, vai ver se ele vai conseguir reproduzir aquilo? Ele vai ver uma coisa que deu sorte, ele nem sabe o que fez e como pode saber. Então, por outro lado, acho bom o atleta experimentar outros designs, aprender mais sobre prancha e, se é um cara que quer trabalhar com shaper brasileiro e acredita na habilidade do designer dele, vai dar um feedback para o cara, dar as pranchas que ele está recebendo no exterior. Mas, se o brasileiro continuar copiando coisas que vêm de fora sempre, e não tentar criar, vai ficar sempre atrás. Se você está copiando, está atrás de alguém, não está à frente ou no mesmo nível. Então, se de repente é isso que está acontecendo por lá e eles continuam copiando, copiando, também depende do atleta brasileiro…

 

Imagina um designer lá do Ceará, com um shaper totalmente diferente, mas daí, porque ninguém no WCT está usando, o brasileiro também não vai querer usar. Isso é um problema muito grande dentro da cultura brasileira, de achar que tudo o que vem de fora é melhor. Quando eu morava lá no Brasil, eu fiz umas pranchas com esses bicos meio levantados na década de 70 e meus amigos tiraram o maior barato de mim, porque ninguém estava fazendo no exterior. Eu vim refazer isso 15 ou 20 anos depois. Então, deve ter algum designer lá dentro e de repente ninguém aceita porque o cara está muito avançado. Agora, o Kelly Slater está aí usando essas pranchas aí e de repente um cara lá no Brasil já fez e ninguém quis aceitar 10 anos atrás. Eu falo para os meus atletas experimentarem, até porque quero saber como está meu nível em termos de design aqui pelo planeta Terra. Tá certo que eu viajo direto, mas é muito importante eu saber como estão minhas pranchas. Eu não tenho medo, isso é um desafio pra mim, só pra fazer melhorar meu nível de design, então eu confio no meu taco. Se o cara traz uma prancha, eu tenho melhorar no que ele está trazendo. Então, é bom para o atleta experimentar outras coisas. Acho que os brasileiros têm de criar mais e o atleta brasileiro ser aberto a isso também. Ter a cabeça pra pensar ?pô, isso aqui é diferente, vamos experimentar porque de repente é melhor?.  Um dos poucos que vi fazer isso no Brasil foi o Neco Padaratz, que descobriu que prancha larga e grossa pra ele era o que funcionava, e dane-se o resto. O Neco já usava essas pranchas largas aí, de repente não abusou mais da largura porque ele não era o tal do Kelly Slater, mas pode ver o quiver dele. Lembro de ter feito umas pranchas ?Pig? pra ele já há seis anos ou mais e ele ficou nessa até hoje.

 

O que você vem trabalhando em termos de design?

 

Em termos de competição, estou com um design novo que acabei de fazer. É como um carro de corrida. Você vai querer dar mais cavalo para o motor, para dar mais potência e velocidade, e ao mesmo tempo você quer dar mais controle para o carro. A prancha de surf é a mesma coisa, você quer dar mais velocidade para o surfista e mais controle nas manobras. Essa evolução é o que tento fazer todo ano. Cada surfista tem um posicionamento diferente na prancha, põe o peso do pé mais na frente ou atrás. Quando um cara do WCT ou WQS geralmente pede pra mim, eu gosto de fazer três dessas pranchas, no mínimo. São três estilos meio diferentes e dali eu começo a trabalhar mais, se é que o atleta quer continuar trabalhando comigo. Agora, prancha assim tipo recreação, tipo uma fish, aí eu tenho vários também que são a Pig 1 e Pig 2, que estão no mercado há anos. Assim como o Al Merrick, várias pessoas têm esse tipo de fish, mas agora pode ficar mais forte por causa do trabalho que Kelly está fazendo. A primeira Pig 1 eu fiz em 92, 94, por aí, e eu tenho a Pig 2 no mercado desde 2000. Este ano lancei outra prancha chamada Gipo, que vai ser tipo entre uma fish biquilha convencional ? uma prancha 6 pés com 21,5 ou 22 de largura ? e uma Pig 2 que eu faço. É pra pegar o pessoal que está usando uma fish tradicional e não consegue fazer uma manobra muito radical porque ela não permite, e que está usando a Pig. Com ela você vai poder ter uma decolagem em cima da água igual a uma fish, só que vai ser possível fazer manobras mais radicais.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.