Em meados de 2011, resolvi dar um tempo em minha vida profissional. Escritório, trabalhos, trânsito, violência e o caos da cidade grande foram deixados para um segundo plano. Por um ano iria conhecer o novo e realizar um sonho: morar na Austrália e, se possível, passar alguns dias na Indonésia.
Este era um sonho que me perseguia desde que comecei a surfar. As longas direitas australianas e as esquerdas tubulares na Indonésia nunca saíram da minha cabeça e, mesmo sendo um sonho distante, sabia que um dia iria realizá-lo.
Embarquei em setembro de 2011 com destino à Gold Coast e já no primeiro mês me estabeleci em Burleigh Heads, uma direita rápida, longa e tubular – o lugar ideal para afiar meu backside. Com o passar do tempo, fui explorando a região e me familiarizando com as ondas pesadas e o crowd intenso.
Com o passar do tempo, porém, Burleigh Heads já não funcionava como antes, e acabei me mudando para Coolangatta, em busca de mais frequência de surf em picos alucinantes como Duranbah (D’bah) e Superbanks. Ah, Superbanks, que saudades! Ondas como Snapper Rocks, Rainbow Bay, Greenmount e Coolangatta jamais serão esquecidas.
Para fugir um pouco do crowd, fiz algumas viagens que me renderam boas ondas. Picos como Cabarita, Byron Bay, Broken Heads e Lennox Heads quebraram clássico e fizeram minha cabeça.
Foram oito meses de altas ondas, porém algo me intrigava: como pode um lugar tão grande não ter um point break de esquerda? Eu nem lembrava mais como surfava de frontside. Tirando algumas perdidas em D’bah (beach break), todos os picos acima são direitas.
Surfar de front virou um desejo. Até que, depois de um dia clássico em Snapper Rocks (leia-se altas ondas e muito crowd), fui jantar na casa de um amigo e, de quebra, assistimos The Drifter, de Taylor Steele, com Rob Machado explorando esquerdas intermináveis na Indonésia.
Este filme foi a inspiração para, no dia seguinte, reservar minha passagem para a Indonésia e ir atrás das tão sonhadas esquerdas tubulares e solitárias. Juntei minhas economias e decidi que ficaria por 20 dias no paraíso das equerdas.
Cheguei a Bali em abril de 2012, começo de temporada, e fiz de Uluwatu o quintal da minha casa. Queria conferir tudo aquilo que Rob Machado falava do pico. Não me decepcionei: assim que cheguei já fui abençoado com um swell que durou cinco dias.
A vista do cliff com os sete picos funcionando é algo que palavras não podem descrever. E, pra quem surfava na Gold Coast, o crowd ali não existia. Era minha primeira vez em um reef break e confesso que no começo fiquei um pouco assustado, mas, com o passar do tempo, nem lembrava mais que o fundo era de um coral bem afiado.
Minha onda predileta de Uluwatu era o Inside Corner, a última onda do pico que funciona com a maré secando de 0.9 a 0.1 – também conhecido como o surf de canela seca. Durante 15 dias surfei só lá, pois queria aproveitar todo o meu tempo naquele pico. Quando chegou a hora de pensar em ir embora, fui conferir minhas economias e me deparei com três opções antes de voltar para o Brasil: voltar para a Austrália por um mês, passar uma semana nas Mentawai ou ficar mais dois meses e meio em Bali. A decisão foi fácil, renovei meu visto e fiquei em Bali.
Com mais tempo, comecei a explorar outros picos de Bali, tive o privilégio de surfar quase todas as ondas da região, como Padang Padang, Impossibles, Bingin, Balangan, Green Bowl, Yang Yang, Sanur, Kuta Reef, Airport Left e Right, Cangu e Balian. Depois de tudo isso, não me conformava em não sair de Bali; queria conhecer outra ilha, e fui atrás do melhor custo-benefício. Acabei indo para Sumbawa e, por 15 dias, surfei Lakey Peak, Lakey Pipe, Cobblestones e Periscopes, dividindo o outside com no máximo 15 pessoas – um sonho que se realizava, ondas perfeitas e sem crowd.
Na volta de Sumbawa para Bali, tive apenas dois dias para me despedir de tudo e de todos. Fiquei muito triste, pois alguns balineses foram minha família por um tempo. Aquele é um povo muito solícito, trabalhador e feliz, que, apesar de toda a pobreza em que vive, está sempre sorrindo e compartilha de uma energia única, que encanta e muda – sim, muda muito – a nossa cabeça e o nosso ponto de vista sobre o que precisamos para ser feliz e sobre o que é a felicidade (falo nossa cabeça porque conheci muita gente que passou pela mesma situação).
Depois de Bali, passaria apenas uma semana na Gold Coast, tempo suficiente para me despedir da galera e dos picos. E, pra minha surpresa, quando cheguei lá uma onda que até então era uma lenda estava funcionando: Kirra era a única onda surfável em toda a região. Ver e surfar essa onda foi algo indescritível, e isso, com certeza, fechou com chave de ouro o melhor ano da minha vida.
Não poderia deixar de agradecer a todas as pessoas que estiveram ao meu lado nessa trip. Apesar de viajar sozinho, jamais estive sozinho; sempre estive rodeado de amigos, que levarei para a vida toda. Muito obrigado a todos.



















