III ? O acesso ao divino, as duas éticas e o obstinado
Para não perder o embalo do drop na História, e retomando essa já extensa analogia egípcia, mais longa que a onda inca caballo de totora de Chicama, no Peru, eu digo que, da mesma forma que construir uma pirâmide era uma honra para os egípcios, surfar é uma honra concedida a nós. Não exige sacrifício humano, mas do ego.
É quando o mar permite que nos construamos no conhecimento de suas ondas. Quanto mais cônscios de uma eventual platéia na praia, quanto mais tentamos nos apoderar do orgulho por uma manobra bem feita, quanto mais tentamos ser melhor do que os outros e não melhor que nós mesmos, menos elegância dentro da água e pior surfamos.
Se, estamos leves e acessamos o prazer, o mar nos aceita. Aceita o templo de nossas dois milhões e seiscentas mil células anfíbias cada vez mais longe do túmulo. Elas formam um espírito que possui um corpo, não o inverso. Subitamente somos guelras e não pulmões: no exato momento em que passamos o umbral da areia com nossos passos e somos mar com nossas mãos. Guelras. Pense nisso. Retomamos nossa herança evolutiva. O ar entra pelo corpo, mas passa pela alma. A água salgada também. Arde nas narinas e na existência.
Vale ressaltar que aquelas cenas hollywodianas de escravos sendo açoitados na construção das pirâmides é pura balela, segundo a minha amiga, a egiptóloga Flávia Haddad, que se aprofundou na história desse povo milenar em cursos na França e no próprio Egito durante os últimos nove anos. Os próprios egípcios, homens livres, eram voluntários para construir o templo mortuário do representante dos deuses na terra, o faraó. Nesse caso, ao contrário dos surfistas que, quando mais açoitados pelos ventos e pela crista das ondas, mais livres são. Desertos e mares são complementares. Secos & molhados.
O planeta é assim, o ser humano idem. Na maioria das vezes muito mais humano que ser. O nosso esporte é úmido como o amor. E lá vai mais uma tentativa de validar a analogia: os egípcios buscavam, através do trabalho coletivo ? a construção das pirâmides -, a ligação com o divino. Na nossa era de exacerbada individualidade e conseqüente fragmentação, procuramos Deus na solidão. Por exemplo, mas não exclusivamente, na nossa atividade essencialmente solitária: o surf. São duas terapias diversas separadas por éticas diferentes e 5.000 anos de História, em função de um mesmo objetivo: a integração do Eu.
Voltando ao egípcio Pepe – um homem livre que escolheu homenagear o divino -, acompanhei o seu longo (sob a ótica ocidental) e muitas vezes, doloroso processo de aprendizado no surf. Em minha opinião, no seu estágio atual, assim que ele aprender a valorizar ainda mais o silencio do mar é capaz de dar um salto quântico na qualidade da sua prática.
O Canto do Moreira não é o lugar mais indicado para principiantes, mas uma vez que se consegue, através de muita persistência, vencer o portal da dificuldade e dos lips que atiram lá de cima e sem misericórdia até os mais experientes, a maioria dos outros picos torna-se bem mais fáceis de encarar. Uma espécie de guerra santa sem religião que utiliza água-benta salgada e um pouco de sangue. Houve, é claro, seqüelas físicas e psíquicas nele e em alguns outros surfistas que, incautos, atravessaram o seu caminho nos primeiros drops cavernosos, um tanto sem preparo e, acredito, um tanto ansiosos, contra bicos e quilhas.
Mas, por fim, sobreviveram todos e, atualmente, a sua própria experiência, além das dicas dos amigos, se faz valer. Hoje pratica um surf quase indolor, apaixonado, prazeroso e ainda muito persistente. Anos e anos de friacas, mares mexidos, caldos e crowds, muitas vezes hostis, não tiraram o nosso amigo da rota do surf e ainda lhe deram uma GPS emocional confiável dentro do universo aquático. Toda essa vontade lhe valeu o apelido que cunhei em sua homenagem: ?o obstinado?, o que é também uma qualidade inerente, não posso me furtar a apontar, dos arquitetos egípcios.
Se você considerar que as palavras ?pirâmide? e ?faraó? são na realidade de origem grega, fruto, respectivamente, do formato de um prosaico doce grego ( !? ) que eles relacionaram com as construções que viram, e de uma má interpretação que os antigos gregos tiveram do nome do rei do Egito, vai perceber que é tudo uma puta ironia, e que a humanidade é uma brincadeira de carne e, mais uma vez, sangue, com a qual os deuses se divertem e nos ironizam. Particularmente, no nosso caso, o bom e velho Netuno.
Enquanto isso lá fora, no outside da antiguidade, os egípcios realizaram o trabalho espiritual, o intelectual e o braçal, e os gregos cuidaram do marketing.
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP OCEAN PACIFIC, viajou 50 países para descobrir que nem sempre é preciso se locomover para entender, mas que é necessário possuir certa ética inerente ao espírito para surfar como os deuses gostariam. Diz que um dia chega lá. É autor do livro ?O Surfista Peregrino?, nas livrarias Saraiva, da Vila, Cultura, La Selva e Argumento, no Leblon.
(continua)
