IV ? O gênio mau-caráter.
Pois bem, depois de muita conversa, ao chegarmos à casa do Pepe, na rua detrás da praia, ele me revelou, com estudada circunstância, o seu livro sobre Miki Dora. Percebi a beleza e a profundidade da obra. Acredito que essa dissecação da trajetória de Dora marcará a psique do ambiente surf com uma consciência um pouco mais aprofundada a que estamos acostumados.
Miki Dora era, em muitos aspectos, mal-intencionado, e conhecido fraudador de cartões de crédito, entre outros delitos menores. Uma entidade verdadeiramente à margem da sociedade e, considerada por muitos, maligna. Acredito que Miki se comprazia dessa fama. A frase pichada há décadas num muro da praia de Malibu, no sul da Califórnia, ?Dora is king?, mostra que há controvérsias.
Ele fazia questão de ser cáustico, ácido. Reservava sua doçura para o mar (estranho como seu mel combinava com o sal). O acolhimento da comunidade do surf por um cara que fazia o seu dark-side brilhar à luz do dia é sintomático. Existe uma admiração visceral por quem tem a coragem de transgredir. Miki Dora nunca trabalhou, embora eu considere a busca das ondas pelo mundo como a mais nobre das ocupações.
O personagem continha, ao mesmo tempo, o brilho do talento e o poço difuso e obscuro da loucura. Alguém se identifica? Mais uma prova de que o gênio independe do caráter. Longe de ser uma exceção no nosso meio, Dora é, ainda hoje, emblemático para a tribo e para toda uma idéia ao mesmo tempo espontânea e construída de uma mistura alucinada de rebeldia & natureza selvagem, contestação do sistema social & fluidez com as divindades oceânicas, e, mais uma vez: mau-caratismo & genialidade. Vem daí o seu fascínio.
Dora era o protagonista virtuose que dançava, ao mesmo tempo, com as ondas e com o demônio. Um carismático fantasma que vivia a vida na carne politicamente incorreta. Se Dora ouvisse o termo ?politicamente correto?, hoje, provavelmente cuspiria no interlocutor. Não foi o criador, mas o incentivador de uma antiga e flexível ?ética?, não compartilhada pelas autoridades. Sua postura era de ruptura com o social aceito.
?Mas o surf não é exatamente isso?!?, diríamos todos: contracultura? Ao perder parte dessa característica, ao longo do tempo, a mística do surf derreteu pelas bordas de recifes artificiais e piscinas com ondas. Balançaram perigosamente e ao mesmo tempo o seu charme e a sua essência. O surf não é mais aquele. Foi absorvido e pasteurizado? Sim. Principalmente para quem acredita no que vê, não no que sente. O que se vê é uma multidão dentro da água. E o que se sente? A essência está intacta? A invasão das massas não dirime o molho.
O molho é interno e invisível ? como o tubarão de Kahuku. É nosso. É Miki Dora. Apesar das patacoadas das pessoas em terra, o surf, lá fora, continua o mesmo, inalterado, incólume. Puro como sempre. Surfamos o efêmero. Vivemos dentro daquela entidade, a onda, somente por alguns segundos – claro, um sem-tempo em forma de eternidade -, e ela logo desaparece para sempre nos deixando órfãos mais uma vez, e outra, e outra. Como um sexo amoroso que sempre se renova e nunca é o suficiente. A vida é que é uma metáfora do surf.
Já na comunidade, a transgressão virou agressão. Ou se é careta ou se é bandido. Há pouco espaço para o meio termo da malandragem saudável. O Brasil, um belo exemplo em particular, é precursor e ao mesmo tempo se ressente desse estreitamente das possibilidades de ?ser no mundo?. Ao se ampliar em número – 7 bilhões -, a sociedade desumana, paradoxalmente, afunilou-se em possibilidades de comportamentos alternativos.
É como se um neurótico Big Brother nos vigiasse e, quando mais crescemos em número, mais vigilância sofremos e menos autenticidade podemos manifestar. A criatividade está limitada pela dor. Dora abandonou a sua querida Malibu há décadas, fugindo do crowd, e morreu, finalmente, de câncer no pâncreas, em 2002, com 67 anos. Dedicou boa parte de seus últimos anos a surfar picos remotos do planeta. Soa familiar.
Exatamente como um ícone niilista do esporte deveria. Só Miki Dora para seguir um enredo tão óbvio e ainda soar original. Quem quiser saber o resto vai ter que ler o livro do Pepe. Um depoimento rico em detalhes de quem leu tudo o que havia disponível para ler sobre o cara, mas deixa para o leitor decifrar a esfinge marota de Malibu.
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que nem sempre é preciso se locomover para entender, e que o caráter é um atributo relativo, essencialmente cultural. É autor dos livros O Surfista Peregrino e Almaquatica, nas livrarias Saraiva, da Vila, Cultura, La Selva e Argumento, no Leblon.
(continua)
