A cena é surreal demais, mas verdadeira. Estava eu, minha mulher e um casal de gringos em uma delegacia no Panamá sendo interrogados por dois policiais tipicamente latinos: roupas cáqui e chapéus de oficiais.
Mas calma, este é só o final da história. Para chegar até esta roubada foi uma longa caminhada.
Fazia tempo que queria fazer uma surf trip. Minha última havia sido há mais de dez anos para Puerto Escondido, México.
Como me casei recentemente, veio a dúvida se a minha mulher iria topar. Topou. Planejamos o Hawaii, mas os hotéis caros e os recifes não me animaram muito. Pego onda de peito e nunca havia surfado sobre rasos corais.
Lembro que vi em um filme chamado Drive Thru South / Central America uma onda que me hipnotizou. Era rasa e oca, localizada no lado Leste do Panamá.
Mais especificamente no pico de Bluff, em Bocas del Toro. Vi fotos e locais para me hospedar. Convenci minha mulher. Ela então queria dividir a viagem. Planejamos dez dias no Panamá e 11 na Costa Rica.
Chegando ao Panamá, vimos que o povo local – bem diferente dos costa-riquenhos – é mais arredio. Talvez seja os anos de exploração dos americanos no Canal do Panamá ou a própria formação do povo. Senti isso quando pisamos no país. Mas até aí beleza. Eles lá e eu cá.
Em Bocas Del Toro, conhecemos um casal de americanos do Oregon, extremo Norte da costa Oeste dos Estados Unidos. Eles se chamavam Bob e Cristine e se deliciavam com a temperatura quente do local.
Surfei quase todos os dias em Bluff. É mesmo a onda perfeita para mim. Cavada, forte e curta. Parece Paúba, litoral Norte de São Paulo, só que quebra um pouco mais no fundo, com a água verde e uma praia bem maior.
Como estávamos alojados em outra ilha, só se chegava a Bluff de barco. Nos últimos dias da viagem, minha mulher e Cristine também queriam conhecer a praia. De barco, elas teriam de nadar para chegar e sair da areia. Não era aconselhado, então pensamos em ir de carro.
Estava chovendo muito. Mas, como é Caribe, o sol pode aparecer a qualquer hora. Pensamos em ir de táxi, mesmo sendo mais caro. Uma empresa de mergulho nos arrumou um taxista. Fechamos o preço de ida e volta por US$ 50. O trajeto dura uns 45 minutos de carro.
Finalmente chegamos. Depois de descer, tentávamos combinar o horário de volta, quando o taxista – um cara de quase 2 metros de altura – disse que o combinado era US$ 50 só para nos trazer.
Ficamos estarrecidos. Como assim? Iríamos voltar como? Tentei argumentar em espanhol que ele não estava sendo honesto. Que ele não podia nos deixar, com as nossas mulheres, no meio do nada. O cara não quis nem saber.
Então falei: “Ok, fecho por US$ 70.”
Nem assim. O cara disse que não voltaria. A discussão durou uns 15 minutos. Pagamos somente pela vinda: US$ 25. O cara disse que iria chamar a polícia e partiu xingando até a terceira geração de nossas famílias.
Ficamos na praia meio tensos. O taxista podia chamar os amigos, estas coisas. Mas desencanamos. E nada de o sol aparecer.
A volta foi um perrengue. A pé, no meio da lama. Bob carregava a prancha, eu com meu pé-de-pato e minha hand gun. Levamos umas duas horas.
O dia seguinte amanheceu com sol. Era o penúltimo dia em Bocas. Fomos até o centro da cidade, quando sinto um dedo nas minhas costas.
– E aí, cadê meu dinheiro? disse o taxista.
Eu parei e falei: “Como assim? Você nos deixa no meio do nada, na chuva, com nossas mulheres e ainda quer dinheiro?”.
Enquanto isso, Bob, Cristine e minha mulher já gritavam para irmos embora. Eles em inglês e minha mulher em português. Segui meu caminho.
Cinco minutos depois, um carro de polícia nos aborda na principal e pacata avenida da vila.
“Temos uma denúncia contra vocês. Vocês podem nos acompanhar?”. Não acreditei, mas logo disse: “Podemos, mas nossas mulheres não precisam ir”.
Ele concordou, mas as duas quiserem ir de qualquer jeito. Fomos a pé e escoltados pela caminhonete dos policiais.
Chegando à minúscula delegacia, a cena, como disse antes, era surreal. A cadeia funcionava junto de pequenas celas. Presos com as mãos para fora da grade nos assistiam. Lá dentro nos esperavam o taxista e um chefe de polícia saído de um filme B.
Ele estava em um local mais alto, como um juiz no tribunal. Pediu que nos explicássemos. Tomei a palavra porque minha mulher, mesmo falando espanhol melhor que eu, estava muito nervosa.
Expliquei o que aconteceu e o rosto do policial foi mudando. De bravo ele acabou ficando, ao ouvir os absurdos porque passamos, com uma expressão de descrença. O taxista tentava argumentar, mas era impedido pelo delegado, ou seja lá o que o cara era.
Quando minha mulher falou que voltamos a pé, no meio da lama e de um lixão (onde fica a onda Dumpers) foi o fim.
Ele chamou o taxista de lado e levou o sujeito lá fora. Passou o maior sabão do mundo no cara. Alívio para nós e para o casal de gringos. Saímos da delegacia com uma impressão do país melhor do que quando entramos.
Cenário quase perfeito O último dia em que ficaríamos no Panamá amanheceu chuvoso. Mesmo assim fui surfar em Bluff. Era uma forma de vingança silenciosa, e de dizer a mim mesmo que podia pegar aquelas ondas quando eu quisesse.
O mar estava com 2,5 metros mexidos, sem nenhuma alma na água. Algumas ondas até abriam, mas mesmo assim o cenário era feio! O barco atrasou. Fiquei surfando sozinho por umas duas horas.
Depois de tudo passou pela minha cabeça que a embarcação não iria me buscar. No final ela apareceu devagarzinho no horizonte e com o simpático índio panamenho dirigindo a pequena embarcação.
Subi no barco com a alma lavada. No caminho, pensei: “As ondas estavam grandes, mas longe da perfeição. De qualquer jeito, foi muito melhor que a roubada na delegacia”.