Viciado em água salgada

Salvar vidas não é uma tarefa para qualquer um. Fazer isso no Hawaii, onde o mar possui uma força descomunal, correntes poderosas e ondas gigantes, além de pedras e corais no fundo, sem falar nos tubarões, pode parecer coisa de maluco. Mas foi justamente essa profissão que o brasileiro Vitor Marçal escolheu.

 

Radicado nas ilhas havaianas, Marçal atua há sete anos como salva-vidas no North Shore de Oahu, região que abriga as principais arenas do surfe mundial, como Waimea, Pipeline e Sunset Beach.

 

Além de trabalhar na elite do salvamento aquático havaiano, ele também é um waterman completo e pratica várias modalidades de esportes com prancha, como surf, tow-in, kitesurfe, kitefoil, remada em canoas havaianas, travessias de corridas de pranchas de remada, moutain bike, jiu-jitsu no verão, mergulho e golf. Mas, sua grande paixão é o foilboard ou foilsurfing, modalidade na qual é um dos pioneiros.

 

Em entrevista exclusiva a Bruno Lemos, Marçal fala sobre sua profissão, os cuidados que se deve ter na hora de encarar as ondas havaianas e os novos esportes com prancha que prometem revolucionar o futuro dos esportes de ação.

 

Quais são os principais pontos necessários para ser aceito como salva-vidas no Hawaii?

 

Ter um certo conhecimento da área local, das ondas, correntes, uma boa forma física, disposição, passar no teste físico de mil jardas na corrida e mil nadando em menos de 25 minutos, remar uma prancha de doze pés indo e voltando quatro vezes num total de 400 metros em menos de quatro minutos e correr 100, nadar 100 e correr mais 100 metros em menos de três minutos, ter credencias e cursos de primeiro socorros e um curso de ressuscitamento cardiopulmonar (CPR), outros cursos como scuba, etc. Os melhores resultados vão para uma entrevista, em que você é ou não aceito, e então fará um curso de três semanas e meia, com todas as técnicas de salvamento dentro dos padrões e regras do Estado havaiano e norte-americano.

 

Quais são as vantagens e desvantagens dessa profissão?

 

Vantagens: estilo saudável de vida, teu escritório é na praia, é uma gratificação pessoal única ajudar e salvar vidas, também tem uma aposentadoria, auxílio médico hospitalar, dentista. E por estar num dos lugares mais visuais de onda no mundo. Desvantagens: o salário é razoável considerando as condições do inverno havaiano, alguns se machucam em resgates, você arrisca sua própria vida para salvar uma outra, o nível de stress no inverno é alto, mas amo meu trabalho.

 

Qual o momento mais marcante da sua carreira?

 

Uma gratificação única e um bem estar em saber que você fez uma diferença na vida de uma pessoa, como um senhor de 73 anos que eu ressuscitei e viveu, ele me disse: “Deus foi a primeira pessoa que me deu a vida, a segunda foi meu pai e você me deu ela de novo pela terceira vez”.

 

Durante os últimos anos ocorreram muitos afogamentos, desaparecimentos e até mesmo algumas mortes no North Shore relacionadas ao oceano e/ou ondas grandes. Quais foram os casos mais famosos e quais os conselhos para evitá-los?

 

Tivemos muitos incidentes em praias na costa do North Shore que não são guardadas pelos salva-vidas, como Keiki, Logs, Backyards, Mokuleia e outras. Muitos desses incidentes também aconteceram antes das nove da manhã e depois das seis da tarde, considerando que fazemos hora-extra dependendo das condições, especialmente se o mar está subindo durante a tarde. Ultimamente fizemos muitos resgates após o horário de trabalho, ou seja, praticamente no escuro. Outros casos foram em lugares onde todos sabemos existir a probabilidade de ter tubarão, temos um dos mais perigosos do mundo habitando as águas havaianas. Tivemos uma garota militar que desapareceu no quebra côco de Waimea à noite e recentemente uma outra em Backyards que não foi encontrada, além de um turista alemão no reef de Velzyland em direção a Revelations. Tentamos ressuscitar um argentino em Logs e usamos todos os recursos disponíveis, mas ele tinha ficado embaixo por muito tempo e provavelmente sofreu um grande impacto, que provocou um desmaio e eventualmente veio a se afogar.

 

Um conselho, em geral para os caçadores de fama e fotos: respeite as condições, se informe melhor sobre as condições do mar, vento, correntes, bancada, canal, etc. Surfe em lugares com salva-vidas, procure obter informações das ondulações que podem ou não crescer durante o decorrer do dia, esteja em boa forma, tenha uma boa atitude, conheça seus próprios limites e vá aos poucos se adaptando às condições do lugar, pois o mar aqui vai de 2 a 20 pés em poucas horas. Um conselho especial: pegue a famosa onda “saideira” antes do sol se pôr, ou a possibilidades de você ficar lá fora e virar parte da cadeia alimentar marinha é grande. Tivemos casos de surfistas resgatados pela guarda costeira às 10 horas da noite no outside de Pipeline. As correntes aqui são muito fortes, como a de Waimea, Pupukea (Pipe), Sunset, Backyards e Phantoms, e se você perder a prancha se prepare para usar o plano B, pois será no mínimo 45 minutos a uma hora de nado até a praia. Não é sempre que a equipe de resgate vai estar na área, a costa do North Shore é grande.

 

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Que outras atividades você pratica e qual a que mais gosta?

 

Estamos aqui por um período curto nesta vida, quero aproveitá-la a cada hora. Moramos numa ilha e há muita água ao redor, então o negocio é se molhar. As condições aqui proporcionam uma quantidade enorme de esportes. Venho do surf, gosto de testar o que é novo, experimentar diferentes emoções. Faço tow-in, surfe, kitesurfe, kitefoil, remo nas canoas havaianas, faço travessias de corridas de pranchas de remada, moutain bike, jiu-jitsu no verão, mergulho, golf… Mas minha paixão mesmo é o foilboard ou foilsurfing, que provoca uma sensação única e indescritível.

 

Como você iniciou na pintura, qual seu estilo e de onde vem a sua inspiração?

 

É só um passatempo, uma descompressão de todas estas atividades, a pintura me relaxa. Meu estilo é o mais realista possível, sou muito detalhista, uso acrílico na tela. Pinto tartarugas marinhas pela dificuldade dos detalhes, como o casco, água, luz, sombra, cores e texturas dos corais, tudo num só elemento. Mas venho pintando alguns 

gorilas também, acho impressionante a expressão do olhar humano neles. Minha inspiração vem dos artistas locais, como Wyland, Cris Lassen, mas sempre procuro aprender alguma coisa nas obras de Leonardo da Vinci. Quero também desenvolver novos estilos e técnicas com temas diferentes, como ondas, surf, cultura havaiana, etc. Atualmente meus quadros custam de US$ 300 a US$ 5 mil os originais.

 

Fale sobre como e aonde surgiu o foilboard, qual o tipo de onda ideal, os principais praticantes e dificuldades?

 

O esporte surgiu em Maui, através de experiências com uma cadeirinha equipada com um hydrofoil feita por Rush Randle, Laird Hamilton, Mark Angulo e Bret Lickle, que adaptaram a quilha numa prancha e testaram em pé nela, puxados pelo jet-ski, e logo depois nas ondas. O tipo de onda ideal é o vagalhão, que não quebra. É  incrível poder surfá-las planando numa quilha de quase um metro. Também há possibilidade de surfar ondas que quebram, vai depender do tempo e experiência do surfista.

 

Você é capaz de surfar partes da onda que nunca imaginaria ser possível, a velocidade e a suavidade são incríveis, você pode surfar por um longo tempo. Surfamos muitos dos outside reefs, ondulações que formam bem lá fora. O Rush Randle é o melhor da modalidade, trocamos muitas idéias e fatos, fazemos estudos e ajustes na quilha de hydrofoil e comparamos quando nos encontramos. Laird, Dave Kalama, Pete Cabrinha, Archie Kalepa, Kevin Ozzie são caras que andam muito, e no Brasil o Luis Gontier (Pipo) também vem arrebentando nas águas do litoral paulista. As dificuldades estão no fato de que para aprender ,você precisa de um bom piloto no jet-ski, muita paciência e lembre: você está quase um metro fora da água, quando você cai há um certo impacto. Utilizamos botas de snowboard e estamos conectados com a prancha, e em alguns casos tem que tomar algumas ondas na cabeça – mas há um dispositivo rápido caso tenha que se desconectar. O equilíbrio na onda é fundamental, a quilha é muito sensível e a foil atinge velocidades que podem chegar a 60 km por hora.

 

Será que daria para fazer foil na Pororoca? Você tem planos de tentar?

 

Foilboard na Pororoca é meu sonho. É possível, mas difícil, pelas fotos parece que há muitas coisas na superfície, alguns lugares rasos. Mas estamos planejando, vai acontecer, é também um plano do Rush Randle nos acompanhar neste projeto.

 

Dá para pegar tubo com o foil em ondas grandes?

 

Dá para pegar ondas grandes, já experimentei nuns 15 pés, o difícil é segurar a velocidade  numa onda deste tamanho. Acredito que num futuro muito próximo, com o desenvolvimento na tecnologia, no desenho e nos materiais do hydrofoil, seremos capazes de surfar ondulações oceânicas de 100 pés ou mais. Para dar uma idéia, quando imaginávamos surfar lugares não imaginados numa onda, definitivamente a foilboard estará desenvolvendo muitas outras idéias em quilhas para pranchas de surf. Pegar tubo com uma foilboard é uma incógnita, ainda não soube e não vi, e só acreditarei vendo. A quilha de hydrofoil é muito sensível na parte mais oca da onda, há uma certa possibilidade se você baixar do foil para a prancha, mas aí você não estaria surfando em cima da quilha, não é impossível.

 

E o kite, como você descreve o esporte? Como é fazer kite com a prancha de foil, é muito diferente?

 

O kite surgiu e nos ofereceu uma opção nos dias de vento e poucas ondas no verão havaiano. A velocidade, os saltos, é uma adrenalina diferente. Depois apareceram as manobras e o kitesurf nas ondas. É  um esporte perigoso em condições erradas de vento, mas muito emocionante quando executado com segurança e cautela. O kite com a foilboard ou o kitefoil é um esporte diferente, você precisa de menos vento, um lugar razoavelmente fundo, pois a quilha mede quase um metro, não há atrito de prancha e água, e sim um silencio. Você controla dois animais diferentes ao mesmo tempo, não é difícil, o kite e o foil são duas forças que querem te tirar da água, é necessário muito controle e, claro, saltos e piruetas são manobras possíveis.

 

Ouvi falar que agora tem até canoas havaianas com kite, você já viu isso?

 

É como eu dizia, não vejo a hora de testar este brinquedo, já vi e achei muito interessante, você precisa de um cara para controlar a canoa e outro no kite e ambos devem sincronizar os movimentos. Já vi fotos com o kite tirando a canoa de quatro pessoas da água. Estarei este verão fazendo um kitecanoe em umas das primeiras tentativas no North Shore com o Bonga Perkins como o stirman (controlador da canoa). Muitos já vêm fazendo em Maui.

 

Qual o momento dessa última temporada que mais te impressionou e por quê?

 

As ondas do dia 10 de janeiro em Jaws e Danilo Couto arrepiando de backside nelas, baiano é cabra da peste, aquelas ondas são de uma outra dimensão. Aloha!

 

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