Wilclei mistura surfe com rock

A surf music brasileira não precisa mais andar na cola do rock australiano dos anos 80 ou do rock americano dos anos 90.

  
O guitarrista cearense Wilclei – que  já tocou para mais de cem mil pessoas, durante a apresentação da banda “O Surto”, no Rock in Rio 3 – está fazendo um som que, decididamente, passa pelas ondas dos mares. Isto porque, além de ser um dos mais criativos da safra mais recente de guitarristas brasileiros, o cara é fissurado em pegar onda. 

Depois do sucesso alcançado como guitarrista do Surto – “que pirou o cabeção” da galera – Wilclei resolveu partir para a carreira solo, permanecendo seis meses no Rio, onde, após sessões de surfe pela manhã, gravou o CD “Natural”. 
   

Além do baterista Gustavo de Plácido e do baixista Bernardes, o show de lançamento, em Fortaleza, contou também com a participação do fotógrafo Rick Werneck, parceiro em duas músicas e autor das fotos e da arte do CD.
   

Atualmente, Wilclei está gravando o segundo CD solo e frases como “… abre os braços, solta o leque, vira moleque se preciso for…”, ou ainda “… e todo mundo é igual no mar, vira imagem do homem que criou…”, mostram que muitas ondas ainda vão rolar.  E, se no palco ele arrebenta, dentro d’água não faz feio e arrisca rasgadas e batidas com sua 6’2″ swallow, sonhando com Maldivas e Tahiti. 


 Confira o que ele pensa sobre estas duas paixões: o surfe e o “róque” (música brasileira que mistura sons vindo do norte do nosso continente com sons atolados até o pescoço em raízes regionais).
 
O que veio primeiro, o surfe ou o “róque”? 

 
Os dois praticamente sempre andaram juntos, estão no meu sangue, são duas paixões e não há como abrir mão de uma paixão. Surfe é como um combustível para minha música e minha vida, a natureza é fonte contínua de aprendizado e inspiração, a música reflete esse estado de espírito, instiga, fortifica a alma.
  
Quando começou a tocar? Qual foi sua primeira guitarra? 
 
Foi em 1988, influenciado pelo rock nacional dos anos 80 e por uma banda de baile que sempre ensaiava em frente a casa do meu pai. Os caras tocavam de tudo, do forró ao rock, e eu estava sempre lá conferindo os ensaios, até que de tanto aperrear, meu pai me deu a primeira guitarra, uma Gianinni Sonic azul e branca, onde aprendi os primeiros acordes.
  
Quando começou a surfar? Qual foi sua primeira prancha? 
 
Comecei com o surfe praticamente na mesma época que comecei a tocar, no final dos anos 80. Escondia minha prancha no quintal e surfava escondido, em uma velha monoquilha amarela queimada K&K. O surfe era muito marginalizado e meus pais eram contra. Cada ida para a praia era uma aventura, uma descoberta, tinha que gostar de desafio, tinha que amar o esporte para não desistir.
 

Onde você já tocou? Onde sonha tocar?

 

Toquei em diversos Estados pelo Brasil afora junto com o Surto, realizamos um sonho que era tocar no Rock in Rio, fizemos turnê pelo Japão e vários megafestivais durante dois anos viajando pelo país. Sonho poder tocar pelo mundo um som que não tenha fronteiras, cair na estrada novamente, viver aprendendo, aprendendo a viver.

 

Onde você já surfou? Onde sonha surfar?

 

Aqui em Fortaleza costumo surfar na praia do Futuro, Icaraí, Catavento, Portão e estou maluco pra surfar os canudos da Imbinhoara, secret spot que quebra em condições especiais. Caí também em Itamambuca (SP), Prainha (RJ), Macumba (RJ), Reserva (RJ), Alfabarrels (RJ), Itacaré (BA), Pipa (RN), entre outros picos. Sonho com Noronha, Maldivas, Tahiti, mar azul e surfar ondas perfeitas com os amigos… Logo logo eu chego lá.

 

Qual a relação entre o surfe e o “róque”?

 

É total a relação e até meio difícil de falar. O som  instiga o surfista, o faz viajar, arriscar aquela sonhada manobra. Qual surfista já não se flagrou dentro d’água cantarolando trechos de uma música que curte, e qual roqueiro surfista que ao compor uma música não se imaginou deslizando sobre as ondas do mar ao som da canção que mais gosta?  Pra mim, surfe e “róque” se fundem em um estilo de vida aliado à paz e natureza; com a missão de mudar para melhor nossas vidas.

 

Existe  surf music brasileira? Quem está fazendo?

 

Sim, surf music sem fronteiras inspirada em nossos campeões, nas nossas praias, no jeito brasileiro de ver o surfe como estilo de vida e fonte de inspiração como esporte magnifico que é. Hoje, vejo grandes compositores do mar, poderia citar o Rick Werneck – que usa água salgada para temperar suas músicas – dentre outros, a procura de um novo som.

 

Que tipo de som você anda fazendo?

 

Uma misturada que aponta pro “róque” calcada no surfe, mensagens positivas e muito, muito barulho. Definiria como pesado doce.

 

Viver de música é facil?

 

Definitivamente não. O músico brasileiro é pouco valorizado em seu país. Fazer arte e viver da sua arte é quase que uma utopia.  Muitos tentam, poucos conseguem.

 

Mande uma mensagem para a galera.

 

Fé, muita fé para vencer os obstáculos dessa vida. Ande na frente, faça um mundo diferente e melhor para nossos filhos. Nada de violência, só paz!  “… e todo mundo é igual no mar, vira a imagem do homem que criou…”.

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