Quando cheguei ao trabalho na última quarta-feira (5/12) e abri o site Waves.Terra, fiquei muito feliz.
O segundo lugar do Leo Neves em Sunset, em condições pesadas, era o que todos os surfistas brasileiros precisavam.
Em seguida, fui direto ao site Surfline para ver o que os gringos estavam falando. Abri a reportagem ?Rothman wins Sunset? e fiquei com muita raiva. Colocaram duas fotos do cara que ficou em quarto, muitas do Fanning e nenhum comentário ou foto do Leo.
Na mesma hora escrevi um e-mail para Marcus Sanders. Perguntei a ele qual era o problema e por que ele odiava os brasileiros.
Falei que qualquer um daquela final, se tivesse vindo de onde o Leo veio, não estaria no WCT. Comparando-os com o Leo, são um bando de ?mulherzinhas?.
Em seguida ele me respondeu que adicionou duas fotos do Leo e estava encaminhando meu e-mail para o autor da reportagem. Vale citar o profissionalismo do Sr. Sanders, respondendo os e-mails.
Não conheço o Leo Neves, mas o admiro muito. A minha admiração vem do fato de ter passado por algo parecido com o que ele passou.
Vir do subúrbio do Rio de Janeiro e conquistar um lugar ao Sol, em mercados que tradicionalmente não são de um suburbano carioca, merece louvor.
A ida até a praia é uma luta. Ou seja, o que seria mais elementar para qualquer outro surfista, para ele foi uma luta. Se não teve moleza para chegar à praia na infância, não teria moleza quando chegasse ao WCT.
O casamento dele com sua esposa peruana foi fruto do tanto que ele se dedicou para estar onde ondas perfeitas estivessem.
Depois de passar por cima de um monte de adversidades, qual seria a dificuldade de passar por cima de um monte de pessoas que pensam que são melhores do que ele porque falam inglês?
Imagino que ele deve ter olhado para aqueles caras antes da final e pensado: ?se esses #/$* tivessem vindo de onde eu vim, eles não estariam aqui!!!!
Entrou na final, surfou com raiva e encheu as ondas de porrada. Vale citar que Sunset, quando não está perfeito e grande, é muito difícil, o que multiplica por 10 a grandeza da conquista dele.
Também garanto para vocês que tinha gente sinalizando para o Makua onde ele tinha que se posicionar e quando a série ia entrar.
Em relação a talento, posso citar um monte de talentos que ficaram na memória sem escrever seu nome na história.
O talento é o que permite ao profissional receber atenção de quem talvez possa remunerá-lo por esse talento. Isso pode, talvez, ser o início de uma bela carreira.
Essa vitória não é a vitória de um surfista talentoso. É a vitória de um cara que tem a auto-estima bem trabalhada, que vai lá e briga de igual para igual com qualquer um.
Quando o Heitor ganhou o campeonato nas Maldivas, abri o Surfline, achei que eles não deram o destaque merecido e fiz a mesma coisa. Escrevi um e-mail falando um monte para esse Marcus Sanders.
O Heitor, quando chegou ao Rio – não me recordo se foi em 97 ou 98 – não tinha dinheiro para comprar uma bermuda. Estar no WCT o torna plenamente apto a ser um campeão mundial.
Gostaria muito que o Heitor Alves se espelhasse na primeira temporada do Leo no WCT, olhasse para os caras entrando com ele na bateria e se lembrasse de onde ele veio, de como foi difícil o começo.
Se ele passou por tudo que passou, pode também passar por cima de mais um loirinho falando inglês. Heitor, mostre a eles que você é um cabra macho arretado, assim como o Leo mostrou que é um sujeito casca-grossa.
Ao acordar e olhar no espelho, diga para você: EU POSSO!!!