Vida e obra de um visionário

Visionário, audaz, empreendedor, vanguardista… Todos esses adjetivos compõem a personalidade de Roberto Valério, um dos maiores exemplos a ser seguido na história do surfe brasileiro, tanto como surfista profissional quanto empresário do ramo de surfwear.

 

Nascido na Inglaterra, Valério teve sua maior conquista em 94, durante o Mundial Amador da ISA (International Surfing Association), atualmente chamado Jogos Mundiais de Surf, quando houve uma maratona de aproximadamente duas semanas na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

 

O vice-campeonato conquistado pelo Brasil na disputa por equipes levou Valério à glória e à realização de um antigo sonho.

 

Isso trouxe inúmeros elogios ao evento, feitos por várias publicações especializadas em todo o mundo, apontando o campeonato como a maior e melhor estrutura de todos os mundiais amadores desde sua criação.

 

Com 15 anos de idade, viajou com o pai para uma conferência de Física em Los Angeles (EUA), fazendo uma escala no Hawaii, sua primeira visita ao arquipélago. Sempre fissurado pelas ilhas, seu forte eram as ondas grandes, e Sunset, seu pico predileto. Sempre que o mar estava de gala naquela praia, Valério estava com sua ‘gun’ no outside e era um dos mais atirados. 

 

Entre os anos de 81 e 86, ele fez parte de um grupo de atletas que sempre subia no pódio nas principais etapas do circuito brasileiro e de campeonatos válidos pelo circuito mundial. Seus melhores resultados, dentre vários, foram o 5° lugar na World Cup em Haleiwa, 7° lugar no World Cup, 9° lugar no Pro Class Trials e 11° lugar no Billabong Pro.

 

Como atleta profissional, sempre demonstrou total controle e dedicação. Seu principal adversário era o carioca Cauli Rodrigues.

 

Com o desfecho da equipe Rico, da qual faziam parte, Cauli Rodrigues e Valério iniciam a fabricação de bermudas para surfistas, criando assim a Cyclone/Cylinders. Cauli se desvinculou de Valério vendendo sua parte, e com isso Roberto se associou à Company, na época uma mega-empresa.

 

Juntas, as duas empresas formaram um grande casamento e investiram forte no surfe brasileiro, com campanhas publicitárias alucinantes e criativas, estrutura de marketing que poucas ou nenhuma empresa possuía na época, campeonatos de alto nível e uma equipe fortíssima que serviu como ponto de referência para outras marcas – a Company/Cyclone revelou talentos como o cabofriense Vitor Ribas e o paranaense Peterson Rosa, surfistas que hoje fazem parte da elite do circuito mundial.

 

Com o passar do tempo, Valério passou a se dedicar com afinco à Cyclone e, aos poucos, foi se desvinculando do surfe competição. O foco principal era o surfe amador, e sempre que percebia um novo talento, lapidava e investia, não só pelo lado financeiro, mas também com um forte apoio psicológico, agindo quase como um pai ou um irmão mais velho.

 

Ao lado de surfistas do calibre de Pepê, Cauli Rodrigues, Paulo Proença e Daniel Friedmann, conquistou uma enorme reputação no exterior pelo profissionalismo e perseverança. Esses atletas, além de outros, foram os precursores da invasão brasileira do tour para as futuras gerações. 

 

No dia 9 de julho de 94 (época da Copa do Mundo, dia do confronto entre Brasil e Holanda), passando pelo túnel Rebouças em direção à Lagoa após mais um dia de trabalho, Valério sentiu uma forte crise de asma e foi direto ao Hospital da Lagoa para ser socorrido, mas não resistiu e faleceu.

 

Segundo o laudo médico, sua morte foi causada por um aneurisma cerebral, aos 34 anos. O Brasil perdia um dos maiores ícones do surfe nacional e grande exemplo para as próximas gerações.

 

Valério estava de casamento marcado com sua namorada de vários anos, feliz com a idéia de formar uma família, pouco tempo depois de realizar um grande sonho, o campeonato mundial amador na Barra da Tijuca.

 

Depois de nove anos, Roberto Valério ainda é lembrado com saudosismo e admiração por todos que fazem parte desse grande universo chamado surfe. Uma das inúmeras homenagens feitas a ele foi a criação da Taça Roberto Valério, com etapas válidas para o ranking brasileiro amador.

 

Sempre muito elogiado por atletas, funcionários, mídia e amigos, Valério foi uma importante influência para todos que o conheceram. Viveu intensamente e com certeza cumpriu da melhor maneira sua missão.

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