O baiano Uri Valadão é um dos maiores competidores da atualidade. Acumula títulos, viagens e experiência, apesar da sua pouca idade – 21 anos.

 

Em 2005, com apenas 20 anos, foi tricampeão baiano, bicampeão brasileiro, campeão Latino americano, Pan-americano e o melhor brasileiro no ranking mundial – na quinta colocação.

 

Nessa entrevista, o super campeão fala sobre competição, estudos, treinamento, sonhos, planos e parte da sua vida pessoal.

 

O que os títulos do ano passado trouxeram para sua vida e como se sente?

 

Me sinto extremamente feliz, 2005 foi um ano espetacular para mim. Tive grandes experiências e considero cada um desses títulos com grande importância na minha vida.

 

Conquistei meus primeiros títulos internacionais, mesmo com todas dificuldades – falta de patrocínio – que enfrento desde o início da minha carreira. O ano passado foi muito importante, me deu força para continuar acreditando nos sonhos.

 

Continuar lutando com garra e coragem pelos meus ideais. Mas apesar das conquistas, tenho consciência da longa caminhada que tenho pela frente, estou apenas no início.

Como foi vencer em Sintra,  prova importante e tradicional do tour Mundial?

 

Quando falo de Sintra, sempre me emociono lembrando os momentos que passei durante o campeonato. Eu já tinha batido na trave várias vezes, fiquei duas vezes em quinto e não passava disso.

 

No ano passado, estava confiante e determinado. Pensava muito no título, para mim Sintra sempre foi a melhor etapa, os atletas sempre são valorizados e o nível da organização é muito melhor que as demais etapas do mundial.

 

Ano passado foi recorde de inscritos, era a oportunidade que tinha de conquistar espaço dentro das competições internacionais. Durante o evento, ganhei confiança ao passar as baterias e minha performance cresceu no decorrer do campeonato.

 

Passei por momentos delicados nas baterias, na maioria delas estava perdendo e virava o resultado nos últimos minutos. Alguns brasileiros perderam no início e achei legal que torceram muito por mim e pelos que restavam na batalha.

 

Absorvi a energia boa da torcida e fui adiante com garra. Na final, parecia mentira estar competindo o bicampeão mundial Damian King, David Perez – defendendo o título da etapa e Cristian Perez, um dos maiores atletas da Espanha.

 

Estava perdido na quarta colocação até os cinco minutos finais. Me concentrei, acalmei e peguei duas ondas boas na seqüência e virei pra primeiro. Foi um momento inesquecível. Saindo da água, olhei primeiro pra galera do Brasil e todos gritavam levantando a bandeira.

 

Não consegui comemorar muito antes da divulgação oficial, estava nervoso. Quando saíram as notas oficiais foi uma sensação indescritível. Gritei muito e agradeci ao público que torceu por mim. Depois que retirei a lycra, só queria ligar pra minha família no Brasil e falar o resultado. Nessa hora foi um choro de cada lado. Foi um dia especial!

 

Você é um dos principais representantes do país nas competições internacionais. O esporte te dá infra estrutura para viajar e viver com tranqüilidade?

Essa infra eu ainda não tenho, é minha maior dificuldade. Preciso viajar mais para treinar e me focar 100% no mundial. Por enquanto está complicado, sempre tenho que dar um jeito para competir no exterior.

 

Tenho alguns apoios importantes: Gênesis, Tâmega, Kpaloa e academia Rhanc. Graças a Deus estão do meu lado, apoiando e contribuindo para minhas conquistas também.

 

O que preciso mesmo é de um patrocínio principal, que me dê tranqüilidade e sustentação financeira dentro do esporte.

 

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Qual seu maior sonho como atleta profissional?

 

Meu grande sonho é ser campeão do mundo! Sei que não é nada fácil, pelo contrário, o esporte cada dia evolui mais e nos campeonato as disputas estão muito niveladas e extremamente difíceis.

 

A vontade é grande e espero um dia poder realizar este sonho. Aposto no meu amadurecimento e principalmente no profissionalismo.

 

Acredito nos meus resultados e imagem. Sou um bom produto para ser vendido à grandes

empresas. Sonho também com o crescimento e amadurecimento do esporte. 

 

Para ser campeão do mundo, é preciso viajar e treinar em ondas pesadas como Shark Island e Pipeline. Como foi seu último contato com esses picos?

 

Me sinto melhor, mais à vontade em determinadas situações. O processo de adaptação leva um tempo, mas sinto uma grande melhora na minha linha em ondas grandes.

 

Quero ter oportunidades de treinar mais neste tipo de onda e espero conseguir ir pra Shark Island no final de junho. A grana tá curta e por enquanto não tenho dinheiro para viajar.

 

Tô batendo perna, me apresentando em empresas, apresentando projetos, mas não tenho nada concreto para garantir minha viagem.

 

Existem na Bahia, rasas bancadas de pedra com ondas grandes. É um bom treinamento para competições no formato de Shark Island e Pipe?

 

O Estado da Bahia é rodeado de bancadas de coral e pedra. Tem muitos picos com grande potencial. Aquele que sabe explorar, consegue um excelentes treinamento. Salvador é, com certeza, o Estado com maior concentração de bancadas de pedra do Brasil.

 

Em Salvador, existem mais fundos de pedra do que areia, aqui tem todo tipo de onda. Para ser perfeito, falta apenas ondulações grandes e constantes. Se tivéssemos as ondulações da Austrália, a Bahia seria um dos melhores lugares de onda do mundo.

 

Tem um pico que lembra muito Shark Island, onda extremamente perigosa, de bancada bem rasa. A onda muitas vezes deforma no estilo Shark. Costumo treinar bastante por lá.

 

Existem muitos outros picos, com estilos diferentes, mas perfeitos também. Como Pipe não existe, é uma onda única, acho que não existe nada parecido no mundo.

 

Como é sua preparação física e psicológica?

 

Tento treinar dentro da água, o máximo de tempo possível na semana. Malho na academia, corro na orla e às vezes pratico outros esportes para manter o condicionamento físico.

 

Na parte psicológica, faço treinamento específico de competição na Escola Gênesis durante a semana. Mas o que me deixa bem, psicologica e tecnicamente, é o meu treino diário. Se estou concentrado e surfando bem, automaticamente estou confiante.

 

Gosto de ler alguns livros, ajudam a manter a mente tranqüila e flexível. Isso acontece principalmente quando vou surfar em ondas de risco. Gosto também de fazer alongamento e meditação.

 

Analise o cenário organizacional do esporte no Brasil?

 

Vivemos um momento importante, o bodyboard viveu uma fase muito boa nos anos 80 e início dos 90, o esporte era centralizado, restrito ao eixo Rio-São Paulo.

 

Agora está havendo uma descentralização, na maioria dos Estados acontecem circuitos regionais, eventos importantes. Os líderes do esporte estão em todo o país, bem distribuídos e isso é excelente.

 

O Brasil é grande e precisa de muitas e boas cabeças. Estou muito feliz em ver os Estados se consolidando com grandes lideranças, Federações se fortalecendo e trazendo mais praticantes para o nosso esporte. Movimentando o mercado em cada região.

 

A Bahia é um grande exemplo de evolução. Nos últimos dois anos deu um salto em termos de organização e amadurecimento, foi fundada a Febeb- Federação de Bodyboard do Estado da Bahia, com uma equipe sólida e propostas excelentes.

 

Os bodyboarders baianos estão unidos e seguindo o mesmo caminho, com um único objetivo: fazer do bodyboard um esporte grande. Isso é maravilhoso!

 

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Como você encara a falta de patrocínio sendo um atleta de ponta?

 

O BB é um esporte novo e ainda nos sentimos pequenos dentro desse país imenso e com um mercado de surfwear gigante.

 

Tudo isso está mudando, estamos mais profissionais e nos valorizando mais também.

 

Somos campeões mundiais diversas vezes, o BB é um dos esportes que mais trouxe títulos mundiais para o Brasil. Temos que levantar a cabeça com orgulho e lutar pelo que merecemos.

 

Você estuda ou vive apenas para o mar? 

 

Estudo sim, fiquei afastado por dois anos, me dedicando às competições. Quero manter os estudos em paralelo, acho fundamental. Carreira de atleta é curta e temos que construir outras coisas na vida. Além disso, o mais importante é ampliar meus conhecimentos, por isso voltei a estudar Biologia.

 

Como concilia as viagens e a faculdade de Biologia?

 

Tento estudar mais nos momentos sem campeonatos e quando preciso viajar, converso com professores e faculdade pra não ser prejudicado. Meu objetivo como Biólogo é trabalhar numa área de preservação ambiental.

 

Nós – seres humanos – estamos destruindo o mundo e nos destruindo também. Quero contribuir ao máximo na melhoria do meio ambiente. Somos bodyboarders, temos dever e obrigação de manter nosso habitat limpo e incentivar as pessoas neste sentido.

 

A família apoia seus projetos?

 

Minha família é espetacular, sempre me apoiaram muito nas viagens e sempre respeitaram minhas decisões em todos os sentidos. Meus pais são pessoas maravilhosas, inteligentes, sensíveis e que amam ver seus filhos fazendo o que realmente gostam.

 

Sempre fui incentivado a praticar esportes, fiz todos os que quis e por isso tenho facilidade para praticá-los. Minha família é a maior responsável pelo meu sucesso, todos eles, meus irmãos também.

 

Qual a importância da escola Gênesis na sua vida?

 

A escola Gênesis é tudo pra mim. Sempre fez parte de minha vida e continua fazendo. É uma das  grandes responsáveis pelo meu sucesso e também faz parte de minha família.

 

Muito do que aprendi como atleta e ser humano, foi graças a essa instituição educacional que me ensinou grandes valores de vida. Todas as minhas fases no BB foram nela. Momentos de dificuldade, alegria, emoção e muitos sentimentos juntos no mesmo ambiente saudável. Essa escola é minha paixão eterna!

 

O que a Bahia representa na sua vida?

 

Tenho orgulho de ter nascido aqui! Um lugar com uma extensão de praia enorme, cheia de bancadas de pedra, cultura diferente e única, um calor maravilhoso, culinária especial.

 

As pessoas são tranqüilas e quentes ao mesmo tempo, tudo isso me prende a essa terrinha espetacular. É onde recarrego minhas energias.

Após tantas viagens e influências culturais, o que mais te caracteriza brasileiro?

 

Minha alegria, descontração e garra. Também a maneira que enxergo o mundo. Basicamente é isso.

 

Você toparia sair do Brasil se isso te aproximasse do título mundial?

 

Penso muito nisso, as oportunidades no Brasil são poucas. Mas também não adianta viajar pra fora, sem uma estrutura por trás, alguma proposta interessante que faça valer a pena sair do Brasil. Mas é algo para se pensar.

 

Quais os ideais que movem sua vida?

 

Ser campeão do mundo é meu maior ideal. Através de um título como este, chegarei a estabilidade que preciso. Tenho ambições de ajudar pessoas que precisam mais no futuro.

 

Participar de projetos de inclusão social, como o Criançada Nas Ondas, que aconteceu aqui na Bahia e acabou por falta de apoio. O Instituto Neymara Carvalho é uma iniciativa extremamente positiva.

 

Tenho sonhos de ajudar pessoas fora do esporte também. Estou amadurecendo e com o tempo, minha mente ficará mais clara nesse sentido. Quero atuar também em projetos de preservação ambiental e quem sabe unir o bodyboard e a biologia, na realização do sonho maior que é a felicidade coletiva.
 
Quem é Uri Medeiros Valadão?

 

Hummm… Difícil falar de mim! Uri é uma pessoa simples, feliz e que sempre tenta agradar as pessoas, independente das diferenças. Sou tranquilo, gosto de fazer amizades e de conhecer as pessoas em seu interior.

Amo a natureza, meus amigos, família, BB, competições e a vida!

 

 

 

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