O shaper Paulo Xanadu é um dos principais talentos brasileiros na arte de produzir pranchas.
Residente na Califórnia (EUA) há mais de duas décadas, Xanadu conseguiu ter seu talento reconhecido internacionalmente. Suas pranchas são requisitadas na Austrália, Estados Unidos e Brasil, bem como em outros países.
Durante passagem pela Austrália, onde produz cerca de 80 a 100 pranchas sempre que visita o país, Xanadu concedeu uma entrevista ao Waves e falou sobre o mercado de pranchas no mundo, as novidades que vem produzindo, crise financeira e a repercussão das quadriquilhas utilizadas pelo nove vezes campeão mundial Kelly Slater.
Qual o motivo dessa sua passagem pela Austrália?
Gosto de vir pra cá porque a Austrália tem vários designers interessantes, vários surfistas bons. Então, é um lugar em que realmente gosto de trabalhar. Aqui tem boas ondas, o clima é ótimo e tenho vários amigos. A maioria dos meus amigos é de Sydney, morava lá antes. A demanda está muito boa, crescendo todo ano. A Austrália sempre foi um dos países mais fortes em termos de surf, em evolução de pranchas de surf.
Por que trocou o Brasil pelos Estados Unidos?
Morei aqui na Austrália muito tempo atrás, durante quatro anos, entre 83 e 87. Na verdade, passava uns cinco meses por aqui e o resto do tempo no Japão. Aí, depois me fixei nos Estados Unidos. Lá é mais fácil você iniciar e ter negócios, além de o país ser centralizado pra você viajar pelo planeta Terra. Aqui é muito longe de tudo e nos Estados Unidos eu fico próximo da Europa, da Ásia. Não é tão longe da América do Sul. Então esse foi um dos motivos de eu ter ido morar lá. Prefiro o estilo de vida daqui, as ondas daqui também e tudo. Mas, como negócio sei que foi melhor ter mudado para os Estados Unidos. Tenho certeza disso hoje em dia.
Como você analisa o mercado de pranchas do Brasil desde que saiu até agora?
O Brasil hoje em dia é um dos países emergentes. O sistema econômico é um dos que mais cresceu nos últimos três, cinco anos. Então, quer dizer, mudou mudou, né? Saí há 27 anos e não tinha nem fábrica de espuma. O que tinha era escasso. Chegava o verão e a gente não tinha espuma pra produzir prancha. Então eu sempre estocava no inverno. Hoje em dia, você não tem esses problemas no Brasil. Mudou muito, né? Placa tem à vontade, melhor qualidade do mundo a espuma brasileira… Tem umas fábricas que estão lá e são muito mais profissionais do que antigamente, no tempo em que fui embora. Em termos de produção, a fabricação de pranchas cresceu muito. A qualidade está bem melhor, está compatível com o que tem por aí pelo planeta Terra. Acho que o mercado lá, não vou dizer que é um dos melhores do mundo, pois o país não tem a melhor economia do mundo, mas também não é tão ruim quanto outros lugares pelos quais já andei viajando.
Onde você costuma produzir suas pranchas?
Eu vou ao Brasil, com certeza pra trabalho, umas duas ou três vezes ao ano. Venho pra cá (Austrália) duas vezes ao ano, Estados Unidos… Eu ia direto a Portugal, mas como não estava tendo muito tempo pra vir pra cá, eu priorizei vir mais para a Austrália do que para Portugal, então ultimamente dei uma parada ali em Portugal. Mas, talvez eu volte lá. Sempre tem demanda, sempre tem o pessoal pedindo pra shapear em outros lugares do mundo, mas é questão de tempo também e eu tenho que tomar conta dos meus negócios nos Estados Unidos. Então, eu vejo os mercados que dão mais retorno pra mim, que eu sinto mais vontade de ir por questão de onda. Tem várias coisas envolvidas ? surfistas, pessoal que está lá trabalhando… Mas, que eu gostaria de ir para a Europa sempre? Gostaria. Tem a América Central também, Costa Rica, Caribe e outros lugares assim, mas a questão é não ter tempo.
Você vem sentindo dificuldades com a crise financeira?
Nos Estados Unidos a coisa está muito ruim, pior do que o pessoal de fora está vendo nas notícias. Geralmente as notícias exageram o acontecimento. Tem uma coisa e eles fazem 10 vezes maior, mas hoje em dia está o contrário. Realmente a situação econômica lá dentro está pior do que o pessoal tem lido aí nas notícias. Passei o Natal e Ano Novo no Brasil, fiquei nos Estados Unidos no fim de janeiro e fevereiro e, se eu não era o que estava mais produzindo ali em San Diego, era um dos que estava mais produzindo no Sul da Califórnia. O negócio está preto mesmo. Pelo que eu vi ali, produzindo prancha agora, pelo que conversei, eram eu, o Al Merrick estava indo muito bem ? tem muito dinheiro por trás dele porque não é o Al Merrick mais, e sim a Burton, uma companhia de snowboard. Lá está sério. Aqui foi na boa, Brasil também foi na boa. Eu converso com o pessoal lá e a economia não está ruim quanto nos Estados Unidos.
Para quem ainda não está por dentro, você pode explicar qual a relação entre a Burton e a Al Merrick?
A Burton é dona da Channell Islands ? marca do Al Merrick ? há uns três anos e está querendo criar um monopólio no mercado, pelo menos nos Estados Unidos, e claro que eles vão entrar pesado com roupa. Por isso estão tendo tantos atletas, gastando tanto dinheiro em marketing e em pranchas, porque depois eles vão virar tudo isso em roupa e o que for. Além de eles fazerem isso, tem o Joel Tudor (longboarder). Eles agora vão produzir a marca do Joel Tudor na América também, de repente ele comprou a marca, vai saber. Vão pagar licenciamento da marca para o Joel Tudor. Outra coisa que escutei que eles vão começar a fazer, já ouviu falar nessa história de que Kelly Slater está shapeando prancha?
Sim, ele fala que produziu as quadriquilhas dele.
Palhaçada. É que eles vão fazer uma marca do Kelly Slater, para eles terem mais uma marca ainda dentro do Burton e ter como pagar ao Kelly Slater depois que ele se aposentar ali no circuito. Como o Joel Tudor é um surfista e nunca tocou talvez numa placa de prancha ou talvez tocou só pra dizer que tocou, mas quem fabrica são outros shapers, eles vão fazer a mesma coisa com o Kelly Slater. Vão dizer ?Ah, vai lá com o Al Merrick, pega a lixinha e tal?, mas na verdade, quem está fazendo é o Al Merrick ou algum outro shaper por trás, e vai ser mais uma marca que está no guarda-chuva da Burton Snowboard, uma companhia de snowboard, não de surf.
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Como está a sua equipe de surf atualmente?
Falta dinheiro pra eu investir mais forte na equipe. Têm caras querendo trabalhar comigo mais sério, até que estão no WCT, mas eu não tenho finanças atualmente, não quero arriscar também com a situação econômica que está nos Estados Unidos. A gente tem um pessoal aí que está surfando o WQS, um pessoal amador lá dos Estados Unidos, tenho vários meninos lá, e tenho feito pranchas para um pessoal do WCT também, mas nenhum é patrocinado por mim. O último que estava no WCT e era patrocinado foi o Pedra (Rodrigo Dornelles).
Você acha que as quadriquilhas utilizadas por Slater vão revolucionar o mercado?
Engraçado. Esse até era um assunto que eu ia mencionar para você, pois o editor da Surfers Magazine me fez essa pergunta. Eu acho muito bom o que ele (Kelly Slater) está fazendo, pois se não for o Slater que fizer isso, quem vai fazer? A molecada vai continuar sempre naquele mesmo estilo de prancha. Eu os entendo. No caminho deles, eles querem ganhar a próxima bateria, o próximo campeonato, então eles não querem arriscar mudar muito o equipamento. Mas, para o Kelly Slater não tenho mais o que ele ganhar ou provar. O que vai ser um desafio para ele é trabalhar com um material diferente, umas ferramentas diferentes, e é o que ele está fazendo. O Kelly fez várias coisas para o surf. Eu sempre mencionei como uma bíblia, que tem o tempo antes de Cristo e depois de Cristo.
Falo que o surf foi antes de Kelly Slater e depois de Kelly Slater. Ele não só ajudou ensinando a gente a como a surfar. Ele avançou o surf uns 10 anos, se não fosse por ele estaríamos atrasados 10 anos. Em termos de prancha, ele sempre trabalhou quilha, você via que o cara estava sempre procurando quilhas diferentes, posicionamentos, flexibilidade e tal. E agora, o desafio para ele é trabalhar com pranchas diferentes e ser campeão mundial com pranchas diferentes, não com um material que ele já teve antes e sabe que pode ser campeão de novo, como ano passado, quando ganhou meses antes de acabar o circuito. Acho que vai ser super bom em termos de desenvolvimento de designers de prancha. Eu não vi a bateria em que ele perdeu, mas todo mundo que viu achou que foi o equipamento que prejudicou ele, e ele profissionalmente negou isso. Mas eu acredito que ele vai trabalhar sério pra fazer aquelas ferramentas funcionarem, pelo menos vão melhorar bastante, não sei se vão ficar ao ponto de bater aquelas pranchas de high-performances atuais.
Vejo muitas pessoas criticarem atletas brasileiros por surfarem com pranchas brasileiras. Qual a sua opinião a respeito disso?
Qualidade a prancha brasileira tem, então, em termos de material não deve nada à prancha gringa. Agora, em termos de desenho de prancha, de designer, realmente eu senti que nos últimos dois ou três anos o pessoal lá deu uma estacionada. Deram uma boa evoluída na década de 90 até 2004, por aí, e ultimamente eu não tenho sentido tanto. Fazem pranchas bonitas? Fazem. Mas, em termos de design, não sei. Não ando muito lá, não vejo muitas pranchas de atletas brasileiros, então não posso comentar. Acho que é importante para o atleta achar o que funciona melhor pra ele, tanto sendo brasileiro ou gringo. Foi o que sempre falei. De repente você está no meio da África e um índio africano te dá um pedaço de madeira e você vai surfar a melhor coisa do planeta Terra que ninguém nunca pensou em termos de designer. Já falo isso a vários atletas há mais de 10, 15 anos. Mas, de repente, vai ver se ele vai conseguir reproduzir aquilo? Ele vai ver uma coisa que deu sorte, ele nem sabe o que fez e como pode saber. Então, por outro lado, acho bom o atleta experimentar outros designs, aprender mais sobre prancha e, se é um cara que quer trabalhar com shaper brasileiro e acredita na habilidade do designer dele, vai dar um feedback para o cara, dar as pranchas que ele está recebendo no exterior. Mas, se o brasileiro continuar copiando coisas que vêm de fora sempre, e não tentar criar, vai ficar sempre atrás. Se você está copiando, está atrás de alguém, não está à frente ou no mesmo nível. Então, se de repente é isso que está acontecendo por lá e eles continuam copiando, copiando, também depende do atleta brasileiro…
Imagina um designer lá do Ceará, com um shaper totalmente diferente, mas daí, porque ninguém no WCT está usando, o brasileiro também não vai querer usar. Isso é um problema muito grande dentro da cultura brasileira, de achar que tudo o que vem de fora é melhor. Quando eu morava lá no Brasil, eu fiz umas pranchas com esses bicos meio levantados na década de 70 e meus amigos tiraram o maior barato de mim, porque ninguém estava fazendo no exterior. Eu vim refazer isso 15 ou 20 anos depois. Então, deve ter algum designer lá dentro e de repente ninguém aceita porque o cara está muito avançado. Agora, o Kelly Slater está aí usando essas pranchas aí e de repente um cara lá no Brasil já fez e ninguém quis aceitar 10 anos atrás. Eu falo para os meus atletas experimentarem, até porque quero saber como está meu nível em termos de design aqui pelo planeta Terra. Tá certo que eu viajo direto, mas é muito importante eu saber como estão minhas pranchas. Eu não tenho medo, isso é um desafio pra mim, só pra fazer melhorar meu nível de design, então eu confio no meu taco. Se o cara traz uma prancha, eu tenho melhorar no que ele está trazendo. Então, é bom para o atleta experimentar outras coisas. Acho que os brasileiros têm de criar mais e o atleta brasileiro ser aberto a isso também. Ter a cabeça pra pensar ?pô, isso aqui é diferente, vamos experimentar porque de repente é melhor?. Um dos poucos que vi fazer isso no Brasil foi o Neco Padaratz, que descobriu que prancha larga e grossa pra ele era o que funcionava, e dane-se o resto. O Neco já usava essas pranchas largas aí, de repente não abusou mais da largura porque ele não era o tal do Kelly Slater, mas pode ver o quiver dele. Lembro de ter feito umas pranchas ?Pig? pra ele já há seis anos ou mais e ele ficou nessa até hoje.
O que você vem trabalhando em termos de design?
Em termos de competição, estou com um design novo que acabei de fazer. É como um carro de corrida. Você vai querer dar mais cavalo para o motor, para dar mais potência e velocidade, e ao mesmo tempo você quer dar mais controle para o carro. A prancha de surf é a mesma coisa, você quer dar mais velocidade para o surfista e mais controle nas manobras. Essa evolução é o que tento fazer todo ano. Cada surfista tem um posicionamento diferente na prancha, põe o peso do pé mais na frente ou atrás. Quando um cara do WCT ou WQS geralmente pede pra mim, eu gosto de fazer três dessas pranchas, no mínimo. São três estilos meio diferentes e dali eu começo a trabalhar mais, se é que o atleta quer continuar trabalhando comigo. Agora, prancha assim tipo recreação, tipo uma fish, aí eu tenho vários também que são a Pig 1 e Pig 2, que estão no mercado há anos. Assim como o Al Merrick, várias pessoas têm esse tipo de fish, mas agora pode ficar mais forte por causa do trabalho que Kelly está fazendo. A primeira Pig 1 eu fiz em 92, 94, por aí, e eu tenho a Pig 2 no mercado desde 2000. Este ano lancei outra prancha chamada Gipo, que vai ser tipo entre uma fish biquilha convencional ? uma prancha 6 pés com 21,5 ou 22 de largura ? e uma Pig 2 que eu faço. É pra pegar o pessoal que está usando uma fish tradicional e não consegue fazer uma manobra muito radical porque ela não permite, e que está usando a Pig. Com ela você vai poder ter uma decolagem em cima da água igual a uma fish, só que vai ser possível fazer manobras mais radicais.
