Depois que me tornei papai, há poucos meses, além das usuais palavras de incentivo e carinho, ouvi dos amigos também piadas do tipo: ?Diga adeus à sua vida de viajante e explorador, agora você terá de ficar em casa, cuidando da cria?.
Clique aqui para ver as fotos
Com essa perspectiva em mente, enquanto estava ?preso? em casa durante as sonecas do bebê, peguei meu laptop e aproveitei a conexão sem fio do meu vizinho (que gentilmente me cedeu a senha) para viajar mais uma vez no Google Earth.
Essa incrível ferramenta de exploração do nosso planeta, através de imagens fornecidas por satélites, está disponível para acesso público desde junho de 2005, quando o Google comprou um sistema pago chamado ?Keyhole?.
Considerando o já conhecido poder de busca do Google na internet e sua interface amigável, fiquei bastante impressionado com a capacidade que a ferramenta possui de viajar pelas orlas do planeta com velocidade, precisão e beleza.
É uma sensação incrível poder visitar lugares inusitados onde procurei por ondas surfáveis num passado não muito distante, como Paquistão, Madagascar, Maluku ou Índia. E o Google Earth nos leva a estes lugares como um tapete mágico voador, sem os desgastes nem os riscos de uma viagem rumo ao desconhecido.
Desde que descobri essa alucinante ferramenta comecei a explorar com eficiência, e apenas alguns cliques, o que existe além da próxima costeira nos litorais do mundo (desde que a região em questão possua imagens de alta resolução).
Nesse meio tempo, a revista norte-americana Surfing Magazine lançou um desafio chamado Google Earth Challenge, que convida o leitor a encontrar um pico, criar uma imagem, enviar para o concurso e, se alcançar o potencial máximo para surf em pontos, ganha da revista a surf trip com tudo pago e direito a acompanhantes.
Empolgado, aguardei pelo momento certo de fazer uma nova busca na web, mas infelizmente acabou o prazo para concorrer no desafio (o vencedor será anunciado em breve). Mas voltando ao GE, fiquei extasiado com a quarta versão do software, atualizada com novas tecnologias e banco de imagens constantemente alimentado.
É importante destacar que não são imagens ao vivo, mas uma espécie de mosaico com imagens sobrepostas de diferentes dias – todas registradas há no máximo três anos. O controle permite que o usuário amplie ou diminua, movimente a visualização para cima, para baixo, para os lados e principalmente mude o ângulo de visão, o que gera um impressionante efeito 3D.
É claro que a qualidade e precisão das imagens dependem de onde você está. A partir de uma certa altitude (1,8 km), as imagens aparecem em melhor resolução. Mas fora dessas zonas, em cerca de aproximadamente 90% da costa do planeta, a resolução é relativamente baixa.
##
Locais como Europa, África e Leste da Ásia estão nesse grupo, mas América do Norte, Austrália e algumas regiões nas Américas Central e do Sul possuem melhor qualidade.
Nestas zonas de alta resolução (que felizmente aumentam a cada dia), é possível descer a cerca de 5 mil pés e, ao mudar o ângulo, o resultado é algo parecido com a visão de uma águia sobrevoando a região.
Os recursos disponíveis para você explorar seu pico favorito, ou ir além, tornam fácil entrar de corpo e alma nessa busca virtual.
Uma opção chamada ?controle de vôo? permite que o usuário navegue como se estivesse num game de simulador de vôo. Quando você se movimenta com velocidade perto de montanhas, por exemplo, a sensação de vôo é bem real.
Para checar com precisão as condições para o surf de uma região, é necessário escolher uma área de alta resolução que tenha sido registrada em um dia de swell, de preferência com vento terral (a região de Taranaki, na Nova Zelândia, é boa mas o vento é maral).
Experimente lugares como o Sul da Califórnia (Blacks, Trestles) ou Rincon, em Porto Rico, Sumba, na Indonésia, ou Sydney, na Austrália ? entre várias outras, em que é possível ver a linha das ondas, a quantidade de surfistas no outside e até identificar os modelos de carros no estacionamento.
Uma vez que você checou um pico por completo, é possível marcá-lo com o nome ou um símbolo, assim fica fácil voltar com apenas um clique e levar de bônus uma viagem virtual – como se fosse um astronauta aterrissando. Além da altitude, o painel de controle exibe com precisão a latitude/longitude (para marcar no GPS) e a escala de tempo que leva para carregar a imagem.
É claro que para desfrutar de toda essa tecnologia é preciso estar a bordo de um computador razoavelmente novo e potente, além de uma conexão de internet de alta velocidade. Mas o melhor de tudo é que o Google Earth é gratuito.
Também existem duas opões de modelos pagos, o GE Plus (US$ 20 por ano) e o GE Pro (US$ 400 por ano), com diferenças nas opções de recursos e ferramentas e resolução das imagens (caso o usuário queira salvar fotos).
Trata-se, sem dúvida, de uma revolução na busca por novos points de surf. Como manter os picos secretos de agora em diante? E onde as crianças encontrarão motivação para encarar as dificuldades de viajar em busca de novos picos se eles já terão a sensação de terem estado lá?
Bem, atualmente apenas 10% da orla mundial estão cobertas e muitos picos foram registrados em dias nublados ou sem ondas (ondulações geradas por ventos normalmente vêm acompanhadas por nuvens, então céu limpo significa ausência de swell na maioria dos casos).
E como já diz o velho ditado ligado ao surf, se você não checar, mesmo com um superaliado como o GE, jamais saberá! Agora preciso ir, o bebê está chorando!
Para saber mais acesse http://earth.google.com/index.html .
*Antony “Yep” Colas é autor dos três volumes do consagrado World Stormrider Guides, um dos mais completos guias de surf do mundo, criador do site Surftrip.net e já viajou pelos quatro cantos do planeta atrás de ondas perfeitas e lugares selvagens.